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DSC_2861Com 30 jovens a frequentar a escola, a formação é a principal bandeira da Banda Musical de Oliveira, que completou 230 anos. A rara longevidade da única filarmónica do concelho é justificada, segundo Cândido Bastos, pela qualidade musical e, também, pelo gosto que, inclusive, o fez voltar a assumir, recentemente, a presidência da instituição, após quase um ano de vazio directivo. Superada a crise, as dificuldades continuam a ser muitas e não há dinheiro para a necessária renovação de fardas e instrumentos.

Os 230 anos da Banda Musical de Oliveira são um marco importante. Como é que a banda conseguiu manter-se activa durante tanto tempo?

Segundo diz a história, a banda tocou pela primeira vez em 1782 na inauguração da torre de Oliveira, sob a direcção do senhor António Ferraz, de Ruilhe, que era músico e casou aqui na freguesia. A pessoa que dirigia a banda era só uma, o mestre fazia de tudo, não havia direcção. E geralmente os párocos eram os obreiros da instituição. Sabe-se que passou por situações boas, por outras menos boas… Quando fui para a Banda, em 1965, quem a dirigia era o senhor Francisco Cruz Gomes, e também não havia direcção. Ou seja, havia a direcção mas não funcionava, esse senhor era contra-mestre, presidente, fazia de tudo. A banda passava por muitas crises, porque os músicos eram dirigidos pelos próprios músicos e quando se desentendiam formavam duas facções, havia divisões. Ainda me recordo que, durante uma série de anos, a Banda chegava aos fins dos serviços e acabava. Depois, entretanto, havia a entrega da cruz no primeiro domingo de Janeiro, na qual a banda sempre tocou, e ia-se chamar aquela dúzia de músicos. E nesse dia a banda voltava a fazer mais uma época. Em 1952/53, houve uma crise em que a banda parou temporariamente. Houve uma série de músicos que foram para outras bandas, mas entretanto chegou um senhor da Venezuela que tinha sido músico e a banda esteve parada nem um ano. Quando regressei da banda militar, em 1975, a Banda de Oliveira estava quase extinta, não havia músicos, não havia dinheiro, não havia farda… Muito complicado. Entendi que devia fundar uma escola. Comecei a trabalhar com jovens e aí é que começámos a pensar mais no futuro. Fundámos uma comissão administrativa, formou-se uma direcção e, a partir daí, a banda nunca mais chegou àquela crise de se dizer que pode acabar. Tem sempre problemas, mas os órgãos funcionam. Quando há uma crise, o presidente da assembleia tenta resolver o problema, como foi o caso desta crise que houve recentemente… Quando não há direcção, há uma crise.

 Que o levou a assumir a presidência da direcção novamente.

Sempre disse que queria ajudar, mas não queria ter mais responsabilidades, porque acho que já passou a minha época, dei aquilo que pude à banda, tanto financeiramente, como tempo da minha vida, mas, perante esta crise, cheguei à conclusão… Não tínhamos direcção há quase um ano, era um período em que era preciso fazer protocolos com a Câmara, e não só. Começámos a ter problemas nas gratificações aos professores, isto estava a entrar num campo que em termos de futuro podia ser difícil. Voltei para fazer aquilo que posso. Arranjei uma equipa de jovens com muita força, têm muitas qualidades. Penso que estou a preparar um caminho para o futuro ao qual os jovens dêem continuidade.

A principal base da Banda de Oliveira é a formação, tem uma escola com cerca de 60 jovens…

Quase temos mais alunos na escola de música do que na escola primária. Funciona todos os dias e ao sábado funciona das nove às sete da tarde.

A escola começou quando o sr. Cândido veio da banda militar.

Sim, comecei a dar aulas em minha casa, depois fomos para a antiga sede da Junta.

A maior parte dos músicos da banda vem da formação?

Sim. Embora tenhamos alguns músicos que começam aqui a formação e depois vão para os conservatórios, para as escolas superiores… Mas uma parte da formação, sim. Um jovem para entrar na Banda anda demora sempre quatro/cinco anos. Às vezes começam com seis/sete anos e só entram com onze… Para entrar na Banda o músico tem que ter uma certa qualidade. Não é como no meu tempo, em que andei nove meses e entrei. Os alunos têm que dar provas de que são capazes de entrar.

Fica em conta os pais porem os filhos a estudar música na escola da Banda de Oliveira?

