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Fotografia por Dario Silva

Vemo-los todos os dias a passar de mochila às costas, garrafa de água na mão, ar fogueado, cansados mas sempre com um sorriso na cara. Vindos de todas as partes do mundo, atravessam Barcelos seguindo o Caminho Português rumo a Santiago de Compostela. São peregrinos, mas os motivos que os levam a percorrer os 260 quilómetros do Porto até à Galiza vão para além da fé. Há quem o faça por motivos religiosos, claro, mas também há quem se mova pelo desporto, para conhecer a cultura de um país diferente, para descansar a mente e encontrar-se a si próprio na calma do seu próprio passo. São tão variados os motivos quanto as próprias pessoas. Não há um propriamente um estereótipo. Ele há jovens e idosos, homens e mulheres, ricos e pobres, doutores e operários. Decidimos meter-nos também ao caminho e saber quem são, as suas motivações e o que acham do país e do concelho que estão a atravessar. Curiosamente, não encontrámos portugueses…

Claude e Gilbert (França)

Estamos entre Vila Boa e Lijó, num caminho de terra batida junto à linha de comboio. Seguimos as setas amarelas, que marcam a rota até Santiago de Compostela, mas os primeiros peregrinos que encontrámos guiavam-se pelas azuis, vinham no sentido oposto. Já tinham estado em Santiago, numa viagem que começara em Irún (País Basco) e que terminaria na Invicta.

Claude e Gilbert têm 68 e 63 anos, respectivamente. Ambos estão reformados. Um era bancário, o outro estava ligado à área do marketing. Claude é religioso, mas esse “não é o motivo principal” para fazer a caminhada. “O mais importante é compreender as formas de vida de cada país, as mentalidades”, completa. Gilbert concorda, e ambos contam entusiasmados como haviam sido recebidos pouco antes no Café Arantes, em Lijó. A proprietária ofereceu-lhes dois Galos de Barcelos e ainda lhes contou a lenda, que dizem ser igual à de São Domingos da Calçada, que viveu as mesmas peripécias do peregrino galego.

É em busca dessa partilha de conhecimento que eles fazem 20 e 25 quilómetros diários, dependendo das condições climatéricas. “Não vim pela paisagem porque essa se esquece, mas os encontros com as pessoas lembramo-nos deles. O mais importante é o intercâmbio”, observa Claude. E para se recordarem do encontro onde esta reportagem começou, não foram embora sem uma foto com os repórteres.

Thomas e Maria (Alemanha)

O Thomas tem 39 anos. A Maria não quer dizer a idade porque é uma “lady”, e nós respeitamos, claro. Vêm de Colónia, na Alemanha. Não são namorados, apenas colegas de trabalho. Mas mesmo assim o homem não resistiu ao apelo feminino. “Ela fez o Caminho Francês no ano passado e desta vez incitou-me a acompanhá-la”, explica. Maria é católica, mas além da religião move-a o facto de a viagem ser algo de “bom, barato e básico”. “Andas, comes e dormes, só isso”, esclarece.

Estamos na altura das meias-finais do Euro 2012. A Alemanha ainda estava na luta, enquanto Portugal tinha sido eliminado por Espanha, mas para esta dupla germânica os lusitanos batem aos pontos os ‘nuestros hermanos’, pelo menos em simpatia. “Não gosto muito de espanhóis, gosto mais de Portugal. As pessoas aqui são tão simpáticas”, avalia Thomas.

A veia pragmática da mulher avança logo com um exemplo bem ilustrativo: “Vocês aqui falam inglês, eles recusam-se, parece que têm um problema com isso”. Um a zero. Casillas, toma e embrulha! E, já agora, prepara-te para o segundo golo: “E os albergues aqui são muito bons e baratos. Realmente prefiro o Caminho Português”. O Thomas não tem base de comparação com outras rotas, mas também gostou e quer repetir. Diz que é uma forma de ficar em forma: “Estava tão gordo, com uma barriga tão grande, agora está mais pequena”. E cansaço, nada? “É difícil no início, mas depois fica melhor, porque já vais treinado”.

Franca e Dário (Itália)

Vêm de Itália, Milão, mas não estão para modas. Vêm lançados pelas ruas de Carvalhal fora para cumprir os 20 a 25 quilómetros diários a que se propuseram (é a distância pela qual os peregrinos maioritariamente optam). Franca e Dário são um casal de reformados que vem fazer o Caminho Português, porque, como grande parte dos peregrinos com quem falámos, já percorreram o Francês, gostaram e quiseram repetir a experiência, mas noutro país.

A componente “espiritual” está presente, mas não é predominante. “Fazemos isto porque é divertido e por motivos culturais. Achámos que a Europa é muito importante e por isso gostamos de conhecer outros países e outras pessoas”. (Franca fala pelos dois, já que o marido não pesca nada de inglês e o pouco que o repórter sabe linguarejar em italiano era pouco adequado ao contexto). Se o objectivo era conhecer pessoas diferentes está alcançado. Já trocaram impressões com estadunidenses, alemães, franceses e portugueses. Detenhamo-nos nestes últimos… São porreiros? “Toda a gente é muito simpática”. Grazie!

Julie (Estados Unidos)

Ainda estávamos a falar com o casal francês quando Julie passa por nós. Vem dos Estados Unidos (Missouri) e lá é professora de espanhol numa escola primária. E foi em Espanha, onde viveu uns tempos para dominar melhor a língua que ensina, que ouviu falar dos Caminhos de Santiago: “Fiz o Caminho Norte e ouvir dizer que o Português também era muito lindo, por isso quis vir confirmar”. E, até ao momento, estava deslumbrada, com as “lindas paisagens” que encontrou e com os portugueses: “Gosto do facto de as pessoas repetirem as coisas que eu não percebo à primeira. São muito pacientes”.

