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HPIM1685Há três anos, o Jornal de Barcelos foi conhecer a vida do homem, viúvo e reformado, que fazia miniaturas para preencher os tempos mortos. Desde então, Messias Alves começou a dedicar-se a uma outra função: aguadeiro. O artesão mora na Rua do Caminho de Santiago, em Courel. Sendo aquele uma zona de passagem de peregrinos, Messias colocou uns assentos, protegidos pela sombra, junto à sua casa. Os caminheiros passam, descansam e ele oferece-lhes água. “Eu tenho ali um sofá – antigamente só tinha um banco – e eles vêm cansados e sentam-se ali, debaixo da laranjeira. Pedem-me água e eu trago-os aqui ao tanque e eles enchem as garrafinhas”, conta.

Exerce aquela função há dois anos e meio, “por gosto”, já que o próprio também é devoto. “Eu gosto, porque também marcho muito. Ando muito a pé. E só tenho pena que não possa ir a Santiago de Compostela a pé, por causa da idade, as pernas já não me ajudam. Mas ainda vou à Franqueira e venho”, revela. Por ali passam muitos peregrinos e, às vezes, chega a ter no seu ateliê “seis ou sete casais” em simultâneo. “Contam histórias. Alguns, quando é no tempo das laranjas, pedem fruta, falam comigo… Alguns até me oferecem dinheiro, mas não senhor, não quero”, diz Messias.

Os bares, feitos a partir de pipos, são das peças que o artesão mais desenvolve, inclusive, já vendeu dois para Inglaterra. Há dois anos, fez um para colocar face ao caminho, ainda no jardim de sua casa, com uma imagem de Santiago; “umas alminhas” para os caminheiros fazerem as suas orações. “Eles param muito aqui, e eu agarrei no pipo e pus o Santiago lá dentro”. Com uma “latinha” para colocarem esmolas. “Não para mim, que não preciso, mas para a igreja”, esclarece.

 “É TUDO PELA MINHA CABEÇA”

Messias aproveita a paragem dos peregrinos para lhes mostrar as suas peças de artesanato. No entanto, com um longo percurso pela frente e carregando o peso da trouxa, poucos são os que compram alguma coisa. Mas alguns deixam a promessa de voltar para levar uma ou outra peça que tenham gostado.

O artesão faz barcos, bares, candeeiros, andores, altares… “Coisas que me dêem na cabeça. Isto não é pelo desenho, é tudo pela minha cabeça. De noite imagino um bocado e de dia ponho-me a fazer a peça”. Tudo numa lógica de reutilização de materiais, desde rolhas, a cones de fiação, palitos… “Pessoal que trabalha nos jardins ou nas limpezas topa isso, traz-me e eu construo”, refere.

Com 69 anos, Messias começou a fazer estas peças há cerca de seis anos e meio, pouco depois de ter ficado viúvo. Reformado, trabalhou durante muitos anos noutro ramo bem diferente. “A minha profissão não era isto, era trabalhar com máquinas, terraplanagem: abrir estradas e construir barragens”, recorda.

Com uma estreita ligação à religião (“sou da igreja”, diz com convicção), grande parte das peças de Messias é inspirada no imaginário católico, com diversas imagens de santos. O S. Pedro é que nem sempre ajuda à função, e a chuva e o frio tornam todo o processo mais lento. “Isto é tudo com cola. De Verão, é um mimo para trabalhar, mas no Inverno demora a puxar”. Enquanto espera que as peças sequem, vai-se “entretendo” com os animais e pondo iluminações nas peças acabadas. Peças essas às quais se afeiçoa e, depois, lhe custa vender, pelo menos até as replicar. “O que levam eu tenho que substituir, porque gosto de ter tudo”.

Reportagem publicada na edição 463 (série II) do Jornal de Barcelos no dia 3 de Novembro de 2010.

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