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Fotografia por Dario Silva

O Ricardo Araújo Pereira foi recebido aqui de uma forma apoteótica por algumas centenas de adolescentes e crianças. Sentiu-se um pouco o Justin Bieber?

É pá, o Justin Bieber… Eu não diria isso, porque haveria histeria, havia arrancar de cabelos e tal. Acho que estes rapazes e raparigas apreciam o trabalho que eu faço, o que só lhes fica mal, mas têm o bom senso de o fazer numa dose muito mais moderada do que essas manifestações que o Bieber recebe. Acho que foi uma coisa muito contida.

Quando criou em 2003/004 os Gato Fedorento alguma vez esperava que dez anos depois jovens que na altura teriam cinco anos iam adorá-lo desta forma?

É uma surpresa constante para mim. Isso que acabou de referir ocorre-me quase todos os dias: que raio é que aconteceu para isto suceder? É de facto meio absurdo, mas tem sido divertido, ao mesmo tempo. O que aconteceu foi que na altura em que o Gato Fedorento apareceu, foi uma coisa súbita entre o completo anonimato e as pessoas conhecerem-nos na rua e dizerem ‘faz os sketches e tal’. Essa mudança repentina só nós os quatro é que compreendemos, porque a sentimos. Isso também tem ajudado a mantermo-nos juntos, porque passámos por isso… É como ir à guerra. Mas sem a parte dos tiros.

Disse há pouco que nas suas aparições públicas as pessoas esperam, e bem, que as faça rir, mas depois na esfera mais privada, por exemplo em casamentos e etc, as pessoas vêm ter consigo: ‘olhe, conte aí uma piada, faça-nos rir’?

Eu não tenho razão de queixa nenhuma das abordagens das pessoas, antes pelo contrário. As pessoas vêm ter comigo com uma generosidade que eu não mereço. Há pessoas que vêm agradecer, é uma coisa comovente. Vêm dizer ‘obrigado e tal’, como se isto não fosse o meu trabalho, como se eu não o fizesse porque me pagam. As pessoas têm a generosidade de me dizer coisas tão comoventes como essa. Quando estou em privado, as pessoas não esperam que eu esteja a fazer piadas ou assim, mas claro que às vezes comentam coisas que eu disse… Mas não tenho tido nenhuma razão para achar que as pessoas são desagradáveis, as vezes são é muitas, mas a culpa também não é delas…

Como disse uma vez, não vai para o Bairro Alto ao sábado à noite…

Claro, evito fazer isso.

É a primeira vez que está em Barcelos?

Em Barcelos tenho a impressão que é. Não na região, porque a minha família é de um pouco mais a Norte, mas acho que em Barcelos é a primeira vez.

Com certeza não viu muita coisa…

Pois não, vim directo de Lisboa e agora vou já para o Porto.

Mas cá teve estas perguntas todas dos alunos. Depois de ser aqui ‘encostado às redes’, está mais preparado ainda para enfrentar o Carlos Vaz Marques e responder às provocações do Pedro Mexia e João Miguel Tavares?

Estou [risos]. Ainda bem que eles aqui fizeram esta sessão para eu treinar o suficiente e estar mais preparado para essa tarefa.

Falando de coisas realmente importantes para si, o Benfica… É este ano que vence a Liga Europa e o Campeonato?

Isso era tão bonito! Mas estou preocupado, ainda falta um bocado. Ainda temos que ganhar ao Sporting, depois ao Marítimo… Acho que se ganharmos ao Sporting e ao Marítimo, as coisas ficam encaminhadas, mas por enquanto ainda vamos ter muito que sofrer.

Desde o “Levanta-te e Ri”, que foi onde o Ricardo surgiu para os ecrãs de televisão, considera que houve um aumento de qualidade no humor em Portugal?

Há mais coisas, e quando há mais coisas, em princípio, também há mais qualidade. É evidente que se tivermos só duas qualidades diferentes do mesmo produto, em princípio, não temos tanta qualidade como se tivermos um leque maior por onde escolher. E agora há muita gente a fazer comédia e a fazer coisas diferentes umas das outras, o que é sempre bom.

Conhece a Porta dos Fundos?

Conheço. É brasileiro, não é? Tem umas coisas na net.

Gosto bastante e acho que tem muita a ver com os sketchs iniciais do Gato Fedorento.

Ah, sim, muito bem. Eu estive no Brasil no ano passado. Acho que foi entre este ano e o ano passado que eles apareceram com mais força. Agora vou lá outra vez em Junho, na altura não os conheci, talvez desta vez seja possível.

Para terminar, disse há pouco que abomina as experiências com jornalistas, espero que não tenha sido o caso.

Não, esta não foi desagradável [risos]. Quer dizer, se depois, quando o Jornal de Barcelos sair, disser: ‘Ricardo Araújo Pereira acha que Portugal devia acabar e toda a gente devia falecer’, aí sim, terá sido desagradável.

Convidado para falar sobre “A importância e o poder da comunicação”, o sócio número 17.411 do SL Benfica respondeu a perguntas de estudantes do 10.º e 8.º anos que analisaram as suas crónicas nas aulas de Português. A divertida sessão decorreu num auditório tão entusiasmado quanto lotado. Aqui deixámos algumas das intervenções de Ricardo Araújo Pereira.

