Home
ciganos

Fotografia por Eduardo Morgado

Imagine que tem um apartamento para arrendar, coloca um anúncio no jornal e alguém lhe liga a mostrar interesse no negócio. Marca um encontro para ir mostrar a casa, mas quando se depara com o potencial inquilino repara que ele é cigano. O que faria? O que acontece na maioria dos casos é que, subitamente, o senhorio perde a vontade de arrendar o apartamento ou ‘lembra-se’ que, afinal, já o tinha arrendado. “Há ciganos que querem alugar uma casa e não conseguem. Acha que eles preferem morar numa bouça?”. A questão é colocada por Miguel Monteiro, de 42 anos, morador num acampamento em Barqueiros. “Aqui ainda temos algumas condições”, diz, mas noutros lados não é de todo assim…

A habitação é um dos principais problemas com que se depara a comunidade cigana que há cerca de três décadas vive no concelho de Barcelos. Outro de enorme importância é o emprego. Se já é difícil a um cigano arranjar quem lhe arrende uma casa, mais complicado lhe é ainda encontrar trabalho. “Para vocês não está fácil, quanto mais para nós…”

Já outras questões fundamentais, como o acesso à educação e à saúde, têm vindo a melhorar significativamente. “Temos o nosso médico de família, as crianças são vacinadas, as mulheres quando estão grávidas são acompanhadas”, exemplifiac Miguel Monteiro. E fala com propriedade, pois é ele o mediador municipal num projecto-piloto a nível nacional desenvolvido pelo Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI) que visa a integração dos ciganos nas comunidades onde se inserem.

Em 2011, a ACIDI celebrou um protocolo com a Câmara Municipal de Barcelos e o Centro Social, Cultural e Recreativo Abel Varzim (Cristelo) para levar por diante o projecto-piloto Mediadores Municipais em conjunto com outros parceiros, nomeadamente as Juntas de Freguesia de Fornelos, Arcozelo e Barqueiros, os Agrupamentos Escolares Gonçalo Nunes e de Barcelos, Associações de Pais e a APAC – Associação de Pais e Amigos de Crianças. O projecto é financiado por fundos europeus, no âmbito do Quadro de Referência Estratégica Nacional, e tem a duração de dois anos – termina em Setembro.

O QUE FAZ UM MEDIADOR?

“Eu faço a ponte entre a instituição e a comunidade cigana”, explica sucintamente Miguel Monteiro a função pela qual recebe mensalmente cerca de 1200 euros brutos. Ou seja, é um elo de ligação entre as partes envolvidas num processo de integração. Um exemplo concreto: se uma criança cigana está a ter problemas na escola, o mediador intervém no sentido de os resolver. É essa a intenção do protocolo que procura agir não só a nível escolar, mas em todos os aspectos do quotidiano. “Tem em vista a colocação de mediadores/as municipais nos serviços dos municípios ou em iniciativas que estes tomem parte, de forma a melhorar o acesso das comunidades ciganas a serviços e equipamentos locais, e promover a comunicação entre a comunidade cigana e a comunidade envolvente, com vista à prevenção e gestão de conflitos”, explicita o documento.

Para tomar o pulso à evolução do projecto e aprofundar o conhecimento sobre a realidade no concelho, o Gabinete de Apoio às Comunidades Ciganas do ACIDI esteve recentemente em Barcelos, tendo visitado com os demais parceiros as comunidades de Barqueiros e Arcozelo. No programa estava prevista a passagem pela de Fornelos, a mais problemática das três, o que acabou por não acontecer devido ao mau tempo, que terá tornado o acesso à mesma impossível. Aliás, os acessos são também um dos maiores problemas em Barqueiros cujos acampamentos – e quando falamos em acampamentos, estamos a simplificar, porque há casas construídas em cimento, não há só barracas – estão localizados no meio de matas. Terrenos para os quais os ciganos foram por serem mais baratos.

A zona onde Miguel Monteiro vive já é bastante mais acessível. O terreno foi comprado pelo pai dele por “cinco ou seis mil contos” – não se recorda bem – quando para ali vieram morar há 19 anos, depois de terem sido obrigados a abandonar Matosinhos para a construção de uma via rodoviária. “O presidente da Câmara, Narciso Miranda, deitou as barracas abaixo e separámo-nos. Temos família em Argivai, na Póvoa de Varzim, e através deles comprámos este bocado de terreno”, recorda.

