Home

0410_rui veloso

O concerto de Rui Veloso foi o momento musical mais alto da Festa das Cruzes. Milhares e milhares de pessoas formaram uma incrível massa humana a perder de vista, na Avenida da Liberdade, para ver o músico, que comemora 30 anos de carreira, e ouvir temas bem conhecidos como “Paixão”, “Porto Côvo”, “Chico Fininho” ou “Porto Sentido”. Há três meses sem tocar, o cantor apresentou-se sem o seu mítico baixista, Zé Nabo, devido a problemas de saúde, que foi honradamente substituído por Guilhas, filho da actriz Margarida Marinho. O “pai do rock português” ainda lembrou os Rio Grande com “Dia de Passeio” e “Postal dos Correios” e só não tocou “O Meu Primeiro Beijo”, dos Cabeças no Ar, porque não houve oportunidade para um segundo encoreApós o espectáculo, a entrevista com os jornalistas, que seria de apenas dez minutos, transformou-se numa conversa “em família” que durou quase uma hora. O artista, entre tragos de tinto alentejano e um cigarro cravado, recordou o primeiro concerto que deu em Barcelos, falou de BB King e da possibilidade de voltar a tocar com o “mestre”, criticou violentamente as rádios nacionais e confessou-se fã do humor dos Homens da Luta.

Este foi um grande regresso a Barcelos?

Este ano foi o meu primeiro grande concerto e adorei. Lembro-me de estar aqui há 20 anos no pavilhão, com o “Mingos e os Samurais”, e aquilo foi uma enchente que foi uma loucura. Um concerto incrível, não cabia uma agulha.

Até houve um percalço…

Houve?! Ah, foi quando me mandaram com a moeda. Eu insultei o gajo, que lhe dava com a guitarra nos cornos [risos]. Foi em Barcelos, exactamente. Em 1990. O gajo acertou-me com uma moeda pequenina, fez-me um lanho na testa. Eu tinha óculos, se o gajo me acertava nos óculos tinha-me cegado.

Como é que isto de comemorar 30 anos de carreira? É muito ano…

Eu não ando a comemorar. Não comemoro nada. É bom é estar vivo e andar por aí a tocar. Estou a tocar músicas de há 30 anos, que é uma coisa que me faz uma confusão danada. As pessoas ainda querem ouvir o “Chico Fininho”. Não percebo. Isto também é uma prisão. Uma pessoa faz um disco novo e quer tocá-lo, mas as pessoas querem ouvir as músicas antigas.  

Dizem que o Rui Veloso é o pai do rock português. O José Cid diz que é a mãe, isto não é um bocado confuso?

[risos] Para mim não, não assumo nenhuma paternidade. A não ser a dos meus filhos e mais nada.

O BB King já lhe ligou para ir tocar a Sabrosa, Vila Real [29 de Maio  de 2010]?

O presidente da Câmara já entrou em contacto comigo, mas não sei se vou. Por mim ia, mas o BB King já está velhote. Ele dava 250 espectáculos por ano, no mundo inteiro, portanto, aquilo não mata, mas mói muito. Já está a chegar mesmo ao fim da carreira. Agora teria mais significado para mim, porque há 20 anos tinha medo de tudo, borrava-me todo. Agora não, já vou com mais à vontade. E já tenho consciência que sou eu a tocar com o mestre. Na altura não dava conta de nada. Fui atirado as feras e tentei safar-me o melhor que pude. Vi-me à rasca, mas ouvindo as coisas que fiz, safei-me [risos].

Como é que as músicas do Rui Veloso foram passando de geração em geração?

A explicação que eu posso dar é que este país, antes de 1980, não tinha nada, era um deserto. A música que havia era o Festival da Canção; parava o país para ver aquela porcaria. Não era possível existir rock, porque o pessoal com 20 anos ia para a tropa. A guerra estragou o nosso rock’n roll. O que nós [músicos daquela geração] trouxemos foi canções para toda a gente cantar.

Acompanha a música que vai nascendo em Portugal, actualmente?

Tento acompanhar, mas não é fácil porque não sei onde comprá-la.

Isso é uma crítica?

Sim. As rádios nacionais passam muito pouco do que se faz. Queres ouvir o último álbum dos Gaiteiros de Lisboa e vais ouvir onde? Por exemplo, a rádio pública praticamente não passa fado, nem a Mariza, que é um fenómeno mundial. Os D’ZRT foram um sucesso do caraças e não passavam, porquê? Os putos não têm direito? Nunca percebi. Os gajos que estão lá na rádio são uma cambada de azeiteiros, não percebem nada. Os D’ZRT são aquilo que são, mas com o sucesso que tiveram, em qualquer país do mundo passavam na rádio. Os espanhóis são mais azeiteiros que nós, mas apostam na música deles.

O Rui tocou duas músicas de Rio Grande. Este foi um projecto curto, mas que parece ter marcado a música portuguesa para sempre…

Completamente. Até eu ia ver aqueles cinco cromos em cima do palco. Quem me dera estar do outro lado para ir ver os gajos. O disco é das coisas mais simples que se fizeram em Portugal. Sem bateria, sem guitarras eléctricas e tem 35 minutos. Foi gravado no meu estúdio, que não tem nada a ver com o que é agora. Agora é um Ferrari, na altura era um Polo ou um Golf. Foi uma tour gastronómico-vinícola bestial…

Com o Jorge Palma ainda por cima…

É verdade, o Palma sempre punha mais uma marca na coronha do que a malta… [risos]

Por falar no seu estúdio, os Homens da Luta [dos irmãos Jel e Vasco] gravaram o álbum consigo.

Eu gosto muito deles. Gosto daquele humor tipo Borat, gosto muito do Ali G. Perguntei-lhes uma vez: para vocês serem assim o que é que o vosso pai fazia? Era cabeleireiro. E o avô era radical do Partido Comunista e eles agora estão proibidos de ir à Festa do Avante! [depois de terem levado a “luta” à Atalaia e irritado os comunistas mais ortodoxos]. O Vasco dizia-me que eles eram putos, havia eleições, e como tinham a mania dos autocolantes, o gajo colou um do PPD. Quando chegou a casa do avô, ele queria pô-lo fora, porque o neto não podia entrar em casa com um autocolante do PPD. E o puto era pequenino. Qual é aquele nome que eles estão sempre a dizer?

Falâncio.

Sabes quem é o Falâncio? Eles não sabem quem era. Era o avô que, volta e meia nas conversas, falava de um amigo que era o Falâncio. Aquilo era tipo código, e então o Vasco ficou o Falâncio. São geniais. Eu gosto muito dos Gato Fedorento, principalmente do Ricardo [Araújo Pereira], que escreve muito bem, mas identifico-me mais com o humor do Jel e do Vasco.

Entrevista publicada na edição número 441 (série II) do Jornal de Barcelos no dia 6 de Maio de 2010.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s