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Primeira formação, década de 60

E se vos dissessem que houve uma banda de rock de Barcelos que tocou na primeira edição do mítico festival de Vilar de Mouros nos idos 1971, acreditavam? Pois, é verdade. Chamavam-se Celos e bem podem ser considerados os avós da cena musical cá do burgo. Existiram entre 1962 e 1974, tocavam desde Jethro Tull, Rolling Stones, Beatles e Deep Purple até Black Sabbath, actuaram pouco por todo o país e até deram um concerto em Espanha. Tinham instrumentos e equipamento de som que, ainda hoje, faria roer de inveja muitas bandas. No primeiro espectáculo público, em Afife, emprestaram a bateria a Quim Barreiros e, no último, em Barcelos, estreava-se em palco, no contrabaixo, Herman José.

São uma espécie de mito, porque praticamente não há gravações e das que há não se lhes conhece o rasto. Inspiraram, até, nomes bem conhecidos da música moderna portuguesa, como Sérgio Castro, dos Trabalhadores do Comércio, que em miúdo assistia aos primeiros ensaios da banda na garagem do hotel e restaurante Bagoeira. Os concertos, raros numa altura em que Portugal vivia sob ditadura, enchiam para ver o conjunto que só queria tocar rock mas via-se forçado, para ganhar dinheiro, a tocar, também, música de baile. Hoje, estão esquecidos pelo tempo, mas o Rock Rola em Barcelos encontrou dois dos elementos fundadores, os irmãos José Manuel e Francisco Pimenta do Vale, ambos na casa dos 60 anos, para nos contarem as histórias do rock’n roll no tempo da “outra senhora” e, assim, não deixar que a memória se apague e provar que o ADN roqueiro da cidade do Galo, actualmente tão relevado, já tem décadas.

DUAS FASES DISTINTAS

Com algumas alterações na formação, a carreira dos Celos, cujo nome é uma referência à cidade onde nasceram, divide-se essencialmente em duas fases: a embrionária, na década de 60, e a mais experiente e arrojada, nos 70’s. Joaquim Matos (guitarra solo), Domingos Ferreira (vocalista), José Manuel Pimenta do Vale (baterista), Francisco Pimenta do Vale (viola ritmo) e Sérgio Teixeira (baixo – único elemento da banda que já faleceu) compuseram a primeira formação. Depois juntou-se-lhes durante algum tempo Mário Rodrigues (teclado), mas, entretanto, o baterista saía para ir combater na Guerra Colonial e era substituído por Justino Martins. Sérgio Teixeira também abandonou o grupo para cumprir o serviço militar. Foi então que Francisco Pimenta do Vale passou para o baixo e, para o seu lugar de guitarrista ritmo, entrou José Carlos Encarnação. Ainda nesta primeira fase, Justino Martins deixou o conjunto e o vocalista Domingos Ferreira passou a acumular as funções de baterista. Mais tarde, Encarnação deixou a formação, que ficou reduzida a quarteto. Depois de uma paragem de alguns meses, em 1970, José Manuel regressa do Ultramar com “ideias novas” e os Celos dão início a uma nova fase com os elementos originais, Joaquim Matos, Domingos Ferreira, Francisco Pimenta do Vale e José Manuel Pimenta do Vale, e o ‘recruta’ Mário Cerqueira (teclado). Logo a seguir, Domingos Alves (saxofone e flauta) completa a formação.

A DÉCADA DE 60

Eram adolescentes e autodidactas, à excepção do organista Mário Cerqueira, e ensaiavam no Bagoeira – mais tarde passaram a ensaiar no edifício onde é hoje a discoteca Vaticano. Um dos espectadores mais atentos desses ensaios era um miúdo, com cerca de dez anos, chamado Sérgio Castro, que mais tarde viria a formar os Trabalhadores do Comércio. “Os avós dele eram lisboetas e, na altura, vinha muita malta de Lisboa, em Setembro, altura das vindimas, para a Bagoeira. O Sérgio ficava a ver os ensaios e, ainda hoje, quando lhe perguntam, diz que foi assim que nasceu para a música”, refere Francisco.

Nessa altura, não tinham material e o som era amplificado “com rádios”. A primeira actuação foi para os pais e familiares na noite de Natal. A partir daí, os ensaios continuaram e começaram a fazer “uns bailes” na garagem do hotel “para ganhar uns tostões”. A primeira apresentação ao público aconteceu no Casino de Afife com o Conjunto Alegria, do qual fazia parte… Quim Barreiros. “Ele tocava bateria e nós tínhamos uma bateria que não era grande coisa, mas a dele era pior, então pediu ao meu irmão para tocar na dele e nós deixámos”, recorda Francisco.

É ainda nesta primeira fase que vão tocar ao outro lado da fronteira (quando esta existia mesmo) e percebem que, de facto, faziam algo com valor. Como Pontevedra já na altura era geminada com Barcelos, um dia fez-se naquela província galega um “Dia de Barcelos”. Além do Rancho Folclórico de Barcelinhos e da equipa de hóquei do Vitória de Barcelinhos, os Celos também foram representar o concelho. “Os espanhóis ficaram tolos. Quando vi aquela multidão a bater palmas e tudo no ar… Eles gostaram muito”, conta José Manuel, enquanto o irmão recorda outro episódio mais difícil: “O pior foi passar a fronteira de volta, porque ao ir deixaram-nos passar sem declarar os instrumentos e depois para vir foi um fim do mundo”.

