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tragédiaOcorreu em Viana do Castelo, mas o seu verdadeiro impacto foi sentido na zona Sul do concelho de Barcelos. Só de Chorente perderam a vida 17 pessoas – num só dia no “pequenino cemitério” da freguesia foram enterrados 14 corpos. A tragédia, “que encheu de luto todo o país”, fez também vítimas mortais em Chavão, Gueral, Carvalhas e Macieira de Rates.

O dia 1 de Maio de 1938 tinha sido de imensa alegria, mas acabou em horror. Uma carrinha de caixa aberta, que transportava cerca de 40 passageiros, regressava da “Festa do Trabalho” e foi apanhada por um comboio, ao atravessar uma passagem de nível, quando passavam quinze minutos da meia-noite. Vinte e um morreram de imediato. Mas a extensa lista de feridos (bem mais de uma dezena) foi diminuindo à proporção que aumentava a dos mortos que chegaram, pelo menos (os relatos da época não são completamente esclarecedores), aos 26! No dia 3 de Maio, na cidade de Barcelos, onde era suposto comemorar-se o feriado municipal, a Festa das Cruzes foi cancelada. O cortejo fúnebre, que arrancou de manhã cedo de Viana do Castelo, foi recebido por uma multidão que chorava as vítimas.

“MAIOR TRAGÉDIA OCORRIDA EM VIANA”

“Viana tinha sido escolhida para as comemorações da Festa do Trabalho Nacional. As ruas da cidade foram vistosamente ornamentadas e engalanadas. O Governo de Salazar apostara com grandes meios em comemorar a efeméride com um brilho próprio, revestindo o acontecimento de certa grandeza, proporcionando a participação de milhares de forasteiros, que sucessivos comboios especiais, camionetas e toda a espécie de automóveis despejaram na cidade, vindos de todos os pontos do Norte”, refere António de Carvalho num artigo intitulado “As grandes tragédias ocorridas em Viana” (20 de Julho de 2000). Após terminar a festa, “toda aquela vaga de povo foi impelida em grandes correrias a fazer a viagem de regresso, porque a chuva começou a cair com forte intensidade” e as “ruas depressa atingiram um movimento caótico com grandes engarrafamentos nas vias de saída”, explica o autor.

Ora, ao tentar sair de Viana, o condutor da viatura que pertencia a António Ferreira (Feital), Adolfo Oliveira e Cândido Ribeiro, de Chavão, procurava o caminho para Barcelos, mas como não conhecia o local, acabou por se enganar. “A caminheta de carga com o n.º 17.414-N, conduzida pelo motorista António da Silva Pereira, (…) saindo do parque de estacionamento, junto da ponte metálica, subiu a rampa que dá acesso à rua de José Espregueira e, em vez de voltar à esquerda, isto é, para a ponte, seguiu, por engano, pela estrada de Papanata, até ao cruzamento desta com a rua de Bandeira, onde o motorista verificou que seguia caminho errado. Ali, manobrou, dando meia-volta em direcção à passagem de nível. Ao atravessá-la (…) passava também o comboio especial n.º 5 884, com destino a Braga, que apanhou a camioneta por metade da ‘carrosserie’”, lê-se na reportagem do jornal A Aurora do Lima.

A Cruz Vermelha, os Bombeiros Voluntários e Municipais Vianenses e ainda os Bombeiros de Esposende prestaram socorro no local da catástrofe que, segundo António de Carvalho, “é mesmo considerada a maior tragédia ocorrida em Viana”. Os jornais da época consideravam não haver “memória de outra semelhante por estes sítios” (A Aurora do Lima) e que foi uma “coisa trágica, aterradora, jamais vista em terras do Minho, jamais vista em terra Portuguesa” (Jornal de Notícias).

CORPOS “QUASE IRRECONHECÍVEIS”

As descrições do acidente são, no mínimo, tenebrosas. “Os corpos voaram em todos os sentidos, havendo gritos de desespero, lamentações, chamamentos de pais por filhos, esposas por maridos, etc. Ao longo da linha férrea viam-se corpos mutilados, fragmentos de carne retalhada, escorrendo sangue, pedaços de madeira e ferro retorcido, pertencentes à caminheta que ficou reduzida a um montão de destroços, bem como parte do gradeamento da ponte”, escreveu o repórter d’A Aurora do Lima, que recolheu, ainda, o depoimento de uma testemunha que viu “uma mulher com o corpo traçado ao meio” e, “mais adiante, um homem sem pernas, de bruços, e com o rosto voltado para as costas”.