Julie tem apenas 25 anos, é protestante e faz o Caminho por fé. Fá-lo sozinha. Não terá medo? “Li muito na internet sobre o Caminho Português e toda a gente diz que é seguro. Em todo o caso, tenho isto…”. Vai à mochila e saca uma pequena navalha que até a barrar manteiga deve ficar com bocas. E ri-se. Além de não ter medo, cansaço também é coisa que não lhe assiste, para já, porque ainda só está a caminhar há três dias. “Se calhar, daqui a uma semana, quando chegar a Santiago”, sorri.

Matze (Alemanha)

Matze vem a passo acelerado por um caminho perdido entre campos algures em Courel. Tem as fases rosadas pelo esforço. Ainda está cheio de vigor, porque começou a caminhar naquele mesmo dia. Não pensem que é o super-homem e que conseguiu vir do Porto a Barcelos em tão pouco tempo… Meteu-se foi no comboio, porque “não queria vir pela cidade”. Já fez o Caminho Primitivo, em Espanha, gostou “muito” e decidiu fazer outro. “Como nunca tinha estado em Portugal, decidi-me por este”. Engenheiro de profissão, Matze é alemão, reside perto de Estrasburgo, na fronteira com a França, e as razões que o levam a fazer o Caminho nada têm a ver com religião: “Estou a fazer isto pelo desporto e pela procura interior”.

Conta fazer uma média de 30 quilómetros diários, dependendo da dureza do percurso e do clima. Como o tempo estava bom, no dia em que o encontrámos estimava chegar aos 40 quilómetros. Consigo trouxe um guia, mas não o leu. “É para não saber o que vou encontrar”. O “único plano” que tem traçado é o voo de regresso, uma semana depois. Aventureiro que é, veio sozinho, mas raramente se perde na solidão. “Vamos conhecendo pessoas nos albergues e nos hosteis. Mas eu gosto bastante de caminhar sozinho, porque te liberta a mente. É espectacular”.

Markus e Irene (Alemanha e Holanda)

Pouco atrás de Matze, vinham Markus e Irene. Não são um casal, nem se conheciam antes de começar o caminho. Encontraram-se no Albergue Casa da Laura, em Vilarinho, e depois decidiram seguir viagem juntos. Ele é alemão, ela é holandesa. Ele diz que tem 35 anos, ela aparenta ser mais nova (não lhe perguntámos a idade, porque é uma senhora, tal como já nos ensinara Maria). Tem uma pele morena, brilhante e um sorriso fácil, um pouco tímido e bonito. É enfermeira. “Mas deixei o meu trabalho”, diz. Largou “tudo em casa” e lançou-se no caminho para se encontrar a ela própria. “Decidi caminhar para descobrir para onde vai a minha vida”.

Já tinha feito o Caminho Francês, mas aproveitou o facto de ter um amigo no Porto para fazer o Português. Está há dois dias em viagem, mas só “agora” é que começa “a sentir o caminho”. “Do Porto até Vila do Conde foi sempre por estradas principais”, lamenta.

Nesse campo ainda tem mais razão de queixa Markus, que começou o percurso em Lisboa. “Os carros passavam muito rápido, era muito perigoso”, relata. Como se isso não bastasse, da Capital à Invicta “não havia albergues” e teve que pernoitar em hotéis a pagar entre 35 a 40 euros – “muito caro”. É já a terceira vez que este funcionário de uma fábrica de leite vai a Santiago de Composta, por motivos religiosos. Primeiro partiu de França, depois de Pamplona e agora decidiu começar no Porto, porque “muita, muita gente” lhe disse que era um “caminho melhor”.

Matze aproveitou para descansar e comer uma sande enquanto falávamos com o Markus e a Irina. Quando a conversa terminou, juntou-se aos dois novos camaradas e os três continuaram o caminho. Afinal, as razões que os levam a caminhar podem ser muito diferentes, mas o percurso, esse, é o mesmo. Muitos são os caminhos que o Caminho de Santigo tem.

CAMINHO DE SANTIAGO EM BARCELOS

– Segundo dados do Município, em 2010, ano de Jacobeu, passaram pelo Posto de Turismo 7.400 peregrinos, ultrapassando em muito os pouco mais de mil registados nos dois anos anteriores.

– Desde que foi fundado, em 2010, até Junho deste ano, o Albergue de Peregrinos Casa da Recoleta, em Tamel S. Fins, recebeu 7272 peregrinos.

– A Residência Senhor do Galo, na sede do Grupo Folclórico de Barcelinhos, acolheu, em 2010, 1050 peregrinos.

– No passado dia 1 de Julho foi inaugurado o Albergue Cidade de Barcelos, localizado na Rua Miguel Bombarda. É o terceiro albergue no concelho.

– Em 2010, segundo informações da Associação Espaços Jacobeus, fizeram o Caminho Português 34 mil pessoas, o que faz deste percurso o segundo mais percorrido, logo a seguir ao Francês (190 mil).

– Encontra-se em estudo uma nova variante do Caminho Português a partir de Barcelos. Trata-se do Caminho do Norte ou da Rainha. É o percurso que a Rainha Santa Isabel terá feito na sua peregrinação a Santiago de Compostela.

Reportagem publicada na edição 80 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 11 de Julho de 2012.

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