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Fotografia por Nuno Dantas

Alfredo Rabazolas era central do Atlético de Barcelinhos. O clube não federado foi uma altura jogar a Seixas mas o guarda-redes da equipa não pôde comparecer à partida. Quando o plantel estava a aquecer, umas “moças” perguntaram: “Quem será o guarda-redes? Deve ser aquele alto”. Um dos jogadores aproveita para gozar com a situação: “Por acaso, até é, é sobrinho do Barrigana”. Elas começaram a bater palmas, entusiasmadas. O falso sobrinho do Barrigana era Alfredo Rabazolas, que não resistiu a ir à baliza e, desde então, não mais saiu de entre os postes, tornando-se uma das glórias do Gil Vicente da década de 50.

Hoje tem 80 anos e uma memória de elefante. Desse primeiro jogo como guarda-redes lembra-se bem de já ter seis golos sofridos, quando se deu uma viragem na sua performance. Das bancadas ouviu: “Ele, afinal, não vale nenhum. Não é sobrinho do Barrigana”. Levou a mal… “Estão a falar para mim? Não entra aqui nem mais uma! Que exibição!… Ia a todas!”.

As exibições impressionantes alimentaram a cobiça do Gil Vicente que logo o recrutou. Quando Alfredo Rabazolas soube que ia jogar de galo ao peito, estava em Valença a trabalhar em ornamentações. “Meti-me no comboio e fui treinar”, recorda. Tinha vindo há pouco da tropa e assinou o contrato sem saber muito bem o que este dizia. “Era tipo carta de alforria, só saía quando o patrão quisesse”. E apesar do interesse do SC Braga e do FC Porto, acabou por ficar em Barcelos quase até ao fim da carreira – jogou até aos 42 anos.

O treinador do Braga, Fernando Barros, queria o guarda-redes natural de Barcelinhos e o clube entrou em negociações com os gilistas. “O Gil pediu 500 contos e dois jogadores que estavam na lista de transferências”. Quando Fernando Barros mudou para o FC Porto voltou a tentar levar consigo Alfredo Rabazolas e o guarda-redes até foi treinar com os azuis e brancos “às escondidas” do Gil Vicente. Ia para o segundo treino na Invicta quando o clube descobriu e os dirigentes avisaram-no: “Põe-te à tabela. Foste ao Porto treinar sem autorização. Vais mas sem assinar nada, senão ficas um ano ou dois sem jogar futebol”. O FC Porto ficou impressionado e quis negociar. “O Gil pediu 900 contos e cinco jogadores da lista de transferências. O Porto respondeu como o Braga: ‘ele pode vir a valer muito mais do que isso, mas também pode ficar pelo caminho e não estamos para deitar dinheiro fora’”.

 FUTEBOL OU TRABALHO?

Assim, teve que continuar no Gil Vicente a disputar a titularidade com Augusto Camilo. “Era um grande guarda-redes, não era por acaso que o Sporting o queria”, lembra Alfredo Rabazolas. Depois de “quatro anos de entra e sai”, passou a titular quando Augusto Camilo sofreu “uma fractura no joelho” e deixou de poder jogar.

Nos primeiros tempos em que alinhou pelo Gil Vicente, o clube pagava-lhe uma refeição à quarta-feira e outra à sexta-feira. “Tínhamos era os prémios de jogo quando ganhávamos, e eram bons”. Mas, entretanto, já ganhava “300 paus” quando a sua avó, com quem morava, faleceu e Alfredo Rabazolas fez um ‘ultimato’ à direcção: “Vocês têm que me arranjar um emprego, que eu vivo sozinho, não tenho dinheiro para isto”.

E, vai daí, começou a carregar sacos de “120 quilos” na moagem Vouga e ao fim do trabalho ia treinar. Um dia disseram-lhe que o patrão ia fazê-lo optar por ficar efectivo na empresa ou continuar a jogar futebol. E aconselharam-no qual seria a resposta que devia dar: “Não sejas burro, pede trabalho, porque ao futebol vais sempre“. Quando o “manda-chuva” João Soares lhe fez finalmente a pergunta, a resposta já estava na ponta da língua: “Ó sr. Soares, por amor de Deus, se eu jogo futebol e mostro algo para ganhar simpatia, é para arranjar trabalho efectivo, para arranjar a minha vida, que eu sou solteiro, quero casar e isso tudo”.

E assim continuou na moagem e a jogar, tendo conseguido subir com o Gil Vicente dos regionais para a segunda divisão nacional. A carreira de futebolista terminou-a no Desportivo dos Galos, de Barcelinhos, após passagem dum ano pelo Fão. Uma carreira longa e com muitas peripécias. Uma altura, no campo da Apúlia, saturado por dois assistentes que insistentemente lhe chamavam “frangueiro” não esteve com meias medidas. Com agilidade, saiu do campo, acertou-lhes dois murros e voltou para a baliza. “O árbitro estava lá ao fundo, do outro lado, quando olhou já eu estava encostado ao poste”.

Além do futebol e de uma vida inteira de trabalho na Vouga, foi ainda fundador do Rancho Folclórico de Barcelinhos e bombeiro, durante 53 anos, também em Barcelinhos – foi homenageado recentemente com o crachá de ouro da Liga Portuguesa de Bombeiros Voluntários.

Reportagem publicada na edição 27 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 6 de Julho de 2011.

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