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Fotografia por Nuno Dantas

João Trigueiros está há cerca de cinco décadas ligado ao Gil Vicente. Teve uma curta passagem pelo clube como atleta, depois foi vogal, presidente do conselho fiscal, presidente da direcção e desde há vários anos que exerce as funções de presidente da Assembleia-Geral. Com 78 anos, deixou recentemente o cargo que nunca abandonou naquela que terá sido a fase mais negra do Gil Vicente (Caso Mateus e toda a crise que daí veio), sendo substituído por Duarte Nuno Pinto.

Na próxima sexta-feira, João Trigueiros vai ser homenageado pelo Gil Vicente. Um reconhecimento pelos anos de dedicação ao clube. Mas, modesto, o ex-dirigente diz que quem devia ser homenageado era António Fiusa, que foi “um homem extraordinário para o clube”. Em entrevista ao JB, lembrou alegrias e dificuldades que viveu nestes longos anos de ligação ao clube. A pior fase, sublinha, foi a descida à II Liga via secretaria em que “o clube esteve na iminência de acabar”.

Começávamos pelo início da sua ligação ao Gil Vicente, foi atleta do clube…

Estava a estudar em Braga e tinha um certo jeito para o futebol, até fui dos juniores do Sporting de Braga durante dois anos. Depois deixei de estudar e vim para aqui, para Remelhe, e fui treinar ao Gil Vicente. Eu pertencia ao Braga, o clube emprestou-me e fiz um jogo ou outro no Gil Vicente, nas reservas. Depois deixei o futebol, fui para tropa, acabou. Mais tarde fui convidado para vogal da direcção do Gil Vicente, no tempo do Padre Linhares, que era presidente do clube. Passados uns tempos, eu tinha uma fábrica têxtil e tinha um empregado que jogava nos juniores do Gil Vicente; eles tinham uma grande equipa e eu dava sempre um prémio aos jogadores, mas ninguém sabia quem era. A certa altura descobriram e acabaram por me chamar para a direcção. Na altura o Gil Vicente tinha subido à segunda divisão. Fui para presidente da direcção, estive lá quatro anos. Houve alguns casos interessantes… Trouxe o Meirim para Barcelos, na altura foi uma revolução, porque era o treinador mais conceituado do país, saiu do Belenenses, que na altura era uma equipa de topo, e trouxe-o para o Gil Vicente. Na altura era o salário mais alto que recebia um treinador de futebol, em Portugal. O Meirim recebia na altura 30 contos por mês, um preço altíssimo.

Como é que o Gil conseguia comportar isso?

Deixei lá muito dinheiro… E não estou arrependido.

Sempre sentiu necessidade de viver o futebol por dentro? É um mundo que acaba por ser viciante?

Sim, sim, isso é, efectivamente. É um bichinho que rói. E um indivíduo mantém-se muitas vezes arriscando coisas e sacrificando a família. Estive quatro anos afastado da direcção, até que veio um presidente do clube, o Sirineu, pedir-me para ser presidente da assembleia, eu não queria ir, mas fui. A certa altura, foi o caso do Drulovic, que era um jogador muito bom. Fomos buscá-lo à Escandinávia, que ele estava lá vindo da ex-Jugoslávia. O Carlos Coutada [actual presidente da Associação de Futebol de Braga] era director do clube na altura e tinha um irmão num país escandinavo e disse-lhe que tinha lá jogadores formidáveis que se ele quisesse vinham para o Gil. E fui assim que o Drulovic veio para cá. Eu era presidente da Assembleia nessa altura e depois mantive-me sempre até agora. Ultimamente estava apoiar a direcção do António Fiusa, que é um homem excelente e fez uma obra notável. Vão fazer-me homenagem a mim, eu não fiz nada de especial, mas ele fez. Conseguiu mobilizar todo o concelho para aquele jogo [Gil Vicente – Fátima]. Quatro anos em que eu o acompanhei de perto, falava todos os dias com ele, e ele passou por coisas terríveis (falta de dinheiro, Caso Mateus…) e ele conseguiu manter o clube e até subir. Foi um homem extraordinário para o clube. Ele é que merecia uma grande homenagem.

É capaz de ter sido o melhor presidente do Gil até hoje?

Sim, para mim, talvez o melhor. Passaram pela presidência grandes figuras como o Francisco Dias da Silva, os Magalhães foram bons presidentes, e houve outros. Mas ele passou dificuldades imensas e conseguiu subir de divisão, o que foi um feito notável.