O GUIONISTA

“Eu queria ter estudado Literatura, sabia que o que queria era escrever. E é essencialmente o que faço hoje. E vou contar uma história que prova que, de facto, o que eu faço é escrever. Uma vez fui levar um amigo a casa e estava meio transtornado, porque tínhamos ido ver o Benfica e o Glorioso tinha perdido. Estava a começar o Inverno, o chão estava escorregadio e espatifei o carro todo numa curva. Chamei a polícia e o agente começa a perguntar-me aquelas coisas: nome, profissão… Disse-lhe que era guionista. O polícia olhou para mim e disse: ‘guionista? Mas olhe que você para guiar não é lá muito bom’”.

“RIR APROXIMA AS PESSOAS”

“O humor faz-nos sentir próximos das pessoas com quem nos rimos. Pode ser um acto de amor, de sedução, uma estratégia de aproximação… A certa altura há um advogado que vê a namorada no gabinete a rir-se com um homem, e diz a um amigo: acabei de perder a minha namorada. E o amigo: porquê? E ele: porque ela estava a rir-se com outro homem. E o amigo pergunta: de certeza que estavam a rir-se? Não estavam a beijar-se ou assim? Tem um fundo de verdade. O rir aproxima as pessoas”.

“O MEU OBJECTIVO É FAZER RIR”

“O que eu faço tem um objectivo claro: fazer rir as pessoas. É isso que elas esperam de mim, e bem. (…) Não faço comentário político, faço comentário humorístico. Aquilo que eu digo tem uma intenção clara de fazer rir. Se eu acho que a minha opinião sobre determinado assunto não tem graça nenhuma, não escrevo. Por muito que eu ache que seja válida”.

SURPRESA COMO FACTOR DE DIFERENCIAÇÃO

“Tendo em conta a quantidade dos meios de comunicação que há, uma pessoa que queira fazer-se ouvir tem que ter alguma característica específica. Pode ser falar mais alto para se sobrepor às outras – é o método Valentim loureiro. Mas uma pessoa que faça o meu trabalho tem que surpreender as pessoas, por isso é que quando se conta uma piada pela segunda vez ninguém se ri. Se quero chegar às pessoas, tenho que as surpreender de alguma forma. E isso é difícil. Não tão difícil quanto o trabalho dos mineiros. Quando estou em casa a pensar ‘o meu trabalho é tão complicado’, passo cinco minutos a pensar no trabalho dos mineiros e depois volto a fazer o meu trabalho facílimo”.

COMUNICAÇÃO ALUNO/PROFESSOR

“A minha mãe às vezes diz-me: ‘eu quando tinha a quarta classe era muito mais bem preparada do que estes miúdos que estão no 12.º ano, sabia os rios todos de Angola’. Que é uma coisa importante para a gente saber… Hoje temos acesso ao Google, ficamos num instante a saber os rios de todo o mundo. Sinto que agora é melhor do que já foi, precisamente pela relação professor/aluno. Sinto que há algum tempo, a comunicação era baseada no medo, o que não proporciona um bom ambiente para aprender. Hoje o professor já não é uma pessoa que castiga e acho que é mais fácil aprender com uma pessoa que não nos quer bater”.

“LITERATURA É A COSCUVILHICE DOS INTELECTUAIS”

“É uma frase, do David Lodge, muito prosaica sobre a literatura… Porque basicamente o que fazemos é ficar a par da vida dessas pessoas. (…) Li ‘Os Maias’ quando tinha para aí 14 anos e gostei imenso. Eu não tinha irmãos, mas desejei muito ter uma irmã”.

“PIOR JORNALISTA DO MUNDO”

A minha experiência pessoal com a comunicação social é péssima. Tanto quando era jornalista, como nas alturas em que tive que lidar com jornalistas, abominei sempre aquele processo. Fui o pior jornalista do mundo. Não tinha interesse nenhum em fazer aquele trabalho. (…) A meio da universidade escrevi uma crónica e ganhei um primeiro prémio que era um estágio não remunerado na TVI. Todos os dias rezo pelo rapaz que ganhou o segundo. Não sei o que era, mas se o primeiro era um estágio não remunerado na TVI, o segundo devia ser uma carga de pancada. (…) O Bruno Nogueira tinha um programa na RTP, o Lado B, e disse-me: ‘vou começar a fazer o programa, estou um bocado nervoso, ajudava-me ter alguém que já conhecesse e queria que fosses o meu primeiro convidado’. Eu disse: com certeza. No final estava lá um jornalista e pergunta-me: ‘você vem ao programa do seu concorrente’? E eu respondi que isto não é um negócio concorrencial, não é exactamente a Coca-Cola e a Pepsi, não há razão para uma pessoa ver o Bruno e não me ver a mim, ou vice-versa. Passados três dias sai a publicação e ele escreveu uma página que dizia: ‘Guerra de humoristas no auge. Ricardo Araújo Pereira considera que é a Coca-Cola do humor português e que Bruno Nogueira nunca passará da Pepsi”.

“O QUE DIZEM OS SEUS OLHOS?”

“Já fui convidado algumas vezes para ir a esse programa [Alta Definição]. O Daniel Oliveira manda-me SMS a perguntar: ‘podes vir’? E eu respondo: ‘os meus olhos continuam sem dizer nada. Quando eles disserem alguma coisa, eu contacto-te’. Pá, eu nunca fui, porque as pessoas vão lá chorar e eu não choro desde o dia 25 de Novembro de 1999 – Celta de Vigo 7, Benfica 0. Faz-me confusão verter lágrimas em público. Não falo da minha família, enfim, não falo da generalidade das coisas que são faladas nesse programa, por isso não tenho nada para dizer. E se o Daniel Oliveira um dia me pergunta isso, sinceramente, não consigo dizer… Às vezes tenho um treçolho. Os meus olhos são muito calados, muito silenciosos”.

Entrevista publicada na edição 121 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 24 de Abril de 2013.

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