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Flávio Matos

Faça sol, faça chuva, esteja um frio de fazer estalar os ossos, esteja um calor tórrido de suar em bica, todos os domingos acordam de manhã cedo para arbitrar no Campeonato Popular. Têm família, têm empregos, mas no fim-de-semana vão para os campos de futebol. São a única equipa dentro das quatro linhas que não tem adeptos, são os “bodes expiatórios” dos maus resultados, são insultados durante 90 minutos. E porquê? Não é por dinheiro – por jogo podem ganhar entre 15 a 30 euros – mas porque gostam. Do futebol como desporto, da adrenalina de decidir na hora, de estar no centro das emoções.

Se não fosse pelo gosto que tem pela arbitragem, Rui Lopes nunca teria voltado aos pelados depois de, em 2010, ter sido agredido, em Airó. Os atletas da equipa da casa, Leões da Serra, bateram-lhe, foi atingido com um pontapé nos testículos e teve que receber tratamento hospitalar (um jogador também teve que ser assistido). No meio da confusão, o balneário da equipa de arbitragem foi asaltado. Duas semanas depois, já estava novamente a apitar. “Se fosse uma pessoa que não gostasse de arbitragem, com aquele acontecimento nunca mais voltava a apitar”, conta o árbitro, de 37 anos, admitindo que, contudo, regressou “com um receio mínimo, porque ninguém é herói”. “Mas lidei bem, dei a volta à questão”, diz. E relativiza o assunto, realçando que “incidentes há em todo o lado” e que, desde então, “não voltou a acontecer”.

A violência no Popular é um assunto recorrente, até porque não há policiamento nos jogos, como nas provas federadas. Todavia, para Rui Torres, responsável do Conselho da Arbitragem da Associação de Futebol Popular de Barcelos (AFPB), a solução não passa por aí: “Quando as pessoas têm o intuito de passar para a violência, nem nos estádios com 200 polícias deixa de haver [problemas]”. O mal deve ser cortado pela raiz. “As pessoas têm que pensar é nas situações que espoletam a violência e tentar erradicá-las”. E isso passa por serem os próprios clubes a terem mão nos seus adeptos. “Neste momento, há um bom leque de dirigentes capazes de identificar as pessoas na freguesia que têm um bocado mais de nervosismo interior para acompanhá-las, porque há castigos severos e pesados”, assevera o dirigente.

Flávio Matos, de 38 anos, “nunca” passou por uma situação dessas, mas já “muitas vezes” pensou nisso. “Se me acontecesse e conseguisse escapar, para mim acabava o Popular”, responde assertivamente, mas logo a seguir, dá um passo atrás: “Conforme a situação”. Contudo, considera, “o Popular de Barcelos está mais civilizado”. “Antigamente ia fazer os dérbis, era a insultarem-se uns aos outros, porrada cá fora, campos completamente lotados”, recorda Flávio Matos, que começou a apitar apenas com 21 anos. Por falar em dérbis, um dos jogos que mais o marcou, “aqui há uns anos”, foi um Campo – Carapeços, onde os insultos, pela rivalidade, “eram do piorio”. “Até me senti mal. Não estava habituado àquela pressão”.

Rui Lopes já teve outros problemas. Riscaram-lhe o carro no final de uma partida. Nada que o demova. “Sempre gostei de futebol, das emoções do jogo, de estar dentro do campo e ter aqueles momentos-chave em que tenho que decidir o lance na hora”, conta o segurança de profissão que está na arbitragem há 14 anos. Tudo começou com uma “brincadeira” com um colega que era árbitro e treinava com ele no Águias de Alvelos, onde era guarda-redes. O primeiro jogo que fez foi em Guimarães, como auxiliar, entre os “dois primeiros” classificados do campeonato. “Foi aí que passei para a arbitragem”, recorda Rui Lopes, também bombeiro na corporação de Barcelinhos. Aliás, actualmente os seus dois auxiliares, os irmãos Vítor e Alfredo Oliveira, também são bombeiros. O que dá sempre jeito em caso de acontecer algum incidente em campo. Ou fora dele. “Recentemente íamos para um jogo e encontrámos um GNR caído no chão, demos-lhe assistência, chamámos os bombeiros e depois é que fomos para o campo”, conta.