Qual o momento mais feliz que viveu com o clube?

Foi a primeira subida de divisão e esta agora.

As festas foram parecidas?

Não, esta foi muito maior. Assisti no estádio, e nunca vi tanta juventude e tantas mulheres – muito poucas mulheres assistiam aos jogos, no meu tempo. Fiquei admirado com a quantidade de mulheres no futebol. E foi tudo obra do Fiusa.

As pessoas também se sentiam revoltadas com o Caso Mateus.

Sim, é verdade. Isso fez espoletar uma alegria enorme, até por um espírito de vingança: “atiraram-nos para a segunda divisão, mas por mérito próprio, estamos na primeira liga”.

O Caso Mateus foi a pior situação que viveu no Gil Vicente?

Sim, foi a pior. Há algumas coisas que eu não posso contar, mas o clube esteve na iminência de acabar. Muita gente não sabia. Conseguimos evitar isso.

Como é que fez para o clube não acabar?

Não posso divulgar…

Presidiu aquela assembleia memorável em que o Fiusa saiu em braços, recorda-se disso?

Também me marcou profundamente, correu muito bem. A gente estava com medo. Quando fui para a assembleia disseram-me: “tenha cuidado que isto vai ser o fim do mundo”. O ódio era tão grande e contra tudo… Mas correu bem.

Após tantos anos ligados ao clube, deve ter histórias bastante caricatas para contar.

Imensas. Quando cheguei ao Gil Vicente havia uns balneários junto ao muro da antiga TOR, aquilo tinha um silvado, e os balneários tinham um buraco e via-se para a TOR, aquilo era um perigo imenso. Pronto, mandei arranjar aquilo. Tive que fazer o muro e o arranjo nas bancadas, gastei 600 e tal contos na altura. Também foi a fundo perdido, porque o estádio não é nosso… Quer dizer, não sei se é nosso…

Pois, há essa questão de se saber se o estádio é do Gil ou da Câmara.

O Gil Vicente pagava uma renda ao Lopes da Silva [proprietário do terreno] e a certa altura deixou de pagar a renda e quem pagava era a Câmara e o clube ia buscar o dinheiro, mas a direcção da altura gastava-o no clube e não pagava a renda ao Lopes da Silva. Aquilo acabou por ir para tribunal e houve um litígio, porque também se dizia que aquilo não era do Lopes da Silva… Bem, aquilo passou-se e tinha que haver uma ordem de despejo, então a Câmara comprou o terreno, pagou ao Lopes da Silva e acabou em tribunal. Pagou, salvo erro, 30 ou 40 mil contos pelo terreno e o campo. Mais tarde, o presidente da Câmara, João Casanova, resolveu dar aquilo ao Gil Vicente. Houve uma assembleia municipal em que foi aprovada a doação do terreno ao Gil Vicente. E há uma acta disso, mas foi abafada. O falecido Abílio Martins tinha um documento que lhe havia sido dado pelo Partido Comunista, de Barcelos, que soube disso e deu-lhe uma fotocópia. Depois o Abílio morreu e eu nunca mais soube disso. O que é certo é que aquilo foi doado ao Gil Vicente pela Câmara.

Há sempre uma relação muito próxima entre futebol e política…

Sim, mas o Gil Vicente nunca teve muita força política em Barcelos. A maior parte dos clubes – Braga, Guimarães… – jogaram sempre muito na parte da política. O Gil Vicente não. Penso que agora vai ter uma certa força, obra do Fiusa, e isso é importante. Muitas vezes acho que o poder político não ajuda em nada o Gil Vicente. Por exemplo, a Câmara reduziu brutalmente o subsídio – compreendo que eles não tenham dinheiro, não estou a criticar – mas o que é certo é que as camadas jovens ficam caríssimas ao clube. Por exemplo, no outro dia, o Fiusa disse que já tinha gasto cento e tal mil contos num ano e o subsidio é de 50 mil contos. E é um subsídio que é dado às camadas jovens. Há quem diga que é dado ao futebol profissional, é evidente que o dinheiro entra e circula, mas o clube já pagou as camadas jovens. É sempre para as camadas jovens. E se o futebol tiver uma certa força… O Gil Vicente nunca teve força e agora poderá ter. O Braga é hoje uma grande equipa a nível nacional, porque foi muito ajudado pela Câmara, e o Guimarães a mesma coisa. Em Barcelos, fizeram um estádio [Cidade de Barcelos], mas não é do Gil Vicente. Temos uma situação boa em que não estamos a pagar nada, e já é uma grande ajuda, porque a manutenção fica muito cara.