Aqui, o ensino, além de ter qualidade, é barato. Temos um protocolo com a Câmara, que nos dá um subsídio para a escola e nós fazemos concertos para o Município. Penso que é bom para a Câmara e para os jovens. Os pais pagam dez euros mensais para despesas. Isto não chega, principalmente para a compra de instrumentos mas, com aquilo que a Câmara dá, com os sócios que temos e como há sempre um benfeitor ou outro, penso que poderemos aguentar a escola nestes termos.

Os alunos usam os instrumentos da Banda?

Dentro do possível, tentamos que os pais comprem um instrumento barato no princípio. Está a ser um problema, porque começam a ser muitos alunos e a Banda começa a não ter suporte. Os instrumentos que já estão mais gastos na banda passamo-los para a escola, porque o instrumento para o músico da Banda tem que ter mais qualidade. Há também pais que por 150/200 euros já compram um instrumento. Antigamente, os instrumentos eram mais caros. Àquele pai que tem mais dificuldades a escola tenta ajudar, temos muitos instrumentos da escola que são da Banda. Para um aluno começar, não se vai comprar um instrumento de dois, três ou quatro mil euros. Agora, depois de ser músico, passados uns anos, já tem uma exigência maior e tem que ter um instrumento da banda. Uma tuba, que custa sempre à volta dos seis mil euros, tem que ser da banda até porque há outro problema: se o músico sai da banda, leva o instrumento consigo…

Além da parte de formação musical, também há a parte da formação pessoal…

É muito importante fazer esse investimento, principalmente na cidadania. Habituar os alunos a respeitar as diferenças. Incutir nos jovens que ser diferente não é ser pior do que outro. E se houver regras de comportamento… Eu fico admirado como um jovem aguenta três horas num ensaio. Com aquele sacrifício a que se habitua nesta instituição, é natural que depois saia daqui e esteja preparado para enfrentar certas dificuldades. Outra das coisas que se tentam fazer é criar uma camaradagem, e que essa camaradagem se possa transmitir às famílias. Quando o aluno começa a ter dificuldade na música, começa a ter dificuldade na escola. Se um jovem deixar a música, na escola ressente-se. Há que ter uma ajuda entre as partes para que na própria aula de música se incentive o aluno também na escola. Está mais do que provado que a música ajuda a parte intelectual. Estou convencido que a música pode ser um trampolim para o bem da sociedade.

Ainda em relação à formação, é com alegria que a Banda de Oliveira vê casos como o do seu filho Samuel Bastos, que começou a estudar aqui e agora está num alto patamar, no caso, na orquestra de Berlim?

A nível internacional, o Samuel é uma referência, mas tem a humildade de não ter vergonha de dizer que foi aqui, nesta escola, neste ambiente, que começou e depois seguiu a sua carreira.

Para a escola é uma recompensa pelo trabalho feito?

Sim, mas temos mais. Temos uma série de pessoas licenciadas e com mestrado que saíram de cá. Não temos capacidade de segurar os músicos. Temos uma série de músicos que vão para outras bandas ganhar 150 euros, enquanto aqui ganham 40/50 euros. Não há hipótese. Aqui não se pode pagar, porquê? Investimos muito na formação, enquanto há uma série de bandas que investe no espectáculo, vão buscar os músicos formados.

Outro projecto que vocês têm é o Grupo de Música de Câmara. Como surgiu?

Na altura, eu era presidente e o maestro era António Oliveira e a escola estava a dar muitos frutos. Apresentei um projecto para termos um grupo em que as deslocações fossem mais fáceis, com músicas mais ligeiras, e que desse para fazer espectáculos em salões. Fui buscar essa ideia, porque, quando era maestro, levava a escola a vários salões, e isso foi bom para a Banda, para a escola e para as freguesias onde íamos, porque tinham mais conhecimento do que eram os instrumentos. Tentamos também transmitir essa cultura geral. O grupo tem uma evolução de anos. O sr. Melo também foi director artístico, assim como António de Oliveira, Samuel Bastos, depois foi o Manuel Miranda e actualmente é o nosso maestro, Hugo Ribeiro. Esse grupo é muito interessante e muito importante para a banda, porque toca um repertório mais ligeiro e são músicos mais jovens que vão rodando com vista à melhoria da qualidade. E temos, agora, também um projecto da escola, com outro director artístico, que também vai fazer espectáculos.

Então a escola também vai começar a fazer concertos?

