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Fotografia por Dario Silva

É definitivamente das casas mais emblemáticas e antigas de Barcelos. Conhecida pelos seus petiscos e refeições, a Casa Sêmea tem 73 anos de história(s). Tantos quanto os que conta Maria Alice Machado Gonçalves, que ali trabalhou durante 61 anos. Filha dos fundadores, Luís Cardoso Gonçalves e Maria Lucinda Machado, começou a trabalhar naquele local aos 10 anos, desde que saiu da escola. “Foi como o Toyota, vim para ficar”, ri-se. Só parou há dois anos por questões de saúde. “Não podia mais, mas tenho pena. Se eu reconstituísse a minha coluna, trabalhava novamente”. Gostava mesmo do trabalho, especialmente de lidar com as pessoas, e orgulha-se de sempre ter tratado os clientes com um sorriso na cara: “As pessoas nunca me trataram mal, porque eu sempre as tratei bem”. E, ainda hoje, como os clientes se “habituaram” à sua presença, continuam a perguntar por ela.

Mas, desde há dois anos, quem está à frente da casa é o filho Manuel Machado Coutinho e a sua esposa Cândida Coutinho. Mantém-se a tradição familiar e, com ela, a gastronomia regional que tanto nome deu à casa. Desde papas de sarrabulho, rojões, bacalhau à moda da casa até feijoada, entre outras especialidades, aos petiscos variados que embelezam o balcão: caprichos, panados, salsichas, bacalhau frito, pataniscas, fígado, bolinhos de bacalhau, rissóis ou polvo. A oferta é quase tão grande quanto as filas que se formam ao domingo para levar comida para casa – uma das marcas da Casa Sêmea. E, ao domingo também, até há doçaria! “Ninguém faz sonhos como nós”, garante Maria Alice, que ensinou o segredo ao empregado guineense, com 20 anos de casa, Bambo. “Tem que saltar no óleo e abrir”, explica, resumidamente, a forma para os sonhos ficarem bons e “não chumbados em óleo” como por aí se vê amiúde.

“A GENTE NÃO TINHA TEMPO DE OLHAR PARA O LADO”

Situado no Largo Marechal Gomes da Costa, perto da estação ferroviária, numa zona onde em que tempos houve muitas empresas, principalmente do ramo têxtil, a falência destas (CEE, Vouga, TOR, só para dar alguns exemplos) fez sentir o seu impacto no dia-a-dia do restaurante. “Quando tinha as fábricas, havia muito movimento, a gente não tinha tempo de olhar para o lado”, conta Maria Alice. E o corre-corre começava logo pela manhãzinha. “Às vezes, estava eu e o meu filho e não dávamos vazão. Às seis horas, já tínhamos frango estufado para vender. Servia-se numa travessa, porque era muita gente junto e, se fosse a servir uma sande a cada um, no final não sabíamos se pagavam todos. Assim, não fugiam, as travessas estavam contadinhas”, lembra. Era muito trabalho, mas ao fim do dia Maria Alice não se sentia “cansada”, pois era daquilo que “gostava”. Disso e do fado, que o sr. Trindade, funcionário da CP que de Coimbra trazia a “pronúncia” e o jeito para a cantoria, levava ao estabelecimento nas tardes de domingo. “Havia um intervalo maior entre os comboios e ele vinha até aqui. Eu arranjava um bocadinho de marisco, não lhe levava dinheiro, mas gostava de o ouvir cantar o fado. E ele passava a tarde ali a cantar, era melhor do que ir a um grande passeio, ao circo ou ao cinema. Aquilo para mim é que era cinema”.

E peripécias, durantes tantos anos atrás do balcão, não faltaram a Maria Alice, que quando chegava uma pessoa alcoolizada ao espaço “pegava numa garrafa de água e metia-a à frente dela” e dizia: “ofereço-lhe”. “Uns bebiam, outros levavam a garrafa, mas vinho não lhes dava. E toda a gente me tinha respeito”.

Localizado num ponto de passagem, nos dias de mercado semanal, muitas eram as pessoas que ali paravam para petiscar. Era o caso da oleira Maria Esteves, que hoje tem cem anos, e “ia para a feira com os bonecos feitos à mão na cabeça”. “Depois, vinha por aqui, pousava o canastro, mandava cortar um pão, pedia uma sardinha, bebia um copo de vinho e lá ia ela a pé para Galegos [Santa Maria] outra vez”, narra Maria Alice, viúva há 19 anos de José Maria Coutinho, que “mesmo doente, botava sentido” a ajudá-la no restaurante. “Tínhamos aí jornais e ele vendia-os, trazia uma fruta, ia ver vinho que fosse bom… Foi mecânico e com isso é que arranjou o problema que tinha na coluna. Havia falta de condições no trabalho”, relata.

SÊMEA, PORQUÊ?

Por fim, aberto o cardápio e contadas as histórias de uma casa com mais de setenta anos, bem conhecida de todos os barcelenses, vamos terminar pelo princípio: o nome. Porquê Casa Sêmea? “A minha avó fazia sêmea em casa e vendia toda a feira. Toda a gente dizia: ‘vamos comprar a sêmea à senhora Aninhas ou vamos à senhora Aninhas da Sêmea, e depois já todos eram do Sêmea”, conta Maria Alice. Do Sêmea.

Reportagem publicada na edição 81 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 18 de Julho de 2012.

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