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fotografia (5)“É bom ter sexo, porque, na realidade, foi o único prazer que Deus nos deu que é gratuito”. Se o acto em si é, geralmente, gratuito, o que o envolve pode ser um negócio. O autor da frase, Francisco Gonçalves, é o proprietário da única sex shop em Barcelos. “Foi o meu primeiro negócio. Era um pensamento antigo. Já há algum tempo que tinha a ideia de abrir uma sex shop e interroguei-me: porque não em Barcelos, já que nunca vi cá nenhuma?”.

Cliente de lojas deste género desde os seus 19 anos, o jovem, de 23, natural de Sandiães, Ponte de Lima, mas estudante e com vida social em Barcelos, abriu as portas da Baunilha Prazer, na Rua Elias Garcia, em Dezembro último. A ideia surgiu da experiência como consumidor. “Tinha que me deslocar sempre para fora. Antes de eu abrir, já havia casas perto, em Braga ou Famalicão, que já tinham bastantes artigos, mas, às vezes, para comprar artigos específicos, algo mais arrojado, era preciso deslocar-me ao Porto”.

Quando Francisco Gonçalves afirma, com orgulho, que o seu estabelecimento comercial é o único do género em Barcelos, deixa bem clara a distinção entre uma sex shop e lojas de bugigangas ou lingerie com vibradores nas montras. Pois, para além da variedade e especificidade dos artigos, há ainda as obrigações legais que estas casas têm que cumprir. Num raio de 300 metros não podem existir igrejas, escolas ou parques infantis; o interior da loja não pode ser visível para o exterior; na montra, caso a haja, não pode ser colocado nenhum objecto considerado obsceno; e é proibida a entrada a menores de 18 anos.

Francisco Gonçalves conta que, obviamente, já menores tentaram entrar, mas só alguns consumaram a tentativa, e de forma legal. “Já entraram, acompanhados pelos respectivos pais, situação que me agrada. Um menor pode entrar, desde que acompanhado pelos progenitores. Mas não lhe posso vender nada. Se vender ao pai e ele lhe entregar, aí não há problema”.

Apesar de o negócio estar a cumprir as expectativas, não deixa de ser afectado pela tão badalada crise que afecta a carteira dos consumidores e leva os comerciantes ao desespero. E esta loja “pelo facto de ser uma sex shop, não é diferente das outras”, frisa o proprietário. “Quem disser que não sente a crise, eu acho que está a mentir um bocado. Quer queiramos, quer não, as pessoas reduzem o consumo, evitam certos gastos e, como é lógico, não sou diferente”.

Apesar de ainda não poder fazer uma comparação anual, Francisco Gonçalves garante que o negócio “está estabilizado” e que conta já com um núcleo de “clientes habituais”. “Quando avancei, já tinha tudo definido e a certeza que ia dar certo. Está dentro dos objectivos que eu tinha determinado para o primeiro ano. Pelo menos para já, não peço mais do que isto. Mas, claro, no segundo ano, terei que dinamizar alguma coisa, porque não posso estar à espera que os clientes caiam do céu”, salienta.

Numa primeira divisão da Baunilha Prazer estão as “brincadeiras”, produtos mais ou menos “inofensivos”, muitas vezes comprados para oferecer, como é o caso de biberões em formas fálicas ou vaginais. Há ainda masturbadores masculinos, tangas comestíveis, óleos afrodisíacos, estimulantes, retardantes, lubrificantes e vários tipos de preservativos – até os há em poliuretano, para quem é alérgico ao látex.

Já numa segunda zona, estão os artigos mais íntimos: lingerie, filmes, revistas, bonecas insufláveis, vibradores de vários tamanhos e feitios e bombas de vácuo. Os produtos mais vendidos são os óleos de massagem, as tangas comestíveis, a roupa interior, os preservativos e as “brincadeiras”. Os vibradores também têm saída, mas é um produto que não se “compra todos os meses”.

“BARCELOS É UMA CIDADE MUITO CONSERVADORA”

Pode-se, contudo, fazer uma distinção clara entre dois públicos. Aquele que compra objectos para dar aos amigos em festas de aniversário ou despedidas de solteiro (como as bonecas insufláveis) e o que vai à procura de produtos para satisfação pessoal. Neste último caso, há quem venha sozinho ou acompanhado, dependendo do produto em que está interessado… Se os vibradores, óleos de massagem e estimulantes são comprados, normalmente, pelo casal, já a compra de lingerie é feita apenas pela mulher (“com o intuito da surpresa”). Para comprar filmes, geralmente, o homem vai sozinho e as revistas são também mais do domínio masculino. Há ainda quem peça produtos que têm que ser encomendados, desde varões para colocar em casa, máscaras e fatos em vinil a chicotes de cavaleiro. “Há sempre o cliente que vem à procura de produtos específicos”, elucida Francisco Gonçalves.

Quer se queira, quer não, o sexo ainda é, muitas vezes, tabu. E até mesmo algumas das pessoas que têm a coragem de entrar numa sex shop, não conseguem esconder a vergonha e o medo de serem vistos. No entanto, o dono da loja repara que as coisas estão a mudar. “Nota-se já uma maior abertura, especialmente na camada mais jovem, mas aparecem aqui pessoas com 50 ou 60 anos. É lógico que Barcelos é uma cidade muito conservadora, as pessoas ainda têm uma mentalidade muito fechada. Nota-se, muitas vezes, que o cliente está interessado no produto, até porque passa mais que uma vez em frente a ele, pára, olha e nem sequer pergunta o que aquilo faz ou para que serve, ou, se calhar, até já conhece mas não leva por medo da pessoa que está atrás do balcão”. Por isso, este tipo de negócio é sigiloso e sempre discreto. Mesmo assim, o medo de ser reconhecido a frequentar uma ‘loja de sexo’ faz com que o negócio até se enraizar se mantenha com os clientes “dos arredores, que não são conhecidos cá e, por isso, vêm a Barcelos”.

