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“É uma boa maneira de conhecer coisas e vê-las com outros olhos”. É este o fascínio que João Oom Martins, 43 anos, encontra no geocaching. Já descobriu quase duas mil caches em Portugal e na Europa (a mais longe foi em Istambul, Turquia) e detém “uma boa parte” das que estão espalhadas por Barcelos.

Claro que não vai a esses países distantes “de propósito” para seguir as coordenadas das caches, mas quando parte de férias ou sai “para qualquer lado”, aproveita para “ver as que há” por perto. “É uma boa ferramenta para mostrar o que há de bom, de extraordinário ou agradável em determinadas zonas. Todos os sítios bonitos, actualmente, têm uma cache”, assegura o geocacher, que começou a jogar “a sério” em Novembro de 2009 por influência de amigos.

O geocaching é um jogo que começou em 2000, como que uma caça ao tesouro, em que os jogadores têm que encontrar objectos escondidos (as chamadas caches) através de coordenadas GPS. A primeira cache foi colocada por Dave Ulmer, nos Estados Unidos. Em finais de 2010, já havia mais de um milhão de caches em mais de 200 países.

A localização dos ‘tesouros’ é dada através do sítio que junta praticantes de todo o mundo, http://www.geocaching.pt, cujo registo é gratuito. Depois de tiradas as coordenadas, o jogador vai com o GPS procurar as caches, que normalmente são tupperwares ou caixas de rolo fotográfico, escondidas nos locais mais insuspeitos. Dentro têm um ‘logbook’, papel para assinar, confirmando que a encontrou, e onde o jogador pode fazer alguma observação ao local. Há ainda a nanocache, do tamanho da ponta dum dedo, que só tem mesmo o ‘logbook’.

Em todos os casos, depois de achar as caches, o jogador tem que voltar ao site e dar conta de que as encontrou (‘found’); caso não tenha conseguido concretizar o objectivo, deve revelar que não o fez (didn’t find). Até porque a cache que procura pode mesmo não estar lá. “Às vezes desaparecem porque as pessoas não têm cuidado nenhum”, critica João Oom Martins. “A cache é uma questão de responsabilidade, tenho que garantir que ela vai durar no tempo”, acrescenta.

14 MIL CACHES EM TODO O PAÍS

Já fez 15 caches de “vários tipos”. Sim, nem todas são iguais. Há a tradicional, mais comum; a multi-cache, que obriga a passar num ou mais pontos intermédios para recolher as coordenadas da cache final; a earth-cache, que tem a ver com geologia e visa levar a pessoa a um determinado local (por exemplo, a um rio) e fazê-la descobrir certas características do mesmo; a enigma, que implica a solução de um problema para obter as coordenadas finais. Há ainda a cache-evento, que serve para os jogadores se encontrarem e conhecerem-se para além do nickname que usam no site.

“Cada uma tem o seu interesse”, observa o geocacher, que conheceu muito de Barcelos à custa do jogo. “Não sabia que havia a Campa do Frade [em Creixomil], e senão fosse o geocaching nunca conheceria. Serve para conhecer a distribuição espacial do concelho e saber o que há para ver”, atesta. Contudo, “por causa da massificação”, considera que “há caches a mais, que só valem peno número. São interessantes para quem as coloca, mas não têm interesse para quem as procura”.

Por todo o território nacional, em 2011, havia quase 14 mil caches registadas em http://www.geocaching.com. Mais cinco mil em relação ao ano anterior. Apesar de ser difícil de contabilizar, os jogadores serão alguns milhares. Em Barcelos, o número de geocachers não ultrapassará a centena.

As caches contêm objectos passíveis de serem trocados por outros de valor semelhante ou transpostos para outras. “Há de tudo. Podes deixar o que quiseres, objectos personalizados, mas o site diz para não deixar nada de muito valor. Depois há objectos que são oficiais, como as geocoins e os travelbugs”, aponta outro geocacher, Rui Rodrigues, natural de Perelhal. Ambos os objectos têm um código, através do qual, quando submetido na página da internet, é possível ficar a conhecer a história e o objectivo de cada um.

“Tenho um travel bug que queria ir à Alemanha, já andou oito mil quilómetros e ainda não saiu de Portugal”, revela João Oom Martins. Alguns acabam por desaparecer. “Há quem roube, há quem as guarde e não as ponha a circular”, diz.

CUIDADO COM OS MUGGLES!

Além de haver jogadores que não cumprem as regras, também é preciso ter o máximo cuidado com os muggles – termo adaptado da saga “Harry Potter” que, no caso do geocaching, se refere aos não praticantes. “Uma das regras é ter o máximo do cuidado para preservar e manter a cache activa, para não virem os ditos muggles e destruírem. Porém, as caches têm sempre um folheto informativo a explicar o que é o jogo, para o caso de alguém encontrar aquilo por acidente e, assim, não destruir”, contextualiza Rui Rodrigues, 33 anos, que começou “assiduamente” a fazer geocaching há oito meses, embora já se tivesse inscrito como jogador há dois anos, depois de ler uma reportagem sobre o assunto com o apelativo título “Caça ao Tesouro do Século XXI”.

“O que descrevia lá era o que eu queria fazer: andar na natureza e descobrir novos locais ao virar da esquina”, conta. A juntar a esse contacto com a natureza e belas paisagens, soma-se o conhecimento histórico-cultural, uma vez que grande parte das caches dão a “conhecer a história do local” onde está colocada.

Rui Rodrigues já encontrou cerca de 170 caches. Procura-as no “dia-a-dia”, quando tem “oportunidade de passar num sítio onde saiba que exista uma”. No telemóvel tem um programa que lhe indica as caches mais próximas e lhe dá as coordenadas. “Facilita-me, porque, senão tinha que fazer uma pré-pesquisa em casa, retirar para um papel as coordenadas e as dicas [para facilitar a descoberta] e ir para aquela zona procurar. Assim, em qualquer lugar que tenha acesso à internet, informo-me das caches que estão num raio de dois quilómetros”.

Carlos Ribeiro, 24 anos, de Vila Cova, começou a praticar há meio ano por influência de Rui Rodrigues e costumam procurar algumas caches juntos. O jovem, que ouvira falar pela primeira vez do jogo nos escuteiros, já encontrou mais de cem caches. Sempre que tem “algum tempo livre”, alia ao jogo a paixão pela fotografia.

Mas não é o único que faz geocaching por causa de Rui Rodrigues. O geocacher também já convenceu a sua esposa a acompanhá-lo na busca pelas coordenadas certas. “Em vez de irmos fazer o ‘passeio dos tristes’, andámos por aí à procura do tesouro”, sorri o geocacher.

Reportagem publicada na edição 64 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 21 de Março de 2012.

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