Esta homenagem é um reconhecimento que o deixa feliz?

Fico agradado, digo-lhe sinceramente que fico orgulhoso por me fazerem uma homenagem, mas se não ma fizessem…. Não sou pessoa de homenagens. Homenagem merecia o presidente Fiusa. Esse é que merecia uma grande homenagem, porque tem sido um homem fantástico para o clube. Eu sei porque conheço bem as histórias todas. Ele conseguiu – até nem sei como, sinceramente – pôr o clube no sítio onde está agora.

Momentos e peripécias que a memória não esquece

João Trigueiros, mais do que um excelente conversador, é também um narrador de histórias nato. Lúcido e com um discurso escorreito, conserva na memória diversos momentos que marcaram a sua vida ligada ao Gil Vicente. E conta-os entusiasticamente com um sorriso nos lábios. Quando se estende um bocado mais, pergunta: “Estou a maçar-vos?”. Claro que não está. E aí ficam algumas peripécias que o carismático ex-dirigente gilista partilhou com o JB.

SOVADO PELA POLÍCIA

“Houve aqui um jogo com o Riopele em que a certa altura houve uma desordem de tal ordem que aquilo era polícia, era tiros… E eu, como era presidente da direcção, meti-me para ver se apertava aquilo. Acabei por levar uma coça da polícia, que não me conhecia porque era presidente do clube há poucos dias. Tinha as costas todas marcadas, aquilo não dói muito, mas fica a arder [risos]”.

JOGADOR PRESO

“Uma altura, em Vila Nova de Gaia, era o Meirim treinador, fomos jogar com o Vilanovense, e o Ângelo, que era o melhor jogador que tínhamos no meio-campo, bateu no árbitro. Houve uma disputa de bola, sem falta de maior e o árbitro expulsou-o. E o jogador mandou um murro ao árbitro. Foi preso. Ficámos sem o jogador e não subimos de divisão porque ele era fundamental”.

MANIF À PORTA DE CASA

“Não devia contar, mas marcou-me profundamente. Era presidente do Gil Vicente, decidi sair, mas queriam que eu continuasse. Ligaram-me a perguntar se estava em casa e pensei que era para me perguntarem se eu ia continuar ou não no futebol. Trouxeram camionetas, automóveis, motorizadas. Vim à porta, vi aquela manifestação, que hei-de fazer? Pediram-me para ficar. Pronto, eu fico”.

PINTO DA COSTA

“O bom do futebol é que se conhece muita gente. Eu sou benfiquista, mas nunca foi anti-portista, de maneira que até me dou muito bem com o Pinto da Costa e admiro-o. É um presidente fantástico, fora-de-série. Pode ter alguns defeitos, como toda a agente tem… E tenho algumas peripécias com ele. Uma altura disse-lhe: ‘Gostava que fosse presidente do SL Benfica’. E ele: ‘Ah, eu também gostava… Em 24 horas dava cabo deles’.”

O 25 DE ABRIL

“Tínhamos um jogador muito bom, que era o Pedrinho, e vendemo-lo no dia 23 de Abril de 1974. Vendemos o jogador por 500 contos, que era muito dinheiro na altura. Eles passaram o cheque, eu tinha o cheque na mão, no dia seguinte era o 25 de Abril. Fomos ao banco Pinto Sotto Maior (ficava à beira da Colonial). Fomos lá, levantei o cheque e passada meia-hora os bancos foram fechados. Se eu não levanto o cheque, passado um dia ou dois, os jogadores estavam todos livres, porque com a Revolução os jogadores que pertenciam aos clubes ficaram com as cartas na mão”.

O ANDAR QUE NÃO EXISTIA

“Tínhamos feito o sorteio de um andar, em 1974. O apartamento saiu a um indivíduo de Barcelos. Mas não havia apartamento nenhum nem dinheiro para o dar. Eu já não era presidente na altura e tive que entrar com a massa – entrei porque quis – para pagar os 400 contos, já depois de sair da presidência do Gil Vicente”.

Entrevista publicada na edição 28 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 13 de Julho de 2011.

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