Francisco Gonçalves encara o sexo com naturalidade e diz-se assustado quando vê pessoas da sua faixa etária dizerem que “usar um vibrador é uma coisa impensável”. Assinala que as mentalidades vão mudando, ainda que lentamente, e que “as pessoas deviam desinibir-se mais” e “tratar o sexo como ele é”. Acrescenta: “Ter relações sexuais é bom. E é bom até mais do que com uma parceira, porque aquela pessoa que conhece apenas uma parceira ou um parceiro durante a vida dificilmente vai ser feliz na sua actividade sexual”.

E como é que a família de Francisco Gonçalves encarou esta tão ousada aventura empresarial? “Desde que dê certo, foi o que os meus pais disseram, é um negócio como os outros e o que interessa é que dê resultado. A minha mãe disse logo que cliente não era de certeza absoluta, mas que se há pessoas que compram… por que não? Se há quem compra, tem que haver alguém a vender…”

“NUMA SEX SHOP, A PESSOA PODE DAR ASAS À IMAGINAÇÃO”

Carlos e Lurdes, nomes fictícios, são um jovem casal barcelense, ele na casa dos 30 anos, ela na dos 20. Juntos há cinco anos e casados há cerca de um, já frequentavam sex shops antes de se conhecerem. Depois de encetarem o relacionamento, passaram a fazê-lo juntos. “Somos pessoas de mente aberta relativamente ao tema. Uma sex shop não é mais que um comércio como outro qualquer que vende produtos específicos, que tem características específicas, mas não é nada do outro mundo. Não somos pessoas com qualquer tipo de tabu ou preconceito em relação ao sexo e achamos que, para uma relação saudável, o tema sexual é fundamental”, conta Carlos.

No rol de produtos predilectos do casal estão os géis, lingerie, artigos para oferta, utensílios e jogos “com algum cariz sexual” em que o casal se vai descobrindo e que “vão dando imaginação ou abrem um tópico para o casal ir brincando sexualmente”.

“Eu não vou atrás da pornografia, vou atrás de jogos de sedução. Nas sex shops, as relações podem ser muito apimentadas, recorrendo a alguns produtos”, explica Carlos. Lurdes acrescenta que este conceito de lojas não vende produtos apenas sexuais e que “há muitas outras coisas que se podem comprar lá, mesmo para oferecer e tudo mais”. E exemplifica: “Mesmo a nível de roupa interior tem coisas normais, se calhar mais ousadas que numa loja comum de lingerie, mas que, dentro do diferente, não deixam de ser normais”.

Entramos então aqui na questão da normalidade, que é sempre tão subjectiva e, até, por vezes, cruel, já que, não raras vezes, subsiste a ideia de que quem procura artigos relacionados com sexo é depravado. O que não corresponde à verdade. “Uma pessoa, entrando numa sex shop, pode dar asas a sua imaginação sexual. E não têm que ser pessoas depravadas, nem são pessoas depravadas. Há uma ideia pré-concebida na sociedade de que as pessoas porque vão a determinados locais são mais depravadas, o que eu acho é que toda a gente tem dentro delas a questão sexual e tem os seus fetiches. A única questão é ter ou não coragem para assumi-los e procurar realizá-los”, observa Carlos.

Em Barcelos, não são clientes de nenhuma loja do género. Ainda não tiveram oportunidade de ir à Baunilha Prazes porque, afinal, esta ainda é recente e. como é lógico, as idas do casal às sex shops não são diárias, nem semanais. “Não é como fazer compras no supermercado”, sublinham.

No entanto, se se proporcionar não terão problemas em visitar uma loja na cidade onde vivem, pois não têm problemas em ser vistos e reconhecidos. “Nunca sentimos esse receio, porque, ao contrário do que se calhar as pessoas pensam, quem frequenta uma sex shop não está minimamente preocupado com quem lá está ou deixa de estar. Acredito que numa primeira vez haja esse tipo de receio, mas isso não deve ser um factor de inibição”, considera Carlos.

O casal critica uma “sexualidade muito conservadora”, que qualificam até de “hipocritamente conservadora”, numa altura em que a satisfação sexual de ambas as partes é indispensável para uma boa relação. “Não concebemos uma relação saudável, se a nível sexual esta não for plena. O tempo em que havia submissão sexual já acabou há muito”, argumenta Carlos, que fortalece a ideia de que, sem um bom entendimento a nível sexual, a “relação está condenada ao fracasso”, porque, “mais cedo ou mais tarde, haverá uma ruptura, por via de a pessoa procurar a satisfação que não tem”. Muitos dos casais – vinca- separam-se por essa mesma razão: “Se calhar não é assumido, mas, se analisarmos essas situações, podemos falar da questão financeira, que as pessoas hipocritamente escondem, porque o dinheiro não traz felicidade mas ajuda, e o segundo aspecto mais importante é o de cariz sexual”.

Reportagem publicada na edição 448 (série II) do Jornal de Barcelos no dia 23 de Junho de 2010.

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