O Hospital da Misericórdia de Viana do Castelo, para onde foram transportados os mortos e os feridos, parecia um filme de terror. “O asseio e a ordem da enfermaria contrastavam com os gemidos, lamentações e gritos de dor dos feridos – uns com o rosto semi-escondido entre ligaduras, outros com elas a encobrir-lhes a cabeça, sobressaindo uma mancha de sangue rubro”. E na morgue o cenário – descreve ainda A Aurora do Lima – era “arrepiante”. “Estendidos em linha, jaziam sobre os azulejos 21 corpos cobertos com lençóis”.

Muitos dos mortos ficaram “quase irreconhecíveis”. “Às quatro horas da tarde, muito depois do choque da passagem de Gontim, o sr. António Gomes da Costa, cartorário da Misericórdia, (…) ainda não conseguira, por mais que trabalhasse, fazer a identificação total dos cadáveres. Era tarefa ingente, dificílima”, reportava o Jornal de Notícias (JN).

O DIA EM QUE AS CRUZES PARARAM

As “quatro caminhetas” que transportavam os “21 esquifes” entraram em Barcelos cerca das nove horas da manhã do dia 3 de Maio. De acordo com o JN, “o quadro impressionante, macabro, gelou todas as almas. Multidão densa, em atitude contrita, aguardava, com as autoridades superiores do concelho, à entrada da cidade, o lúgubre cortejo. Ouviam-se gritos despedaçadores, mãos em súplica, preces, rogos“.

Feriado municipal, era suposto ser um dia de alegria, mas “a Comissão das Festas das Cruzes suspendeu os seus trabalhos, em sinal de sentimento”, informava o JN, acrescentando: “Barcelos, consternadíssima, prepara, para sábado próximo, solenes exéquias por alma destes vinte e um mal-aventurados (…). À cerimónia presidirá o Arcebispo de Braga, assistindo, também, os Governadores Civis de Braga e de Viana do Castelo. Barcelos, na sua semana festiva – a grande jornada das Cruzes – perdeu a cor e a alegria”.

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Só num dia, o cemitério de Chorente, “sob uma chuva torrencial”, viu serem enterrados 14 corpos. “Os coveiros, que começaram a sua árdua tarefa às onze horas da manhã, continuavam, cansados, exaustos, ao fim do dia – e tinham ainda para muitas horas”. Um dos coveiros, a quem “o espectáculo da morte contínua não conseguira insensibilizar”, com “os olhos marejados de lágrimas”, afirmou ao jornalista do JN que abrira naquele dia “mais sepulturas do que no espaço de dois anos” – a média de mortes em Chorente seria, portanto, de sete por ano. “O cemitério, pequenino, já não tinha um plano de terra livre”.

“De memória de vivos, não há notícia de tão trágica hecatombe. Chorente, que tem 130 fogos com 700 almas, perdeu, no espaço de minutos, catorze dos seus filhos”, lamentava o pároco da freguesia que conduziu as cerimónias fúnebres, Adelino Anselmo de Sousa Matos.

DE QUEM FOI A CULPA?

“Quem são os culpados?”, era esta a interrogação de quem reclamava justiça. Logo após o desastre, foi criada uma comissão de inquérito para apurar o que se passou ao certo. Muitos factores estão na origem da tragédia, logo a começar pela viatura em que as vítimas seguiam. “O transporte desses infelizes foi feito numa camioneta de carga” que o Conselho Superior de Viação autorizara, “excepcionalmente”, devido à “dificuldade de meios de condução” para a Festa do Trabalho. Todavia, não teriam sido respeitadas “a lotação nem as condições normais de segurança dos passageiros”, realçava o JN, que considerava haver muitas perguntas sem resposta.

