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cesteiro

Fotografia por Dario Silva

Lá no cimo da Rua dos Cesteiros, em Aguiar, vemos ao longe Manuel Araújo a abrir a meio uma cana com uma foice. O corte é certo, a mão é firme. Tem que ser. É com a mão calejada que nos cumprimenta e nos conduz ao anexo onde continua a praticar a arte que aprendeu jovem e lhe serviu de (curto) rendimento até se reformar.

A rádio toca fado. O tecto é baixo e nele estão pendurados como estalactites dezenas de cestos de diferentes tamanhos que o homem de 75 anos continua a fazer no seu vagar. O chão tem um ‘tapete’ de madeira retorcida como folhas de papel. Manuel Araújo senta-se no banco próprio para o trabalho onde prende a madeira que trouxera dos montes das redondezas e começa a cavacá-la com um ‘quitelo’, uma lâmina com uma estrutura à volta que o cesteiro segura nas pontas. É com aquele instrumento que alisa a madeira até ela ficar maleável. “Tem que ser como papel, senão não verga. E tem que ser madeira boa, senão parte”, explica. E é preciso ter muito cuidado. “Nunca me corto nisto, já estou habituado”, sublinha o cesteiro, deixando o alerta: “Isto dói como o diacho, um corte de uma cana é como uma lâmina”.

A esposa Sameiro Vieira – que ajudava o marido – já experimentou a arte a entrar no corpo. “Já fui cortada com o ‘quitelo’. Tinha os filhos pequeninos e estava a cavar a madeira e a abanar o berço com a outra perna [uma carrega o pedal que prende a fita de madeira]. Quando tal o avental pegou no ‘quitelo’, trouxe-mo e cortou-me a perna. Um golpe fundo”, lembra a mulher de 72 anos, natural de Lijó.

Manuel Araújo aprendeu o ofício aos vinte e poucos anos com um cunhado pela altura em que casou, em 1964. “Mais dois anitos e comecei a trabalhar por minha conta”, recorda. “Primeiro aprendi a fazer os ‘cachepots’ [peças de ornamentação para vasos]. Fiz milhares. Mas depois aquilo começou a abrandar e comecei a ver se me desenrascava nos cestos”.

PARA A FEIRA DE BARROSELAS COM 12 CESTOS NA MOTA

O cesteiro natural de Aguiar fala connosco enquanto cavaca a madeira. A agilidade é tanta que até parece fácil. E até é, mas para quem, como ele, já tem experiência de anos. “Para quem sabe é tudo fácil. Agora, para quem for a aprender desde o início, é difícil”, aponta Manuel Araújo, justificando: “Aquilo ao começar é um molho ao qual a gente tem dar uma solução”.

Mas tudo começa ainda antes do molho de folhas que às suas mãos pede para ganhar forma. É preciso ir ao monte buscar a madeira. A ‘austrália’ e o ‘castanho’ são as qualidades mais recorrentes, mas é “conforme calha”. “Tem que ser um pau que rache bem”, avalia o cesteiro, garantindo que “há muita madeira” pelas redondezas. Por isso, matéria-prima não lhe falta. E depois? “Pego nesta faca e faço duas fitas”, explica-nos enquanto divide uma cana em dois de uma ponta à outra. “A mão tem que trabalhar sempre certinho e tem que se andar com a fita de um lado para o outro”.

Feitas e medidas as tiras de madeira (as das pegas são as mais compridas), é altura de as entrelaçar umas nas outras. “Isto leva um tempo do diacho a acertar. Se vergar, estragou. Tem que vergar certinho, de forma que não faça encorrica nenhuma”.

Um cesto leva um dia para fazer. E o preço ronda os 20 euros. Quando dá. “Vendo-o por quanto posso. Às vezes até lhe tiro um bocado… vai por 15, 16 ou 17 euros, é conforme”, revela. Mas, também, a verdade é que Manuel Araújo já não espera retirar lucro daquele trabalho, até porque a procura é praticamente inexistente. “Não se vai estar aqui com esperança de ganhar dinheiro. Às vezes encomendam para pôr junto ao fogão… não é procurado. Vou fazendo e ponho para aqui”. É ainda uma forma de passar o tempo. Nomeadamente as manhãs, porque de tarde ninguém lhe tira o prazer de “dar uma volta na motinha”. “Gosto de estar por aqui, está um tempo frio, mas aqui dentro [no coberto onde trabalha] está sempre quentinho, uma maravilha”.

Bem diferente do gelo que tinha que passar quando ia vender os cestos para a feira de Barroselas (Viana do Castelo). Sempre encavalitado no seu motociclo. O transporte era também a razão pela qual não fazia mais nenhuma feira. “Já assim ia na motorizada, uma motorizada pequenina, com doze cestos. Punha uma tábua na mota e punha lá os cestos atadinhos, ainda levava o meu filho atrás a segurar neles”, conta. E com tanto malabarismo, o certo é que nunca caiu. “E nunca ninguém pegou comigo, nem a Guarda”, sorri.

“DANTES HAVIA UNS SETE CESTEIROS AQUI PERTINHO”

O pior era mesmo quando ninguém lhe pegava nos cestos. “Não vendia nada e, pronto, vinha desconsolado”. Não era para menos, tanto esforço para nada. “Cravava noite e dia nisto. Para vender e ganhar um bocadinho de dinheiro, para fazer doze cestos por semana, tinha que lhe dar, tinha que trabalhar de noite”, ilustra.

A razão para não vender tanto como desejava era a feira de Barcelos, que absorvia o negócio todo. “Era só cesteiros e todos eles vendiam. Em Barroselas era uma feirita pequena”. Começou a fornecer cestos para o cunhado que o iniciara na arte e que os vendia, ou deixava-os na vila de Barroselas com um telheiro a quem pedia para os guardar de uma semana para a outra “porque não tinha vendido nenhum”. “Chegava lá na quarta-feira seguinte e já mos tinha vendido todos. Vendia-me aquilo tudo. Outras vezes ficava-me com eles. Eu vendia-os a cento e tal escudos, ele pagava-me aqueles cestinhos todos e eu vinha todo contente embora”.

Todavia, depois vieram os plásticos e a actividade tornou-se insustentável. “E não estragaram [o negócio] só a mim. Fez diferença também aos cântaros de barro para sulfatar e ir à fonte”, compara. Daí que tenha procurado outra forma de rendimento. “Meti-me a fazer muros em pedra”. Entretanto, cessou também a actividade de pedreiro (“fiz muito muro”) e reformou-se, mas mantém a arte que, orgulhosamente, já foi divulgar ao vivo na EB 2/3 Gonçalo Nunes ou na ‘Batalha das Flores’ na Festa das Cruzes.

Mas o certo é que a juventude não está muito virada para os cestos. Manuel e Sameiro tiveram quatro rapazes (dois deles falecidos) e três raparigas. Nenhum dos descendentes seguiu a arte. “Não quiseram”, confirmam, mas sem qualquer mágoa. Apenas resignação.

A Rua dos Cesteiros – que chegou a ter mais do que um, quando a toponímia ainda era definida por lugares – é uma forma de homenagear aqueles que mantinham uma actividade em vias de extinção. “Dantes havia para aí uns sete aqui pertinho”, lembra o cesteiro. Mas “morreram todos”, completa a mulher. Só sobrou Manuel Araújo. “Aqui não há mais ninguém. Acabando eu, terminou…”.

Reportagem publicada na edição 110 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 6 de Fevereiro de 2013.

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