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Segunda formação, década de 70, após José Manuel regressar do Ultramar

A DÉCADA DE 70

O regresso de José Manuel do Ultramar trouxe um novo impulso ao grupo, com a aquisição de material do melhor que havia. Estamos a falar de guitarras e baixos Fender, de um órgão Hammond, de uma bateria Ludwig e de amplificadores Sound City! “Mais de mil contos” em investimento, valor que a banda tinha que amortizar com 300 contos por trimestre. “E fazíamos 300 contos a brincar”, embora, às vezes, houvesse mais dificuldades, porque “nem sempre havia concertos”, sendo que as épocas festivas eram as mais produtivas. Já com a nova potente “instalação”, deram um concerto de apresentação no Teatro Gil Vicente que “foi um sucesso” e que “estava completamente cheio”. “Cerca de mil pessoas. Na altura não se faziam concertos, era complicado, estávamos em 1970, antes do 25 de Abril”, sublinha Francisco. Aliás, público era coisa que não faltava aos Celos, que chegaram a tocar no Pavilhão Municipal de Barcelos para “três mil e quatro mil pessoas”. E, como tocavam poucas vezes na cidade Natal, quando actuavam nas localidades vizinhas levavam “centenas” de seguidores. No entanto, num país culturalmente (e não só) pobre, não era possível fazerem apenas aquilo de que realmente gostavam. “Queríamos tocar rock, mas claro que pelo meio sobrevivia-se com bailes”, conta José Manuel.

DE SHADOWS A DEEP PURPLE

Do alinhamento do grupo constavam, além de valsas, tangos e “músicas mais lentas para entreter”, temas dos Shadows, Beatles, Rolling Stones, Os Titãs, Jethro Tull, Chicago, Blood Sweat and Tears, Black Sabbath, Deep Purle – originais só tinham “dois ou três”. Eram sonoridades que, naquele tempo, não eram compreendidas pela maioria da população. Exemplo perfeito disso foi um concerto em Venda Nova. Quando os técnicos da banda chegaram ao local do espectáculo, antes dos músicos, para montar o equipamento de som, “deitaram foguetes a pensar que era o conjunto a chegar” e uma banda de música “saltou duma moita” para os receber, narram os irmãos. “Depois puseram-nos a tocar num coreto todo enfeitado. Havia uma vaca a assar no meio do recinto”, lembra Francisco. Todavia, era algo que José Manuel já esperava quando o padre de Venda Nova o abordou para contactar o grupo: “Disse-lhe que não devia ser o nosso género, mas ele respondeu: ‘eu sei que não, mas eles não podem morrer sem ouvir isto’”.

VILAR DE MOUROS, “A LOUCURA TOTAL”

Em Vilar de Mouros, a história já era outra. Era o primeiro festival rock realizado em Portugal. Os Celos figuravam no cartaz ao lado de Manfred Mann, Elton John, Quarteto 1111 (do qual fazia parte José Cid), Pop Five Music Incorporated, Psico, Sindicato, Ojectivo e Pentágono. “Foi a loucura total”, recorda Francisco, explicando a razão de marcarem presença no ‘Woodstock português’: “Tirando os profissionais, éramos o melhor conjunto do Norte”. Tocaram duas vezes, uma à tarde e outra à noite, como “todos os grupos”. Das filas de carros intermináveis à comida que esgotou, até terem que dormir na casa do organizador, muitas foram as aventuras que os músicos viveram naquele festival que se realizou a 8 de Agosto de 1971 e ao qual assistiram cerca de 30 mil pessoas. “Havia pessoal à boleia do Algarve até Caminha”, aponta Francisco. E o regime totalitário “estava-se nas tintas” para um evento onde havia liberdade e “até já se fumavam umas ervas”, às quais José Manuel chamava “o boi”. De Elton John, que “estava a começar na altura”, os irmãos Pimenta do Vale lembram-se de o músico ter aparecido “vestido de palhaço” e de terem travado conversa de circunstância com ele.

O FIM

As vidas pessoais e profissionais dos elementos levaram ao fim da banda em 1974.O último concerto dos Celos aconteceu em Novembro desse ano, no Pavilhão Municipal de Barcelos. Com eles tocou Pedro Osório que, na altura, trouxe consigo um contrabaixista que se estreava ao vivo e que dava pelo nome de… Herman José.

Do percurso de 12 anos da banda não há singles nem álbuns. “Na altura não havia nada disso, agora é que qualquer pessoa grava em casa”, realça Francisco. Havia, isso sim, “amigos que metiam os gravadores em frente das colunas nos ensaios” e uma breve captação sonora para a rádio. Infelizmente “está tudo espalhado” e ninguém sabe por onde param essas relíquias…

Reportagem publicada na edição #4 do jornal Rock Rola em Barcelos em Julho de 2012.

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