“TAMBÉM SE OUVEM ELOGIOS”

Por cada jogo de seniores masculinos – os mais bem pagos – a equipa de arbitragem recebe 70 euros que são divididos pelos três ficando o árbitro principal com um valor maior, porque, além de ter as maiores responsabilidades, como escrever o relatório, é quem habitualmente leva transporte. Portanto, 30 euros é o máximo que o árbitro principal arrecada por jogo. “Nunca fui para o futebol, mesmo como jogador, por dinheiro”, refere Rui Lopes, que fez as camadas jovens no Gil Vicente e Andorinhas e em sénior jogou no Vila Boa e no Águias de Alvelos (actualmente continua a ser guarda-redes em torneios de futsal).

Porém, o dinheiro da arbitragem pode não ser muito, não dá para fazer vida, mas é sempre um agradável complemento ao ordenado da actividade principal. Di-lo Flávio Matos, empregado têxtil de profissão: “O futebol ajuda para os nossos extras. Passei sete anos de grande dificuldade e, mesmo tendo emprego, se não fosse a arbitragem, era complicado”.

Rui Torres, do Conselho de Arbitragem, vê os valores atribuídos aos árbitros como um “mimo” para compensar o “desgaste que a pessoa vai tendo a nível pessoal”. É uma “motivação” para não deixarem o apito a meio da época, um incentivo para não desistirem quando a temporada se faz longa e as condições não forem as mais favoráveis, como quando “está a chover” ou “frio”.

Quantos de nós acordariam todos os domingos de manhã cedo, correr à chuva e ao frio (ou no meio do pó e sob calor abrasador) e ser criticado e insultado durante 90 minutos? Há insultos para todos os gostos e os árbitros têm que os ouvir e não reagir. Ora, não se pode dizer que gostam, mas também não se angustiam. “Faz parte”, avalia Flávio Matos: “Já tive situações em que as pessoas me insultavam mas no fim esperavam por mim e diziam: ‘olhe, desculpe lá tê-lo insultado’”.

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Rui Lopes

Rui Lopes aponta o reverso da medalha: “Ouvem-se insultos, mas também se ouvem elogios. Até à data, se calhar já ouvi mais elogios do que insultos. Equipas que perdem e que, à entrada dos balneários, dão-nos os parabéns”.

Mas há sempre quem se exceda. “Já tive um adepto que disse que me ia matar, que me ia dar um tiro. São insultos graves, mas são aquelas pessoas que vêm ao campo de futebol, mas não é para ver o jogo. Muitas delas estão a tomar um Martini, a beber uma cerveja, há um adepto que dá um berro por causa de um lance normal qualquer e eles vêm a correr para o muro a insultar e nem sabem como foi o lance. Vêm expulsar o stress da semana, insultam as pessoas por insultar, porque nem sequer estão a ver o jogo”, observa Rui Lopes.

São situações para as quais os árbitros “ficam vacinados” pois têm obrigatoriamente “que se abstrair”, nota Rui Torres, árbitro de terceira categoria nacional, que leva vinte anos destas lides: “Quem não tiver uma preparação psicológica para ter um poder de encaixe superior, quem descer ao nível das pessoas que praticam o insulto, não pode ser árbitro”.

Se o árbitro tem que estar preparado para ouvir palavras desagradáveis, a família dele – caso queira ver os jogos – também. A mãe de Rui Lopes foi ver uma partida, “mas disse que não ia ver mais nenhuma”. O filho idem aspas. O pai e a mulher já aguentam melhor. “É como a minha esposa diz: é uma coisa normal. A única equipa que não tem assistência é a de arbitragem, é tudo contra ela”.

O melhor, portanto, para os familiares, é encarar as ofensas com naturalidade. Ou até com humor. “O meu irmão era árbitro e eu era assistente dele. Um dia fomos fazer um jogo de juniores à Póvoa de Varzim e estava um fulano, no final, a insultar, e a esposa do árbitro a dizer também: ‘É um gatuno’. Depois deu dois passos, foi buscar o saco dele e o adepto fugiu (risos). As pessoas têm que estar preparadas e mentalizadas. E até é mau quando a família reage, é complicado”, conta Manuel Silva, com mais de vinte anos de carreira e um dos responsáveis do Conselho de Arbitragem da AFPB.

Para Rui Torres, os insultos têm origem na frustração de quem os profere. “As pessoas fazem uma descarga da frustração semanal ou da frustração pessoal que têm. Essa frustração transmite-se de várias formas: uns encostam-se ao bar, de início a fim, não vêem jogo nenhum; outros, as equipas ainda estão entrar em campo e já estão a insultar. Faz parte dos genes latinos que temos”.

