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As comemorações do 25 de Abril em Barcelos, integradas na Festa das Cruzes, tiveram o ponto alto com o concerto de Fernando Tordo, na Avenida da Liberdade. Com um álbum na calha, o músico pensava estrear as músicas que farão parte de “Por este andar” apenas no dia seguinte, na FNAC do Norte Shopping, mas, nas suas próprias palavras, “como Barcelos é Barcelos”, não resistiu a tocar duas músicas novas e a vender o mini-cd (três temas) de avanço do disco. O espectáculo foi arrebatador, cheio de emoções e terminou da melhor forma, com dois clássicos. Em “Adeus Tristeza”, Fernando Tordo saiu do palco e foi cantar para o meio do público. A última não podia ser outra senão “Tourada” – o tema com que venceu o Festival da Canção da RTP, um ano antes da Revolução dos Cravos. No final do concerto, o ex-vocalista dos The Sheiks falou à comunicação social e o Jornal de Barcelos colocou-lhe algumas questões. Ficámos a saber que Barcelos é, para Fernando Tordo, uma “terra muito especial”, que adora o nosso artesanato e que aqui encontra os “mais fantásticos” crucifixos da sua colecção. Admirador de Amy Winehouse, escreveu-lhe uma canção de tributo, porque, confessa, também ele já teve alturas em que “bebia uns copos”. Com 62 anos e uma carreira de 46, mantém a integridade de quem não aceita ser um simples produto de mercado dominado pelas editoras.

Foi um concerto emocionante. Foi uma boa forma de apresentar este novo disco?

Foi uma experiência muito interessante. Barcelos é, para mim, uma terra muito especial. Eu sou coleccionador apenas de uma coisa: crucifixos. E é aqui que encontro os mais fantásticos de todos. Hoje comprei um, feito por uma criança deficiente, que é provavelmente o mais bonito de todos que tenho. Para mim, que tenho muitos anos de carreira, estas coisas são as verdadeiramente importantes.

Estamos a comemorar o 25 de Abril e o Fernando Tordo é uma das vozes mais conhecidas da época…

Eu já fazia música antes de 1974, por exemplo “A Tourada” foi escrita antes do 25 de Abril. Infelizmente, dos nomes que fizeram história antes, durante e depois do 25 de Abril, alguns já não estão connosco e, portanto, eu faço parte de uma geração reduzida de nomes que são importantes.

Uma faceta que muita gente lhe desconhece é que foi vocalista dos The Sheiks, “os Beatles portugueses”…

E antes disso já vinha dos Deltons, que era o meu conjunto. Fui tirado dos Deltons pelos Sheiks, no ano em que o Carlos Mendes saiu, e fui substituí-lo. Em relação aos Sheiks, devo dizer que eu já era fã deles. O Paulo de Carvalho e o Carlos Mendes são dois músicos que eu gosto de ouvir e até fiz, depois, um trabalho com eles [um disco duplo gravado ao vivo no Casino do Estoril e que chegou a platina, em 1990]. Aprendemos muito com os Sheiks, aprendia-se muito com os conjuntos. Agora parece que uma imagem numa revista já faz uma carreira.

O mini-cd que Fernando Tordo apresentou tem três temas. “Diz Obama” é sobre uma conversa que teve com o neto João. “Joaninha Voa, Voa” é dedicada à sua filha Joana. E, por fim, faz um tributo a Amy Winehouse.

Eu gosto muito da Amy Whinehouse. Ela é uma grande cantora e é alcoólica, mas o alcoolismo não é um vício, é uma doença. Ela não tem culpa que a deixem ir para o palco totalmente alcoolizada [referindo-se ao concerto da artista no Rock in Rio Lisboa, em 2008]. E essa música é um tributo que lhe faço, porque, em determinada altura da minha vida, também bebi uns copos. Todos nós temos as nossas doenças…

Quando fala da Amy Winehouse está a fazer, no fundo, uma crítica ao mercado musical…

Eu estou a criticar tipos que montam um esquema de milhões, que se aproveitam do sucesso gigantesco de uma fulana e depois não tomam conta dela. O próprio pai também ajudou à festa; era um taxista que hoje é arquimilionário à conta da filha. Quando é para sacar os proveitos vale tudo. A máquina é muito poderosa. As editoras já não têm o poder que tinham, mas num caso como o da Amy Winehouse, os milhões que movimenta são de tal ordem que toda a gente se passou da cabeça: tens que ir para o palco, porque são muitos milhões que estão em causa. Por causa do “tens que ir, que estão em causa milhões”, é que o Michael Jackson morreu.

O Fernando Tordo sempre combateu essas pressões das editoras?

Isso é gente detestável, são as pessoas que deram cabo da música. Em Portugal, essas pessoas têm nomes. Estavam atrás das grandes editoras que foram todas à falência e foram todos despedidos… Mas no nosso país, tudo demora muitos anos. Deviam ter sido despedidos mais cedo. Aliás, nem deviam ter entrado. Divertiram-se, gozaram, sacaram o que quiseram, mandaram isto tudo abaixo. Portanto, editoras não. É a diferença entre estar a dizer isto e não dizer nada. Eu posso dizer isto e toda a vida pude. Não há uma editora que me tenha escrito uma canção, que me tenha obrigado a fazer fosse o que fosse. Quando a gente não deve não teme, mas para a maior parte das pessoas que aparecem em qualquer parte do mundo, a realidade é que têm que se sujeitar.

Entrevista publicada na edição número 440 (série II) do Jornal de Barcelos no dia 28 de Abril de 2010.

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