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Fotografia por Pedro Rodrigues

Estrearam-se em Barcelos, no Museu de Olaria, a 17 de Novembro de 2007. Na altura, traziam na bagagem a maqueta “finjo a fazer de conta feito peixe:avião”. No ano seguinte, já com um álbum na mão (“40.02”) esgotaram a lotação do auditório da Biblioteca Municipal, com um concerto que acabou mais cedo devido a problemas técnicos. Sexta-feira, os peixe:avião voltaram a lotar o Subscuta, desta vez para apresentar o segundo álbum, “Madrugada”. O grupo bracarense deu um espectáculo triunfante, com uma simbiose perfeita entre público e banda, para a qual muito contribuiu a postura mais desinibida e interactiva do vocalista, Ronaldo Fonseca. O colectivo é ainda composto por Pedro Oliveira (bateria), André Covas (guitarra), Luís Fernandes (guitarra e sintetizador) e José Figueiredo (baixo). O momento alto do concerto foi “a espera é um arame”, mas os novos temas também foram recebidos entusiasticamente por um público totalmente rendido. No final, o Jornal de Barcelos esteve à conversa com o baixista e o vocalista.

Este concerto correu bem melhor que o último…
Ronaldo Fonseca: Foi muito melhor. O facto de não ter falhado nada ajudou (risos). Foi fixe porque tivemos outra vez a casa cheia, o pessoal aderiu e nós gostámos muito. Estamos também a tentar melhorar a forma como tocamos e nos damos com o público, como mostramos as músicas, é um processo de aprendizagem…

Nota-se que há maior interacção tua com o público.

RF: É, falo mais. Basicamente é como bater coro num bar. Tens aquele pessoal com dom da palavra e outros nem por isso, como é o meu caso (risos). Mas é muito importante estreitarmos relações com a audiência. O concerto foi mais intimista, o que tornou o ambiente mais confortável. É um processo de aprendizagem. Estamos no meio há três anos e, como vocalista, assumo que preciso de melhorar o meu papel. Engajar uma relação ajudando a que as pessoas se comprometam.

José Figueiredo: De uma forma mais emocional até. Uma coisa é gostares da música, outra coisa é apreciares o espectáculo e a banda. Isso depende muito da comunicação.

Apesar do interesse de editoras grandes e depois de terem lançado o “40.02” pela Rastilho, decidiram criar a vossa própria editora para lançar o “Madrugada”. Porquê?

JF: Há certas coisas como o conceito do disco bilhete nos concertos que não era facilmente aceite por uma editora de formato tradicional, porque o negócio nuclear de uma empresa dessa natureza é vender CD’s e a banda vende concertos. Portanto, existe um choque de interesses. Se calhar, para certas dimensões, ter uma editora grande é interessante, para o nosso segmento não é assim tão vantajoso.

RF: A dinâmica também é diferente e permite-nos ter controlo sobre as pessoas que trabalham connosco. Como fazer o disco, escolher o manager, a agência, o que implica uma maior desafio ao grupo.

JF: Cada vez mais os artistas têm de ser mais do que meros músicos. Têm de ser empresários e promotores de si próprios.

Porquê o nome peixe:avião?

RF: Estivemos muito tempo a ponderar sobre essa escolha e até foi mais difícil do que fazer as músicas. Queríamos que o nome pudesse transmitir aquilo que a nossa música assumia. Algo com potencial imagético e com alguma musicalidade, e chegamos a peixe:avião. Que as pessoas ao verem, lerem e imaginarem as palavras pudessem captar um duplo sentido, algo complexo. Poesia de bolso. Se uma imagem equivale a mil palavras, uma palavra também pode equivaler a mil imagens. Depois, também dá aquela sugestão tipicamente portuguesa da ligação ao mar.

Como fazes as letras?

RF: As letras vão sendo construídas de frases avulsas que vou escrevendo, não sou daquelas pessoas que escrevem poesia por si só. Sempre gostei de escrever mas nunca tive um objectivo. Agora o facto de ter um objectivo obriga-me a concretizar as coisas de uma forma, passe a redundância, mais concreta. E vou construindo essas frases pela musicalidade delas, que, eu lendo, têm uma certa métrica e uma solidez. O método consiste no encaixe posterior das letras no instrumental. Futuramente, o desafio será o inverso, o que é mais difícil.

Cantaram sempre em português também…

RF: Foi um dos alicerces do projecto, tinha de ser obrigatoriamente em português. Por várias razões. Tínhamos que nos diferenciar. Tivemos a sorte de acompanhar esta inversão de tendência – cada vez mais as bandas estão a cantar em português. Felizmente. Isso é óptimo, pois eu também era um dos parolos que quando tinha 15 anos diziam: música portuguesa?… Era uma opção pré-musical, por várias razões, e ia ajudar-nos a criar uma identidade muito própria.

JF: Agora também temos, portugueses, a capacidade de nos relacionarmos com o português de uma forma natural. O português é muito mais difícil, porque quando se ouve música em português cada palavra tem significado. Provavelmente, a maior parte das formas de cantar música pop em português ainda está por inventar. E isso é um incentivo para os músicos e ouvintes se virarem para o português. Principalmente quando se diz que a pop portuguesa é uma versão do que se faz na América, este desafio por si só tem um significado artístico e pessoal muito forte.

E vocês levaram muito com essa crítica de serem os Radiohead portugueses….

RF: Imagina então se cantássemos em inglês (risos).

Ao fazer o “Madrugada”, sentiram algum tipo de pressão para apagar esse fantasma e dissociarem-se dos Radiohead?

RF: Seja que banda for, isso é inevitável, comparações é o que toda a gente faz. Tivemos a consciência de fugir dessas tais referências que nos indicam e tentámos criar a nossa própria identidade, que os peixe:avião consigam ser identificados não pelo estilo x ou y mas porque têm uma característica própria.

JF: Acho também que há pessoal que nos compara com Radiohead e não conhece Radiohead. É como o futebol, como está em todo o lado, as pessoas falam como se fossem treinadores, com a música é assim também.

Entrevista publicada na edição 466 (série II) do Jornal de Barcelos no dia 24 de Novembro de 2010.

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