Como é que a cancela estava aberta na hora da passagem de um comboio? De imediato detida pelas autoridades, a guarda da linha afirmou não ter recebido os horários dos comboios especiais. “E nunca Viana teve, como nesse dia, tantos comboios especiais. Assim, quando viu partir o último comboio da tabela, sossegou. E o seu sossego – deste modo justificado – provocou a catástrofe” (JN). Ao que os jornais apuraram, passara um comboio poucos minutos antes e, de seguida, a guarda abrira a cancela a um automóvel e não voltou a fechá-la. A experiente Angelina de Jesus Brandão, que já tinha 24 anos de ofício – e que face ao trabalho extra que sabia que ia ter até tinha requisitado um “auxiliar” – alega que não deu “passagem” à camioneta. “O ‘chauffer’, que viu as cancelas abertas, meteu à linha. Foi uma desgraça”, afirmou ao JN. Manuel Francisco, agente da PSP que “estava como sinaleiro” no local, afirmou ao mesmo jornal que “as cancelas estavam abertas”, a “guarda ausente” e a “linha estava livre”, por isso, deu-lhe “passagem”. O condutor António da Silva Pereira defendeu-se n’A Aurora do Lima: “Eu passei, porque as cancelas estavam abertas. Não vi guarda nem qualquer sinal que impedisse a passagem”. E, novamente ao JN, o maquinista Alberto Ferreira garantiu nem sequer ter dado “pelo choque”. “A máquina pesa qualquer coisa como cem toneladas”, justifica. E prossegue: “O caminho estava livre, era a minha hora, avancei. Notei, de súbito, que a máquina parara. Fui verificar do que se tratava. Ouvi, então, à retaguarda, gritos horríveis”. O comboio parou 200 metros após o embate.

Não foi possível descobrir as conclusões – se as houve – do inquérito. Mas certo é que o desastre de Gontim “originou que as passagens de nível viárias fossem depois todas fechadas e, com a entrada em funcionamento do viaduto de Santo António, em 1985, desaparecessem também as destinadas aos peões” (António de Carvalho). Segundo A Aurora do Lima, existiam, na altura, “seis passagens de nível no perímetro” de Viana do Castelo.

LARES DESTROÇADOS

Chorente foi a comunidade mais atingida pela tragédia de Gontim. Houve casas em que faleceram três pessoas. No lugar da Torre, morreu Albino Joaquim da Costa, o seu filho Gabriel e, posteriormente, a mulher Maria de Oliveira. José de Oliveira Amorim faleceu junto com a filha Deolinda. E a esposa, Maria Andrade Novais, depois de lhe ter sido amputado um braço, morreu já em casa. O filho Joaquim Novais, que ainda salvou a mãe da morte imediata, foi o único sobrevivente da família que tinha ido a Viana. Noutros lares faleceram casais: Teresa Gomes Ferreira e Manuel José António da Silva, de Chorente, José Ferreira e Maria Ferreira Novais, de Macieira de Rates, e Mateus Pereira e Maria Araújo Pereira, de Gueral.

“RECONHECI OS MEUS FILHOS PELA ROUPA”

Em Chorente, António Gomes Ferreira de Brito viu morrerem dois filhos: Maria Cândida, de 22 anos, e Luiz, de 15. O comerciante do lugar do Assento, que também seguia na camioneta mas sobreviveu, relatou o acidente ao JN (04/05/1938): “Contávamos sair de Viana ao princípio da noite. Não houve fogo por causa da chuva e, que houvesse, a combinação era sair depois do cortejo. A chuva, muito grossa, não permitiu o embarque. (…) Por volta da meia-noite, como o tempo serenasse, pusemo-nos a caminho. (…) Eu ia com a minha Maria Cândida ao lado e o Luiz mais atrás. De repente ouvi um estrondo, julguei que fosse uma explosão, fiquei na rua fora do carro escondido. (…) Dei a volta à camioneta a ver se encontrava os meus filhos. Vi-os logo. O meu Luiz cortado pela cinta, a minha Maria Cândida com a cabeça degolada. Reconheci-os pela roupa”. A esposa de António Brito, mãe das vítimas, quando soube da tragédia “caiu de cama” e haveria de morrer de desgosto um ano depois.

“MANDEI-A PARA A MORTE SEM QUERER”

Tereza Faria, cujo marido ficou em estado grave, optara por não ir à Festa do Trabalho para ceder o lugar à sua criada, Maria das Dores, de 18 anos. “Tínhamo-la como criada há tempos. A mãe [dela] morreu, o pai está na cadeia. Nunca tivemos moça tão servil. Ela tinha grande vontade de ir a Viana. Para lhe dar o gosto, como era pronta a fazer vontades, dei-lhe o meu lugar. Mandei-a para a morte sem querer”, contou ao JN.

Reportagem publicada na edição 122 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 1 de Maio de 2013.

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