“OFERECERAM-NOS 300 PARA TIRAR UM AMARELO”

Quem nunca ouviu alguém acusar um árbitro de estar ‘comprado’? Mas há razões para suspeição, há mesmo tentativas de aliciamento no Popular? Rui Lopes conta uma experiência do género. “Há uns anos, quando eu era assistente, num campo de futebol de um clube que já não está no Popular, foi-nos oferecido 300 euros aos três [elementos da equipa de arbitragem] para tirar um cartão amarelo, senão o atleta não jogava no último em que iriam ser campeões. Eu e outro auxiliar dissemos que não aceitávamos e avisámos o árbitro que se ele aceitasse fazíamos queixa. Na hora ele disse que não e viemos embora. Na segunda-feira descobrimos na Associação que ele não tinha posto o amarelo àquele jogador. O presidente do clube foi chamado a ir lá e confirmou que deu o dinheiro porque o árbitro lhe ligou de manhã a dizer que aceitava. Foi expulso da arbitragem”.

Flávio Lopes nunca se deparou com uma situação semelhante. Caso lhe acontecesse, denunciaria de imediato o procedimento: “Sou muito puro nisso. Se entrarem nessas formas, sou o primeiro a acusar e a recusar. Isso não é Popular”.

 “GOSTO DE BRINCAR COM OS JOGADORES”

Apesar de serem amadores, os árbitros do Popular procuram dar o seu melhor como os das principais divisões e preparar-se para os jogos. Rui Lopes já foi considerado “um dos melhores árbitros do Popular de Barcelos e Vila do Conde”. Durante a semana faz “treinos de corrida e de estudo” e, logo que sabe os jogos que vai apitar, faz o trabalho de casa. “Gosto de estudar os jogos. Quando recebo a nomeação vou ao site ver as equipas que vou fazer, saber quantas derrotas, quantas vitórias têm”.

A componente física é importante e Flávio Matos prepara-se a “correr na estrada”. “Adoro correr”. Já experimentou BTT, mas não durou. “Tenho lá a bicicleta arrumada”. Agora, está a “ponderar” experimentar trail.

Ambos lamentam não poder ir mais longe na arbitragem. “Não escondo que gostava de ter feito uma carreira muito melhor, mas o trabalho não permitiu”, justifica Rui Lopes, que, pouco depois de ter tirado a formação na AF Braga, meteu dispensa. “E até à data nunca a levantei”.

Flávio Matos andou nas camadas jovens do Andorinhas e, como sénior, jogou no S. Veríssimo, no Arsenal da Devesa e no Soarense. Depois enveredou pelo apito. “Quando antigamente havia os torneios inter-freguesias convidaram-me e a partir daí encaminhei-me na arbitragem”. Nunca chegou a tirar o curso na AF Braga, o que não lhe permite subir na hierarquia até às provas nacionais. “Pelo que sei hoje, estou arrependido, porque era um bom caminho”. E porque não seguiu esse caminho quando podia? “Se calhar porque não conhecia as pessoas que conheço hoje. Os amigos que tinha não queriam ir para a arbitragem, comecei a ficar sozinho”. Agora, para ser federado só se for no hóquei em patins, “que dá até aos 55 anos”. “Já ponderei, mas as regras são um pouco esquisitas, ainda não encaixei naquilo”.

Na última temporada foi avaliado como o segundo melhor árbitro do Popular, o que lhe deu o direito a arbitrar a final da Taça Cidade de Barcelos. “O primeiro [classificado], como era árbitro federado, não podia apitar naquele dia, convidaram-me e aceitei com todo o gosto”, afirma, sublinhando que a época foi “fabulosa” tanto em Barcelos como em Vila do Conde. “Também apitei as finais da Taça da Federação e da Taça de Vila Conde”.

As principais qualidades que acha que um árbitro deve ter são “um bocado de paciência e saber gerir os jogadores”, e é isso que procura fazer. “A minha forma de estar em campo é conversar com eles. Às vezes, se há algum mais enervado, aproximo-me mais dele e tento levá-lo até ao fim do jogo, porque sei que ferve em pouca água. Gosto de falar com os jogadores, brincar com eles e acompanhá-los sempre”, diz.

COMO LIDAR COM O ERRO?

Da mesma forma que um ponta-de-lança falha um golo de baliza aberta ou um guarda-redes sofre um ‘frango’, também os árbitros erram. E, claro, não ficam contentes. “Às vezes, fico com remorsos, porque a gente vai para campo tentar fazer o melhor e gosto das coisas bem feitas”, confessa Rui Lopes, acrescentando que um árbitro não erra porque quer mas porque, por exemplo, “não conseguiu ver o lance, estava tapado”. “Errar é humano, mas fico um bocado irritado”, admite Flávio Matos.

