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hermanjoseGoste-se ou não, Herman José é uma figura incontornável do humor nacional. Um pioneiro. Nos últimos anos, a sua imagem televisiva foi sofrendo um forte desgaste e as audiências dos seus programas foram caindo, até o humorista se tornar um estorvo para os directores de programação. Mas nos palcos, a realidade é muito diferente. Barcelos pôde confirmá-lo no 13.º Encontro Motogalos, no Parque da Cidade, com um espectáculo cómico-musical que pôs os motards a rir e a cantar, muitas vezes com um sentimento nostálgico, quando eram recordadas personagens antigas e bem conhecidas de todos, como o comentador desportivo José Estebes, a representante do povo Maximiana, ou o músico popular Serafim Saudade. E não faltaram canções como “Saca o saca-rolhas” ou “A canção do beijinho”, numa performance que terminou com a mais recente, mas nem por isso menos vibrante, “És tão boa”. Houve ainda tempo para uns “carinhos” especiais: “Na SIC são todos uns filhos da puta”, disparou o entertainer.

No final, Herman concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal de Barcelos. Mais baixo do que parece na televisão (sim, ainda mais), o artista transborda uma boa disposição natural. É um verdadeiro gentleman: acessível, educado e prestável. Com um discurso sereno e fluente, falou da amarga saída de Carnaxide, da passagem pela TVI e da “necessidade fisiológica” de voltar à RTP. Vê com bons olhos a nova vaga de humoristas portugueses, embora assuma que os Gato Fedorento lhe roubaram o seu espaço, e conclui que se viu envolvido no caso Casa Pia, porque falou “demais”.

Pode dizer-se que foi um belo espectáculo.

Não, foi uma bela aventura. Estes meios acabam por ser mais um convívio do que um espectáculo. Para mim, a lógica de espectáculo inclui sala, concentração e um discurso bastante mais longo. Portanto, eu diria que foi um belo acontecimento. É quase como um comício. Tens que manter as pessoas atentas, senão elas dispersam. Ao ar livre, há outros focos de concentração e, por isso, a atitude é completamente diferente.

Em palco, demonstrou um certo descontentamento com a SIC.

É mais desprezo, não é descontentamento.

Mas porquê? Foi assim tão mal tratado?

Fui, fui. Mas não fica nenhum rancor. Agora também uma pessoa não se vai armar em hipócrita. Se alguém me fez mal, não vou passar o resto da vida a fingir que não foi nada. Trataram-me mal, portanto, tenho, pelo menos, o direito à indignação. Os primeiros cinco anos [na SIC] foram excelentes. Depois, o director de programas, Manuel Fonseca, saiu e eu devia ter saído também nessa altura. A partir daí, fui sempre um corpo estranho na empresa.

Teve depois uma passagem breve pela TVI.

Foi uma gentileza do José Eduardo Moniz. Uma maneira de dizer: estamos a precisar, apresenta aqui duas edições de um normalíssimo concurso de Verão. O programa era um simples concurso de imitações, onde eu não tinha grande hipótese de fazer nada. Mas foi uma passagem muito agradável e simpática, que podia perfeitamente ter descambado numa continuação de colaborações com a TVI, não fosse a minha vontade de voltar à RTP.

Era aí que eu queria chegar… É bom voltar a casa?

Eu precisava mesmo, era uma necessidade fisiológica.

Na RTP está mais à vontade, não tem aquela constante pressão das audiências…

Há um duplo critério na RTP: as audiências contam, mas conta, sobretudo, a qualidade do produto. Nos canais privados, a única avaliação são as audiências. Isso é muito cruel. Uma pessoa pode fazer uma obra-prima que se não funciona em termos de audiência vai para o lixo imediatamente.

Se formos a ver a sua carreira, reparamos num miúdo que pega num baixo, começa a tocar e acaba por se tornar no maior fenómeno do humor português.

Mas foi com muito trabalho, não foi de repente.

