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Fotografia por Dario Silva

O centro da cidade está agitado. É quinta-feira à tarde, em pleno Agosto, o sol é abrasador e magotes de emigrantes passeiam-se pelas ruas de Barcelos, aproveitando para visitar a feira semanal e matar saudades da terra. Os comerciantes agradecem o bom tempo e esfregam as mãos de contentamento. Na Rua D. António Barroso (Rua Direita), as pessoas entram e saem de uma loja e entram noutra, quase todas de vestuário e quiosques. Por seu turno, a Casa Raul Veloso, ali bem no meio daquela artéria central, “observa” todo este frenesim com a serenidade, sapiência e altivez que só os seus 140 anos de história lhe podem dar. É das mais antigas casas de comércio tradicional de Barcelos e das poucas lojas de ferragens que, no centro da cidade, resistiram estoicamente ao passar das décadas, sempre na mesma família.

É certo que os tempos já foram outros, bem melhores. Apesar de ainda se sentir “um aumento” às quintas-feiras, “já não é o que era”. “A uma quinta-feira de Agosto ninguém se mexia aqui dentro. Era a loucura, tudo cheio”, conta-nos Carlos Eduardo Veloso, 43 anos, no alto escritório com vista global para a loja onde dirige o negócio começado pelo seu trisavô, Mathias Gonçalves da Cruz, em 1872 (a casa manteve o nome do fundador até 1921, quando foi comprada por Raul Ferreira Veloso, casado com uma neta de Mathias Gonçalves da Cruz, e que trabalhava na loja de ferragens dos avós da mulher). A casa cheira a um antigo e nostálgico limpo por causa da madeira que compõe o balcão e as montras, onde estão expostos desde puxadores a parafusos, entre outros artigos. Tempos houve, ainda, em que ali se vendia armas e munições.

 ADAPTAÇÃO AOS TEMPOS

Todos os idosos que alcançam o incrível feito de usar três dígitos para contar os anos que levam de vida têm uma explicação para tal. Por norma, uma vida regrada. No caso do comércio, a palavra-chave para a longevidade é a adaptação. Se noutros tempos a Casa Raul Veloso vendia o material para a construção de toda uma casa, hoje, perante a concorrência das grandes cadeias e superfícies, dedica-se à manutenção. “Se partiu alguma coisa em sua casa, vai ter que substituir, é normal. A vantagem é arranjar o que partiu, porque peças novas é difícil de arranjar. Já não nos dedicamos a massas, mas a um nicho de mercado”, vinca o responsável, exemplificando com algumas das situações mais comuns: “Um autoclismo que partiu, uma bicha que furou, uma fechadora que se quebrou, um cofre para abrir”. Apesar da importância das vendas para uso doméstico, a indústria continua a ter para si a maior fatia do bolo. “As fábricas gastam mais, porque as peças têm mais desgaste por causa dos químicos”, explica Carlos Eduardo, notando que o “volume de negócios reduziu”, mas também os custos, agora, são menores. Quando começou a tomar conta da loja, em 1989, após a morte do seu pai, Raul Carlos da Cruz Veloso, esta tinha “13 empregados”, enquanto agora tem apenas quatro. “Não necessitamos de tanta gente”, justifica. E das cinco portas que compõem a fachada, que vai do número 91 ao 99, duas delas, que serviam de “montra” para tintas e outros produtos, foram arrendadas a uma agência de viagens. “Rentabiliza-se esse espaço”. Por isso, sem conseguir descortinar o que o futuro trará, com mais ou menos dificuldade, Carlos Eduardo acredita que o negócio se vai aguentar graças à referida “questão de manutenção”. E, claro, a tradição dá uma motivação extra: “Temos 140 anos na mesma família, vamos tentar manter a loja como está o maior tempo possível”.

FUNCIONÁRIOS COM DÉCADAS DE CASA

Além do rés-do-chão, onde funciona a loja, a casa típica da segunda metade do século XIX tem dois andares. É lá que vive Maria Eduarda Mancelos Sampayo da Cruz Veloso, mãe de Carlos Eduardo. “Estou aqui há 40 e tal anos. Depois de casar vim para aqui. É maravilhosa a casa, mas agora torna-se grande de mais para mim, porque estou sozinha. É muito fria”, queixa-se. Professora primária de profissão, a viúva de Raul Carlos Veloso esteve apenas “uma temporada à frente da loja”, quando o marido faleceu. Apesar dos seus 85 anos, tem uma vivacidade incrível. Fala com entusiasmo e sem nunca perder o fio à meada. Sempre com um sorriso gracioso, conta-nos que, desde aquele tempo até aos dias de hoje, o que considera mais ter mudado foi o “respeito pelas pessoas”. “As pessoas eram mais educadas, mais respeitadoras”, afirma. Refere-se, globalmente, ao bom-trato no contacto com os clientes, para o qual contribuía o que agora já vai sendo raro: funcionários com décadas de casa. Já quase não há empregos para a vida, mas ali ainda continua a ser assim. Zé Manel serve de exemplo: está ao balcão da loja há 36 anos, e iniciou-se na função quando tinha apenas dez. E, afinal, é nesta familiaridade que reside parte importante da mística do comércio tradicional que dobra séculos, adapta-se, mas se recusa a perder a identidade.

HISTÓRIA DA CASA DE MATHIAS GONÇALVES DA CRUZ

Abastado negociante, Mathias Gonçalves da Cruz comprou “três casas em ruínas”, em 1872, na Rua Direita, por 800 mil réis, à família Pereira de Carvalho, que ali vivia desde o século XVII. Naquele local mandou construir um edifício de dois andares “ladeado por duas pilastras que terminam em cornija” e “revestido de azulejos polícromos” – estes últimos são, por influência brasileira, uma marca das residências daquela época.

Nascido em 1837, na Póvoa de Varzim, casou-se em 1871 com a barcelense Teresa das Dores Coelho da Silva e haveria de morrer em 1914 na sua casa, ali na Rua Direita, onde também nasceram os cinco filhos do casal. O edifício passou para a propriedade da filha Maria Henriqueta Coelho da Cruz, que em 1919 o vendeu ao vizinho Miguel Martinho de Faria. Por seu turno, este foi comprado, dois anos depois, por Raul Ferreira Veloso, casado com Maria Helena Leão da Cruz, neta do fundador. Tiveram dois filhos: Maria Alice e Raul Carlos da Cruz Veloso. Este último, nascido em 1924 e falecido em 1989, foi quem herdou o negócio e a casa onde nascera. Casou com Maria Eduarda Mancelos Sampayo da Cruz Veloso, natural de Barcelinhos, com quem teve três filhos: Luís Augusto, Maria Eduarda e Carlos Eduardo, que é quem gere actualmente a casa de ferragens.

Quanto à família Pereira de Carvalho, esta viveu na Rua Direita desde, “pelo menos”, a segunda metade do século XVII – os registos mais antigos remontam a 1660. Passando de geração em geração, a casa havia de ser vendida pelo capitão Francisco Machado Pereira de Carvalho que já não residia nela, mas sim em Lijó, a Mathias Gonçalves da Cruz, em 1872. Dos seis filhos que o militar teve, fruto do casamento com Brites Joaquina da Cunha Leitão Sotto Mayor, nenhum deixou descendência, tendo-se extinguido, assim, em finais do século XIX, a família Pereira de Carvalho. Fonte: Barcelos Histórico, Monumental e Artístico (APPACDM, 1998)

Reportagem publicada na edição 87 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 29 de Agosto de 2012.

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