“A primeira consciência quando se decide é que não se errou. Toma-se consciência do erro quando se chega ao intervalo e temos uma pequena conversa” com os restantes elementos da equipa de arbitragem, refere Rui Torres, também árbitro internacional de hóquei em patins, sublinhado que o sistema de auriculares que permitiria detectar a falha no momento é demasiado caro para a estrutura do Popular. E como lidar com o erro? A voz da experiência diz para evitar o drama, assumi-lo. Enquanto responsável do Conselho de Arbitragem da AFPB, não tem problemas em “pedir desculpas” a um clube caso se tenha verificado “um erro grosseiro”. E avisa: “Quem pensar que vai para um campo de futebol e não vai errar, é melhor ficar em casa”.

COLLINA, O ÍDOLO

O estilo é inconfundível: a cabeça sem único cabelo (devido a uma doença chamada alopecia) e os olhos arregalados que sobressaíam ainda mais devido à falta de sobrancelhas. Uma forma de estar em campo que impunha respeito e que marcou a arbitragem mundial. Falamos, pois claro, de Pierluigi Collina, italiano de 53 anos que deixou de apitar em 2005. É o ídolo de Rui Lopes e Flávio Matos. “Dava gosto vê-lo a apitar. Sempre foi um árbitro que sabia estar em campo e falar para os jogadores”, considera Rui Lopes, acrescentando que lhe chamam Collina por rapar o cabelo. “É topo de gama”, classifica Flávio Matos, usando os mesmos argumentos do colega: “Sabia falar e os jogadores respeitavam-no”. E acrescenta: “Identificava-me muito com ele, foi também o que me levou a rapar o cabelo”.

FORMAÇÃO É PRIORIDADE DA ASSOCIAÇÃO DE FUTEBOL POPULAR

Elevar a qualidade das arbitragens é o objectivo da Associação de Futebol Popular de Barcelos que esta época já realizou cinco acções formativas teóricas e práticas, desde “demonstrações em vídeo” a “trabalhos de campo”. Servem as formações para “acertar alguns procedimentos de actuação entre todas as equipas”. Ou seja, para aproximar os métodos dos árbitros que apitam apenas no Popular aos dos colegas que também actuam nas provas da AF Braga e nos campeonatos nacionais. “Com tranquilidade e vontade de fazer mais e melhor, em final de Janeiro, espero que estejamos todos a falar a mesma língua de arbitragem”, explica Rui Torres.

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Manuel Silva (à esquerda) e Rui Torres (à direita), responsáveis do Conselho de Arbitragem da Associação de Futebol Popular de Barcelos

O objectivo é que a estrutura da Associação acompanhe a evolução organizativa dos próprios clubes, explica o dirigente, que esteve no Conselho de Arbitragem, juntamente com Manuel Silva, no biénio 2009/2011, tendo ambos regressado este ano com a nova direcção liderada por Carlos Pereira.

Já naquela altura, considera, “os clubes estavam bem organizados e havia uma décalage entre aquilo que era a realidade das equipas de arbitragem e a organização dos clubes e da própria Associação”. “Fizemos uma aproximação muito boa”, avalia, acrescentando que no Popular encontrou árbitros “com muita vontade de evoluir”, mas “numa faixa etária mais acentuada do que seria desejável”. Por isso, além de tentar que “haja maior formação”, a Associação quer “cativar mais jovens”.

Admitindo que não tinha “ideia da grandeza” do Popular até fazer parte da estrutura, Rui Torres entende que “todo o movimento” que este “gera” é merecedor de que as pessoas que fazem parte da Associação “tenham um esforço suplementar para tentar acompanhar a vontade dos praticantes e dos espectadores”. “Nesse sentido, voltámos a aceitar o desafio de tentar estabelecer parâmetros de organização e de credibilidade desportiva”.

Além da formação de árbitros, outra aposta foi na melhoria da qualidade dos observadores. O dirigente afirma já ter “um grupo muito grande” e “credível” de pessoas a fazer a observação dos jogos, o que permite aos Conselhos de Arbitragem e Disciplina tomar as decisões mais correctas e, desse modo, justificá-las e defendê-las da melhor forma perante os responsáveis dos clubes. Ou até, pelo contrário, pedir desculpa caso tenha havido algum “erro grosseiro”.

Reportagem publicada na edição 156 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 24 de Dezembro de 2013.

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