Home
americo_vintena 048

Fotografia por Márcio Silva

“Tinha uma paixão pela concertina, comprei uma, aprendi a tocar e fui sempre por aí em diante”. Corria o ano de 1991, quando Américo Vintena, 36 anos, entrou para um grupo de cavaquinhos, na sua freguesia, Roriz. Aí, além do cavaquinho, aprendeu a tocar concertina, instrumento pelo qual já tinha uma afeição especial. Em 1997, começou a reparar e a afinar concertinas. E, em 2008, inventou uma escala nova com o seu nome – Vintena – que deu origem, no ano seguinte, a uma nova marca de concertinas, a Lusitali.

A nova escala permite aos tocadores uma abordagem diferente àquele instrumento. “A concertina estava bastante limitada, não dava para tocar as músicas que têm no mesmo acorde a parte maior e a parte menor”, aponta. “Havia ali uma falha e, por outro lado, tinha muitas notas desnecessárias, que estavam ali repetidas. Eliminei os pontos mortos, apliquei as notas necessárias, e agora é possível tocar muitas mais músicas do que antes. As outras concertinas estão obsoletas à beira desta, não têm capacidade para tocar as músicas que esta tem”. As marchas de Lisboa, como o “Cochicho” e o “Cheira Bem, Cheira a Lisboa”, são alguns exemplos de melodias que podem agora ser tocadas numa concertina.

Lusitali é a junção de Lusitânia e Itália. Américo Vintena concebeu todo o projecto, desde a escala ao design, mas os instrumentos mandou executá-los em Itália, porque é lá que todos os artigos e materiais são fabricados. “Se eu quisesse fazer aqui uma concertina, tinha que vir tudo de lá, que é onde se fazem as peças de origem. É onde estão habilitados para fazer este tipo de material”.

A inovação trouxe-lhe fama por todo o país e, actualmente, mantém “encomendas frequentes”. “Há muitas pessoas que desconhecem o potencial desta concertina mas, à medida que vão descobrindo, vão me contactando, uns vão dizendo aos outros e assim se vai espalhando. E através do YouTube também…” Naquele sítio circulam vídeos, colocados no canal do próprio afinador/criador, com vários músicos a tocarem nas Lusitali. Os clientes vêm de “todo o lado”, porque, sublinha Américo Vintena, “os imigrantes andam por todo o mundo”. Grande parte dos pedidos para outros países vem de França, que “tem um maior número de emigrantes”, mas também vêm do Brasil, Estados Unidos e outros locais onde haja “comunidades portuguesas”.

Envolvendo a “Vintena” a introdução de novas notas e o desaparecimento de outras, isto não causará confusão aos músicos mais tradicionalistas? “É mais exigente, mas parte da escala antiga mantém-se, qualquer tocador continua a tocar o que tocava. Se quiser dar um passo em frente é que tem ali um programa dentro de outro programa para explorar”.

AUGUSTO CANÁRIO “INCENDIOU ESTA PAIXÃO”

“Clínica das Concertinas”, assim se chama o ateliê, situado em Roriz, onde Américo Vintena repara, afina e vende concertinas. O crescimento do mercado permitiu-lhe abrir outra loja, com o mesmo nome, em Ponte de Lima, em 2009. Sinal de que as concertinas suscitam cada vez mais interesse e admiradores. Mas nem sempre foi assim… “Reparar foi em part-time, até que chegou a um ponto que aumentou de volume e agora só estou ligado às concertinas”. Esse aumento de clientes deu-se “mais ou menos em finais dos anos 90”, graças ao conhecido músico Augusto Canário. “É o ponto fulcral disto, fez pegar a moda das concertinas, que estavam muito esquecidas. Começou a dar aulas de concertina numa escola, em Vila Nova de Anha, e a partir daí deu-se a explosão, começou a pegar a moda por todo o lado. Foi ele que incendiou esta paixão. Depois, começou a haver mais trabalho, porque, nos inícios de 2000, não me safava, não havia trabalho. Agora, graças a Deus, devido à fama e competência que tenho, também vou adquirindo mais clientes”.

No que toca a reparações, refere Américo Vintena, o “prato do dia a dia” são “as palhetas”, uma coisa “normal”, que se “ajeita na hora”. Contudo, “cada conserto é diferente” e se há uns mais simples que podem “demorar um quarto de hora”, outros há que “demoram dias”.

Não há muitos afinadores de concertinas. É uma profissão que requer minúcia, paciência e muito conhecimento. “Cada um é para o que nasce. Requer tudo isso, mas depois nem todos têm a mesma capacidade. É como os jogadores da bola, poucos são os Messis ou Cristiano Ronaldos. No entanto, são todos jogadores, mas a diferença de uns para os outros é abismal”. E será Américo Vintena o Cristiano Ronaldo das concertinas? “Não posso falar sobre mim, embora saiba bem o meu valor, não fica bem dizer o que quer que seja, porque senão sou sempre mal interpretado. E sou suspeito.”

Reportagem publicada na edição 459 (série II) do Jornal de Barcelos no dia 6 de Outubro de 2010.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s