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Fotografia por Dario Silva

Rui Torres, sob o nome artístico Anoik, fez capas para discos de bandas como ALTO! ou Killimanjaro. Graciela Coelho viu um dos seus trabalhos publicados na edição online da revista inglesa Wire. Bruno Albuquerque concebeu o jornal Rock Rola em Barcelos. São três jovens designers de Barcelos, todos eles licenciados no Instituto Politécnico do Cávado e Ave (IPCA), e que mantêm uma forte ligação com o movimento musical, essencialmente rock, da cidade. Afinal, nem só de músicos vive a cena artística da “capital do rock”, como recorrentemente vem sendo rotulada a terra do Galo. As bandas, cada vez mais numerosas e com maior qualidade, dão o mote em forma de acordes e os designers empenham a sua criatividade para dar ao som a imagem que ele merece.

RUI TORRES (ANOIK), 25 ANOS

O alter-ego que Rui Torres adoptou é enigmático, e tem uma explicação tão interessante quanto mórbida: “Pelo que o meu avô me contou, por volta de 1700 havia um pintor grego muito importante, chamado Hanoikidis, a viver em Barcelos. O que me despertou curiosidade neste pintor foi que ele só fazia retratos de pessoas no seu leito da morte ou já mortas. Isto, ao mesmo tempo que me chocou, deixou-me preso a essa personagem, precisava de descobrir mais sobre este Hanoikidis e as suas peças. O uso do nome Anoik é uma espécie de tributo à temática do pintor”.

As “influências basilares” do ilustrador de 25 anos remetem para a sua infância, “principalmente” animações, “como Neon Genesis Evangelion, a Princesa Mononoke, Simpsons, Dragon Ball, Looney Tunes ou a incontornável série do Ren & Stimpy”. E recorda que “passava horas a olhar para os cromos que saíam no Bollycao a analisar minuciosamente as formas e desenhos das personagens”. “Tudo isso acabou filtrado e direcionado para um relativo domínio do desenho, que me parece competência essencial – não única – para desenvolver um bom trabalho de Ilustração”, observa.

Rui Torres encontra “muita coisa” no design que o entusiasma, “desde o desafio ao processo” em si. “Do momento em que vês o teu projecto, que criaste e fizeste crescer, a ser utilizado por estranhos, até mesmo ao dia em que recebes os respectivos honorários”. Contudo, aquilo que mais o “faz querer continuar a trabalhar” são as pessoas que vai “conhecendo” e as “ideias que elas podem ter” para partilhar. É também por causa dessa descoberta e troca de experiências que considera que trabalhar com o universo da música  estimula a criatividade “ao mais ALTO! nível” – usando um trocadilho com o nome de um dos grupos com os quais trabalhou. “É um desafio muito satisfatório, já que a pesquisa do percurso, das referências e dos ideais das bandas faz-me crescer, saber mais e ficar a par de muita mais informação. Desde a procura de determinado filme referenciado pela banda, até à ida aos seus concertos, passando pelas conversas e brainstorming com os músicos. Tudo isso, aliado ao processo de criação e concretização de uma interpretação do trabalho de outras pessoas, faz com que eu queira manter esta forma de trabalho”, vinca Rui Torres, para quem as diferentes áreas artísticas se complementam. “A ilustração e o design podem oferecer à música, a ‘materialização’ necessária e essencial para a sua comunicação noutros meios, através de posters, CDs, jornais e revistas, vídeos, t-shirts e afins, suportes de comunicação gráfica impossíveis de alcançar por meio do som”. E fornece como exemplos dessa “necessidade” alguns grupos para os quais desenhou. “Os Alto!, New Kind of Mambo ou Killimanjaro sofreram uma tradução gráfica da sua música para a ilustração e tornaram-se, assim, capazes de uma extensão da sua comunicação, de uma articulação da sua mensagem para diversos suportes gráficos”, fundamenta.

GRACIELA COELHO, 22 ANOS

Já teve um trabalho publicado no sítio de uma das mais respeitadas publicações estrangeiras sobre música. A capa de “Faust” dos La La La Ressonance (LLLR) esteve em destaque na edição online da Wire, o que obviamente deixou Graciela Coelho, 22 anos, agradada. “Sendo uma das revistas mais conceituadas no mundo da música (e, sem dúvida, das minhas preferidas), extremamente selectiva e particularmente cuidadosa na escolha de capas/embalagens, é óbvio que me sinto satisfeita com o resultado final deste trabalho e, consequentemente, com esta publicação”, revela, não deixando de partilhar “o mérito” com Joana Pereira e André Simão, que também deram o seu contributo na concepção do artwork.