EDUCAÇÃO É PRIMORDIAL

 “Temos que estudar para sermos alguém na vida”. Esta afirmação mostra o quão caro é o assunto da educação para Miguel Monteiro. Por experiência própria reconhece a importância dos estudos. Fizera apenas a 4.ª classe, mas recentemente já concluiu o 9.º ano através das equivalências por experiência de vida. Um dos critérios para ser mediador é exactamente “a motivação para a aprendizagem ao longo da vida, tendo em vista a certificação equivalente ao 12.º ano”. E desempenha esse papel pedagógico na escola, incentivando as crianças a estudarem e explicando-lhes que “as regras são as mesmas para os ciganos e não-ciganos”. “Há meninos que falam de perseguição na escola, mas eu digo-lhes que os funcionários vão atrás deles, porque eles saem das salas e distraem-se lá fora”, conta.

Também para a vereadora da Acção Social, a educação é “um factor primordial” e que vem em “primeiro lugar” nos muitos problemas que há pra resolver e que Ana Maria Silva enumera: “Fazer uma ponte com os serviços de saúde para que estas comunidades tenham acesso a eles e que as crianças cumpram os planos de vacinação; empregabilidade, o que não é fácil, uma vez que estamos numa altura de crise; problemas habitacionais, que fazem toda a diferença quando nos referimos à etnia cigana”. Por isso considera importante “alargar o projecto” ao apoio à habitação “que é uma carência grande destas comunidades”. 

BARCELOS TEM PERTO DE 200 CIGANOS

Segundo o levantamento feito em 2011, aquando do arranque do projecto mediadores municipais, Barcelos tinha, nas três comunidades – Arcozelo, Barqueiros e Fornelos – 179 pessoas de etnia cigana distribuídas por cerca de 45 famílias. “O que não quer dizer que a informação hoje corresponda à realidade, mas é um valor aproximado”, aponta a vereadora.

O caso mais drmático é o de Fornelos, o acampamento mais pequeno. Há “dois casais”, refere Miguel Monteiro, que têm filhos “com mais de 20 anos e que não sabem o que é uma escola”. A isto acresce a “pouca higiene” e as deficitárias condições da habitabilidade.

Carmélia Faria é educadora social do Centro Social Abel Varzim e acompanha de perto as comunidades ciganas de Barqueiros e Fornelos. “Trabalhamos com eles a questão da integração em creches, jardins-de-infância e escolas. Temos muitos meninos de etnia cigana que frequentam o jardim-de-infância e ATL”. O Gabinete Psicossocial da instituição presta, ainda, segundo o sítio da instituição, “um atendimento mais periódico e personalizado a alguns utentes da Segurança Social”. “São praticamente todos beneficiários do Rendimento Social de Inserção”, contextualiza Carmélia Faria.

PLANOS DE ACÇÃO PARA O FUTURO

“Aprofundar o conhecimento sobre as comunidades ciganas e traçar planos de acção para o futuro” são, destaca a vereadora da Acção Social, os objectivos desta “fase inicial” do projecto. Quais as medidas que serão adoptadas? Ainda não se sabe, mas irão “sempre de encontro ao Plano de Desenvolvimento Social e de Saúde até 2015, que é um plano estratégico de intervenção no concelho onde, no eixo dois, está definido o combate à exclusão e à pobreza”.

Inclusão é, portanto, a palavra-chave. É preciso “criar pontes” e “congregar as pessoas”, considera Helena Torres, coordenadora do Gabinete de Apoio às Comunidades Ciganas, afirmando que as comunidades locais e os ciganos “ainda estão um bocado de costas voltadas”. Elogiando a forma como o projecto-piloto de mediadores municipais está a ser desenvolvido em Barcelos, a responsável apela a um esforço mútuo: “As comunidades ciganas também têm que fazer alguma coisa, tem que haver retorno”.

O túnel que dá acesso ao acampamento de Arcozelo tem pintado com tinta azul o ‘aviso’ “estrada sem saída, proibida a entrada”, que bem pode ser visto como uma metáfora dessa necessidade de reciprocidade. Se lá só entra quem pode, de lá só sai quem quer.

Reportagem publicada na edição 118 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 3 de Abril de 2013.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s