Sim, espero que para o ano possamos fazer, pelo menos, seis a oito espectáculos, em freguesias. Se o grupo da escola for a uma freguesia e incentivar os jovens a irem a esse espectáculo, isso é importante, porque a música só faz bem à juventude.

A banda é dirigida pelo maestro Hugo Ribeiro há quatro anos. Tem quantos músicos?

À volta de 60.

Tantos como na escola, então…

Sim, e o Grupo de Música de Câmara tem trinta e tal.

No 230.º aniversário tiveram uma homenagem da Junta e a Câmara também vos prestou louvores. É importante este reconhecimento, as entidades autárquicas valorizarem o trabalho que a banda tem feito pela freguesia e pelo concelho?

Em princípio, a Banda de Oliveira é a segunda instituição mais antiga do concelho, a seguir à Santa Casa da Misericórdia. E, depois, também temos centenas de músicos no concelho que já andaram aqui. As entidades oficiais também estão atentas a isso. Fomos homenageados pelo Governo, pelos Bombeiros de Barcelos e Barcelinhos, pela Câmara e pela Junta de Freguesia. A Banda, reconhecidamente, agradece. Até porque aos próprios jovens foi dito que valeu a pena eles estarem cá presentes e reconhecer o passado: mostrar-lhes que, se não fosse o sacrifício de muitos antepassados, com certeza eles não estariam cá. Educar os próprios jovens para que eles, amanhã, façam alguma coisa por isto, porque sabem que serão mais tarde reconhecidos por outros jovens. Acho que a Câmara tem uma estima por esta associação e penso que fazemos um trabalho em conjunto, que é bom para a banda, é bom para a Câmara, mas também para o concelho. Vamos levar a música a vários locais, muitas vezes, sem fins lucrativos.

Os apoios que recebem são suficientes?

Nós dizemos sempre que podiam ser mais. A banda está com muitas dificuldades, tem dificuldades financeiras. Houve alturas melhores, menos boas, actualmente temos alguns projectos para desenvolver e em algumas situações vamos precisar da ajuda dos amigos, dos sócios, da Câmara, dentro dos possíveis… Passámos por fases, quando foi a construção da sede, passámos por fases muito difíceis, mas valeu a pena passar por essas dificuldades.

A sede é património vosso?

Sim.

Há quantos anos?

Começámos a fazer a sede em 83/84, a primeira fase. Depois as salas de aulas foram construídas em 89, a segunda fase. Já temos condições, mas há coisas a melhorar. A nível de fardamento estamos muito mal, já tem uma série de anos, a nível de instrumentos também era preciso um investimento… A banda precisava hoje de 20 a 30 mil euros instantaneamente para recuperar algumas situações, porque houve investimento mas as coisas vão-se degradando.

Há muitos anos havia mais do que uma banda no concelho: a de Vilar do Monte…

Segundo dizem, havia a de Vilar do Monte, de Areias, de Creixomil, e também chegou a haver uma em Vila Cova…

Dessas só resistiu uma…

Penso que a de Oliveira resistiu muito pela qualidade musical. O António Ferraz, de Ruilhe, já seria um grande músico na época e notei, há quarenta anos, mesmo quando fui para a banda militar, que estávamos bem preparados em relação às restantes bandas. Os músicos aqui tinham solfejo, tinham educação musical e acho que tivemos sempre bons músicos. Não eram muitos, mas alguns eram bons, mas há bandas que nunca tiveram nenhum. E penso que naquela altura formava-se uma banda por qualquer coisa. Dois ou três músicos formavam uma banda, mas não tinham alicerces, não tinham as bases fundamentais para depois dar seguimento. E basta ficarem três ou quatro músicos com bases para não deixar cair. Acho que foi isso que aconteceu em Oliveira. A parte musical e também o gostar, porque era uma banda muita antiga. As outras nasceram depois e morreram muito antes. Algumas vezes temi que a banda não sobrevivesse. Lembro-me de uma altura, no meu início de maestro, que os músicos fizeram-me um boicote. Naquela altura, já tinha muitos jovens na escola, para aí 20, e os músicos mais velhos começaram a ver que os mais novos estavam a desenvolver bastante e fizeram um boicote: se não desse dois contos por cada serviço não vinham. E alguns foram-se embora. Óbvio que passei ali um Verão com muitas dificuldades, mas com coragem e trabalho… 

Entrevista publicada na edição 105 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 3 de Janeiro de 2013.

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