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Fotografia por Dario Silva

A tasca, esse traço de portugalidade ameaçado por uma globalização que caminha para a homogeneização cultural, encontra em Remelhe um exemplo de paixão e dedicação que em tudo a dignifica. Com 70 anos de história, a Taberna do Armindo é um negócio de família que já vai na terceira geração, conservando o salutar convívio taberneiro, entre petiscos regados por tinto verde de lavrador e uma partida de sueca.

Armindo Monteiro é o timoneiro que estoicamente dá continuidade a uma epopeia que começou por volta de 1940. “Foi do meu avô, passou para um tio meu, depois para o meu pai e mais tarde para mim”, conta. E o nome foi sobrevivendo às mudanças de mãos, até porque só mesmo o pai é que não se chamava Armindo.

Armindo tomou conta da taberna em 1996. Uma passagem de testemunho que efectivou uma relação umbilical. “Sempre trabalhei nisto, sempre estive aqui desde pequeno. Fui criado nisto, continuei… É uma paixão. Gosto de conviver com as pessoas. Nasci nisto, se calhar morro nisto”, afirma.

A marca familiar continua bem patente e a esposa Clotilde é o braço direito de Armindo que, ainda namoravam, quando começou a auxiliá-lo ao fim-de-semana. A partir daí foi ficando até se estabelecer a tempo inteiro. “Ela não estava habituada a isto, mas depois começou a habituar-se, e hoje, tanto eu como ela estamos na cozinha, é igual”, sublinha Armindo.

A ajudá-los têm a filha, Ângela Rafaela, e a sobrinha Diana. E basta dar uma pequena olhada ao espaço num qualquer fim de tarde para perceber que é uma ajuda bem preciosa… Balcão e mesas cheios, pedidos atrás de pedidos. “Faço vários petiscos. Todas as semanas tem coisas diferentes. Todos os dias tenho, pelo menos, dez variedades de petiscos”. Pataniscas, panados, pica-pau, salsichas, pregos, rojões podem servir de exemplo, mas há mais… “Uma coisa que vendo muito é carne salgada e cozida com chouriço”. Aos sábados, a oferta é ainda maior: arroz de cabidela, arroz de coelho, cabrito assado, chanfana de coelho, coelho na brasa, bacalhau na brasa, bacalhau à Narciso, bacalhau na telha… Estes pratos mais elaborados, exceptuando aos sábados, são feitos por encomenda e outros há que são confeccionados com maior raridade. É o caso da “novidade” do cardápio: rosários. “São umas pontas de costelinha mendinha de porco grelhada na brasa com molho de pimento. Normalmente, tenho isso uma vez por mês, que é quando consigo arranjar. Só nos porcos grandes é que se consegue tirar essas pontinhas, mas é uma maravilha, é mesmo bom”, assegura Armindo.

Já estão a salivar? Esperem, porque a lista continua. Uma vez por mês há cozido à portuguesa e, anualmente, arroz de lampreia. Mas que não se apoquentem os não carnívoros, pois, de 15 em 15 dias, o proprietário vai a Espinho comprar peixe fresco para fazer caldeirada de peixe, robalo, congro ou arroz de polvo.

 UMA CASA BENFIQUISTA MAS COM MUITOS CLIENTES PORTISTAS

Os chouriços, de carne e de sangue, são caseiros, tal como as sobremesas preparadas pela cunhada de Armindo, Gorete. E não é só… “De vez em quando, cozemos broa”.

Tudo isto é acompanhado por uma boa pinga de Amarante. “Também tenho daqui, mas vou lá todas as semanas buscar vinho. Vem muita gente de longe beber o vinho de Amarante”.

Os clientes vêm de vários pontos do país: Famalicão, Braga, Vila Verde, Aveiro, Porto e até mesmo Lisboa.

A crise, essa, faz-se sentir mas não de uma forma intensa. “É mais a nível do café, principalmente à noite. Nos petiscos, trabalho bem, até agora não tenho razões de queixa”.

Sendo a taberna um espaço de convívio do povo, por entre a decoração rústica, salta à vista um cachecol daquele que é tido como o clube do povo, ao lado, claro está, dos do Gil Vicente e Remelhe. É, portanto, uma casa benfiquista, mas que acolhe os adeptos de todos os clubes. “Temos muitos clientes portistas, muitos mesmo”, ressalva Armindo. Mas, então, para quando um cachecol do FC Porto? “Eles [clientes portistas] é que têm que o trazer, mas eu ponho-o, não tenho problema nenhum”, sorri.

Reportagem publicada na edição 63 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 14 de Março de 2012.

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