Além de designer, a jovem de 22 anos também (en)canta nos Dear Telephone. Para a vocalista, música e design são disciplinas que estão interligadas. “Ainda para mais quando as fontes para uma área podem servir para a outra. E porque se encontram em tantas situações: num álbum, por exemplo. Ou num produto multimédia”. Além do disco de LLLR, desenhou capas de álbuns e sítios para a sua própria banda, Melisssa Oliveira e Rose Blanket. Como está inserida no meio musical, acaba por trabalhar na vertente gráfica com artistas que já conhece: “A maior parte destes trabalhos relacionam-se com projectos musicais meus ou de pessoas próximas. É a cereja no topo do bolo colaborar com amigos cujo trabalho admiras. Na maior parte destes casos, acompanhei a criação da própria música e pude ir fazendo crescer em mim a imagem que graficamente lhe associaria depois”.

E é essa fase embrionária, de troca de ideias, que mais cativa a designer. “Apesar deste fascínio poder ser comum a várias artes, o que mais me entusiasma é o processo de passar por conversas (e as próprias pessoas), valores, partilhas, ler, ouvir música, um filme, viajar, os lugares, os cheiros, e a sua tradução para os códigos próprios da comunicação criativa (e respectiva operacionalização/execução)”, explica.

BRUNO ALBUQUERQUE, 23 ANOS

Após cinco anos a divulgar e a promover o que a nível musical e artístico se passava no concelho, o blogue Rock Rola em Barcelos (RRB) passou a ser um jornal em Junho de 2011. Isso deveu-se à iniciativa de Bruno Albuquerque, 23 anos, que propôs ao mentor da plataforma, Ilídio Marques, criar uma edição física do RRB. “A ideia surgiu-me aquando do projecto final de curso, cujo objectivo é trabalhar com um cliente real e propor-lhe que melhoremos a sua imagem tendo em conta as suas condicionantes. Já há muito tempo que acompanhava o blogue e sempre me vinha à ideia a criação de um jornal que tornasse físico o suporte de divulgação das bandas de Barcelos e lhes desse uma maior projecção a nível local e até nacional. No fundo, era fazer com que a cena underground barcelense pudesse ser capa de um jornal, ou seja, dar oportunidade a estas bandas de terem o seu espaço e o seu destaque merecido, sempre adequado a um determinado tipo de público e que o jornal fosse também fiel a esse nicho”, conta. A proposta foi recebida de braços abertos por Ilídio Marques, o projecto foi para a frente e hoje o jornal com periodicidade trimestral já vai na quarta edição. “A dimensão que está a ganhar não seria possível sem o trabalho de toda a equipa”, que é constituída por cinco elementos (três jornalistas, fotógrafo e o próprio designer).

O primeiro CD que Bruno Albuquerque concebeu foi o dos seus amigos Estuque, uma banda pós-rock de Barcelos que teve uma curta existência. Aí juntou uma das coisas que mais lhe agrada no design, que é “o fazer muito com poucos recursos”, à paixão pela música. “Acabas sempre por interligar o design com o que mais gostas e até dá mais gozo trabalhar”, refere. Entretanto, está a trabalhar com os Maize, de Viseu, entre outros grupos de Barcelos e não só. “Quando trabalhas com uma banda, eles não te encomendam apenas para a criação do CD e da imagem. Quando uma banda pede a um designer para trabalhar a imagem é também para este poder ser parte integrante de um grupo de criativos. Acabamos todos por conversar e, por momentos, acabas por fazer parte da banda. Há ainda a possibilidade de ir mais além neste tipo de parcerias, podendo o design ser parte integrante da performance ao vivo de uma banda”, conclui.

 ESTUDAR PERTO DE CASA

Integrado na Escola Superior de Tecnologia, o curso de Design Gráfico no IPCA foi criado em 2006, sendo que no ano seguinte abriu também em regime “nocturno”. Assente numa formação de três anos, o curso tem anualmente 65 alunos – cerca de 40 no diurno e 25 em pós-laboral. As últimas médias de admissão foram de 14.6 (diurno) e 11.6 (pós-laboral). E o que levou estes jovens de Barcelos a optar pela instituição de ensino superior da sua própria cidade?

