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IMG_7219“Câmara de Barcelos, bom dia”. Amadeu Barbosa, 57 anos, repete esta frase todos os dias, vezes e vezes sem conta. Por si passam “mais de mil” chamadas diárias – “só tenho duas orelhas, mas, às vezes, precisava de três”. O telefone não lhe dá descanso – liga, atende, transfere chamadas, dá informações. Está, até, muitas vezes, com dois auscultadores em simultâneo. E é quinta-feira, um dia mais calmo, garante.

Por entre as constantes chamadas, o telefonista da Câmara Municipal de Barcelos, há já 30 anos, avisa: “Não vai perguntar, como muita gente pergunta, se já nasci assim. Não, quando eu nasci, era muito mais pequeno”. Quando lhe fazem esta pergunta, querem saber se já nasceu cego. O sr. Amadeu, como é tratado por todos, foi afectado por uma atrofia do nervo óptico (glaucoma) quando tinha 18 anos. Aos 24 perdeu totalmente a visão.

Até lhe surgir o problema fazia trabalhados de madeira na sua terra de origem, em Lordelo, Paredes, profissão na qual se iniciara com 11/12 anos. Começou então a fazer reabilitação (“actividades diárias, locomoção, braile”) no Porto e em Lisboa. Entretanto, com 27 anos, começou a trabalhar na autarquia de Barcelos.

“Tive muita dificuldade em vir para a Câmara, porque era quase inédito um cego trabalhar, ou, pelo menos, trabalhavam muito poucos cegos. Valeu a boa vontade da Câmara de então e fiquei aqui à experiência. Tive dificuldade em conseguir, mas quando vim, gostaram de mim, fiquei e a partir daí já meteram mais quatro cegos”, conta. E se já era difícil a adaptação ao novo trabalho até o material lhe complicou a vida… “Tinha tirado um curso de telefonista com 25 centrais, vim trabalhar para aqui e não tinha nenhuma das centrais que eu aprendi”.

“TELEFONISTA É A CARA DA EMPRESA”

Em três décadas as mentalidades foram mudando. “A principal dificuldade que eu tive foi que viam no cego um inútil, que não era capaz de fazer nada. Hoje as coisas são diferentes, até porque eu provei no terreno e no serviço que as pessoas estavam equivocadas. Quando vim para aqui as pessoas até tinham medo de falar comigo, agora todas falam”. Também já são muitos anos de casa, que levam Amadeu Barbosa a afirmar: “Estou em família. Não posso dizer que só tenha amigos aqui dentro, mas a maioria é amiga”.

Na sua mesa de trabalho tem uma central telefónica e mais dois telefones que não param de tocar. Ao seu lado tem listas em braile (feitas por si) com os números dos presidentes de Junta, escolas do concelho, e outros. A rapidez com que procura os números em braile ou os digita no teclado é impressionante. “Ver um cego a trabalhar e uma pessoa que vê é a mesmíssima coisa, porque não acredito que haja um telefonista com prática que olhe para o teclado”, diz. Aquela central telefónica tem cerca de 100 linhas e “duzentas e tal” extensões, que o sr. Amadeu sabe de cor: “Tenho que saber, senão estava desgraçado”.

“Good morning, doutor”, saúda o telefonista alguém que lhe pede para transferir uma chamada. Bem-humorado, tem sempre um gracejo na ponta da língua. Uma forma, também, de não se deixar cair na monotonia. “É um serviço muito repetitivo, mas eu gosto de brincar e gosto de dar à-vontade às pessoas. Eu costumo dizer que o telefonista é a cara da empresa. Se alguém ligar para cá e eu atender trombudo, as pessoas vão pensar: ‘aquilo é uma cambada de trombudos’”.

 “PELO TELEFONE NÃO SE NOTA NADA”

Apesar de considerar que seria “utopia” dizer que “os cegos são como os outros”, Amadeu Barbosa frisa, várias vezes, que a diferença não é muita e revolta-se com as pessoas que “ainda pensam que o cego só serve para pedir esmola”.

“O facto de ser cego não significa ser inteligente nem burro. É uma pessoa como as outras, só que foi-lhe vedada a capacidade de ver. E isso é muito relativo porque há muita gente que tem olhos e não consegue ver. Têm olhos e não têm cérebro”, completa.

Casado e com dois filhos, de 22 e 26 anos, gosta de jantar com os amigos, conviver e viajar. Todos os anos vai a novos países. Já foi ao Brasil, República Checa, Áustria, Alemanha, Suíça, Egipto, Israel… E agora tenciona visitar a Escandinávia. Como não é congénito, aproveita os comentários que ouve para imaginar o que o rodeia. “Se a minha mulher me diz ‘olha um barco grande no mar’, eu vejo-o na minha cabeça”.

Gosta de leitura: “Não sou capaz de dormir sem ler. Já li mais de 500 obras. Já li tudo do Eça, Camilo, Ferreira de Castro, gosto de Nicholas Sparks, Alexandre Dumas”. E alimenta a paixão pela boa mesa: “Prefiro ser cego e estar a comer a lagosta do que estar a ver outro comer a lagosta”, sorri. O que sente mais pena é de não poder conduzir e revela o medo que tem, quando vai de carro, das ultrapassagens, porque nunca sabe o que vem de frente.

Ao longo destas 30 décadas como telefonista da Câmara, não lhe faltam peripécias que conta entre risos. “Uma senhora de Famalicão, já há 10 ou 15 anos, ligava para cá e achava-me simpático. Dizia que quando viesse a Barcelos tinha que me conhecer. E então um dia veio. Perguntou por mim e disseram-lhe: ‘é aquele senhor ali ao fundo’. Veio, estendeu-me a mão e eu não liguei, não sabia quem era… Vieram a correr e disseram-lhe: ‘olhe que o sr. Amadeu é cego’. Ela: ‘pelo telefone não se nota nada’”. Outra vez, enquanto fazia horas extras, saiu “disparado” para ir à casa de banho, quando alguém avisou-o: “Oh Amadeu, não vás que não há luz”.

Reportagem publicada na edição 3 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 19 de Janeiro de 2011.

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