Sim, porque até foi bastante faseado ao longo dos anos…

Quando comecei no Teatro era um canastrão. Depois descobri que pegava num microfone e as coisas mudavam. Contava as piadas ao microfone… Foi aí que eu comecei com os espectáculos de província. E foi através desses espectáculos por todo o país que me formei como actor e humorista. O meu maior erro foi, a partir de certa altura, nos anos 90, ter deixado de fazer estrada, porque só aí é que evoluis. Quando uma pessoa está fechada num estúdio, não está em contacto com as pessoas. Uma das minhas maiores preocupações é cativar as novas gerações, porque o produto tem que ser interessante transversalmente – não posso estar só a trabalhar para as pessoas da minha geração e da geração de cima – e isso só sentes se estiveres nos sítios e palpares os sentimentos das pessoas. Se estiveres só num estúdio, crias um mundo virtual, que, muitas vezes, se torna preguiçoso.

O Herman foi uma pedrada no charco, foi o primeiro português a fazer um tipo de humor mais agressivo e até teve problemas, foi censurado…

Pois, levei muitas pedradas também. A censura foi uma coisa com uma violência sem justificação, foi em 1988. Mas depois também tive outros problemas complicadíssimos. Fui tendo sempre chatices, até que me habituei. Numa semana dizia uma piada e na seguinte acontecia alguma coisa. Um dia, disse uma piada no “Herman 98”, na RTP, sobre o Jorge Sampaio e a mulher, e na semana a seguir cortaram relações comigo. Por isso, hoje em dia, fico muito contente quando vejo gente como o Bruno Nogueira a dizer piadas bastante atrevidas que eu já mais poderia dizer na altura.

O Herman abriu portas…

O Ricardo Araújo Pereira diz, com muita piada, que fui eu que dei o corpo às balas. Fui à frente levar os tiros e eles agora continuam o caminho.

Como é que vê actualmente o humor em Portugal, os seus pupilos?

Vejo bem, porque são pessoas cultas, e como são cultos, o humor deles tem um substrato cultural que o eleva. Mesmo quando o produto parece simples, traz qualquer coisa agarrada. Quando eu comecei a fazer as minhas coisas, o humor era profundamente inculto. As pessoas faziam humor a pensar no povo: não digas isso que eles não vão perceber, isso não vale a pena porque eles não percebem. Mas eles quem? Eles são todos burros? E depois eu pensava numa frase do Woody Allen muito gira, à qual eu dou muita importância, que diz que desde que uma pessoa goste, já valeu a pena; se uma pessoa perceber a piada, mesmo que esteja a trabalhar para um milhão, já valeu a pena tê-la feito.

Os Gato Fedorento roubaram-lhe o seu espaço?

Claro, mas isso não há nada a fazer. Nos mercados pequeninos, o queijo é dividido, e se de repente começa a tirar-se muito da mesma fatia, vai faltar noutro sítio. É a lei da concorrência, por isso é que eu me assumo, serenamente, como concorrente deles todos. Se eu vim aqui hoje fazer um espectáculo, alguém não veio. Se alguém for amanhã a outro sítio, não vou eu. E muito do desaire do “Hora H” foi por ter sido estreado em cima do êxito deles.

Houve também uma certa hostilidade por ter sido lançado no caso Casa Pia, do qual acabou ilibado. Pensa que houve alguma intenção de alguém por trás que o quisesse queimar?

Eu falei demais, achava coisas demais. Tinha um programa todos os domingos e todos os domingos falava no processo. Tanto falei que foi inevitável.

Mas sentia-se um bocado no ar – quando começou a aparecer o caso e dizia-se que havia famosos envolvidos – uma vontade popular de que o Herman fosse um deles. Como explica que todos o adorassem e de repente houvesse uma vontade de o lançar para a fogueira?

Nós somos todos assim, todos! Sem querer, vamos ver o nosso ídolo de Fórmula 1 com a secreta esperança que tenha um acidente. Ficamos encantados com as vitórias do Cristiano Ronaldo, mas se ele tiver uma lesão e deixar de ganhar não sei quantos milhões, secretamente, a pessoa respira fundo. Somos muito perversos e não adianta achar que é de outra maneira, porque é assim que funcionamos. É típico do ser humano.

Entrevista publicada na edição número 442 (série II) do Jornal de Barcelos no dia 12 de Maio de 2010.

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