Bruno Albuquerque estava a estudar na Escola de Tecnologia e Gestão de Barcelos (ETG), em Abade de Neiva, quando tomou conhecimento do plano de estudos do curso de Design Gráfico do IPCA e gostou “imenso” das disciplinas. “Eram, na sua maioria, práticas e exploravam vários ramos da área, desde o editorial, tipografia, ilustração, vídeo, multimédia, fotografia, entre outros”, recorda.

Já Graciela Coelho respondeu ao “apelo da terra”, quer seja “pelo modo de vida, pela agitação da cidade ou ausência dela, a luz, as afinidades”. “E sempre preenchi a minha vida com outras actividades, para além dos estudos, das quais não quis abdicar”, diz, salientando que, “para além disso, o curso parecia reunir, curricularmente, os vectores que procurava”.

Também Rui Torres optou pelo IPCA porque era “perto de casa” e “tinha colegas” que lhe “falavam bem do curso”.

Segundo Pedro Mota Teixeira, director do curso, este “assenta em três vectores nucleares: o desenho, a tecnologia e o projecto, para os quais convergem as extensas áreas de intervenção do programa disciplinar”. Além dos “conceitos académicos e pedagógicos exigentes”, há também a promoção do “contacto do aluno com as empresas” e a orientação dos estudantes para “o desenvolvimento de projectos académicos que possam encontrar enquadramento no mercado profissional”, aponta o responsável.

 TAXA DE EMPREGABILIDADE DE 70%

A taxa de empregabilidade do curso de Design Gráfico do IPCA situa-se à volta dos 70%. “Neste contexto, temos que considerar que alguns alunos prosseguem os seus estudos em cursos de Mestrados”, ressalva Pedro Mota Teixeira. Desde 2010, tem dois mestrados na área: Ilustração e Animação (“nesta especialidade conjunta é a única formação pública do país”) e Design e Desenvolvimento de Produto.

Graciela Coelho diz que não se pode “lamentar”, porque desde que acabou o curso que está “a trabalhar na área”, mas não deixa de apontar que o mercado está “saturado sobretudo pela quantidade de designers licenciados”. Porém, assinala, “sendo o design uma área multifacetada – do gráfico ao editorial, à tipografia, da ilustração à fotografia, o vídeo, o webdesign e a multimédia -, entrar no mercado de trabalho poderá ser mais fácil se o designer promover a versatilidade”. Outro factor positivo que releva é a maior “facilidade em comunicar e estabelecer contactos através das redes sociais”.

Também Bruno Albuquerque acredita que, apesar da “fase bastante complicada” que o país vive, “existem imensas oportunidades” para os designers. “Temos que ser ainda mais criativos e mais sustentáveis na gestão dos recursos monetários, numa altura como esta. É nisso que as empresas apostam, além de quererem pessoas pró-activas e com capacidade e responsabilidade para gerir os desafios que vão surgindo”, afirma. Apesar de ainda estar a tirar mestrado e, por isso, não estar integrado no mercado laboral a 100%, é essa a realidade com que se depara nos “muitos” trabalhos que vai realizando como freelancer: “Apresentas o orçamento e, na maioria das vezes, é sempre a baixar. As pessoas utilizam a desculpa da crise para ‘choramingar’ os orçamentos”.

Rui Torres considera que a sua entrada no mercado de trabalho “ainda está a acontecer” e a maior dificuldade que encontra está “relacionada com o tempo” que tem para “responder a um briefing, que é sempre pouco” e até mesmo “para organizar todos os projectos”. “Por vezes, existem tardes em que trabalho em três ilustrações diferentes. Não quer dizer que as complete todas no mesmo dia, mas o tempo é tão escasso que tenho que as desenvolver simultaneamente”. Quanto à licenciatura, apesar de apontar algumas lacunas no curso, sente que o deixou “preparado para responder a muito do que o mercado de trabalho” lhe possa pedir. “Como qualquer outro curso, tem as suas falhas, algumas que se conseguem colmatar em pouco tempo e outras que podem levar mais tempo. Algumas destas já me levaram a palavras menos boas, precipitadas e erradas para com o curso, mas que desaparecem quando concluo que este está dependente da dinâmica dos seu alunos, ou seja, parte do que se aprende tem que vir da iniciativa do aluno”, remata Anoik.

E iniciativa parece ser coisa que não falta a Rui Torres, Graciela Coelho e Bruno Albuquerque, em parte, responsáveis pela imagem com que a música de Barcelos se apresenta… Os músicos fazem o rock, mas eles tornam-no mais bonito.

Reportagem publicada na edição 81 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 18 de Julho de 2012.

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