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Fotografia por Eduardo Morgado

O Galo de Barcelos colocado por cima de uma estante atrás do balcão está ali há quase desde que Manuel Elias da Costa Lima abriu a loja de acessórios e peças para automóveis e de componentes industriais e agrícolas na Rua Direita – já lá vão 50 anos.

E aquela peça em barro tem uma história que o comerciante de 86 anos guarda na memória e conta com nostalgia. “Veio aqui um mecânico comprar uns poucos de rolamentos para uma caixa de velocidades e deixou-me aí os velhos: ‘ficam para aí, depois você deita fora’. Mas, às vezes, ponho-os aqui [no balcão] e não boto logo fora. Entre eles, estava um completamente novo, impecável. Um dia ou dois depois veio aqui uma senhora de Galegos perguntar se eu tinha um rolamento – trazia o velho – para a roda que os oleiros usam e que é movimentada pelo pé. Ponho-me a olhar para o rolamento e olho para o outro, era aquilo. E digo à velhinha, mas muito velhinha já, muito simpática: ‘pronto, está aqui’. Embrulhei e tal e diz-me ela: ‘quanto é?’. Digo eu: não é nada, ofereço. Ela ficou um bocado desconfiada a olhar para mim: ‘oferece?’. Ofereço, não se incomode. ‘Muito obrigado’, responde, e vira-se para mim e diz: ‘vossemecê assim não vai longe. Na quinta-feira seguinte trouxe-me aquele galo”.

Ao contrário da previsão da oleira, Manuel Elias acabaria por singrar. Sobretudo, devido ao profundo conhecimento que já tinha do ramo. Trabalhara desde bastante novo (“13/14 anos”) no ramo e era, na altura em que decidiu avançar para o negócio próprio, encarregado geral de uma oficina. “Tinha experiência suficiente. O que me valeu foi isso, porque isto não é um negócio como vender roupa ou rebuçados ou coisa parecida. Tem que se ter bastantes conhecimentos, senão não se consegue fazer nada”. São necessários “conhecimentos” quer a nível automóvel, quer sobre “componentes industriais” ou “tractores agrícolas”. “Tudo isso é complicado”.

“ÉRAMOS UMA EQUIPA”

A esposa, Célia Ester Pereira da Costa, que faleceu há quase sete anos, acompanhou-o sempre. “Ela não foi um braço direito, foi os dois braços. Trabalhávamos em equipa”, conta Manuel Elias, recordando a “memória prodigiosa” da companheira. “Por vezes, em vez de ir ao catálogo ver as referências de certos produtos, perguntava-lhe a ela”. E lembra-a com saudade e admiração: “Foi a mulher de toda a minha vida, a pessoa mais extraordinária que me apareceu”.

Se uma das principais motivações quando se abre um negócio é não ter que se submeter a patrões, para Manuel Elias também foi para não ter que lidar mais com funcionários, fruto da experiência que tivera como encarregado geral. “Tinha vários funcionários que não eram meus mas estavam debaixo da minha tutela”, conta, acrescentando que, de entre as razões que apontou na carta de despedimento que apresentou à firma, estava o facto de “já não [estar] para aturar empregados”. “Porque, às vezes, tinha problemas com o patrão por causa dos empregados e dava-me a sensação de que ele fica mais do lado deles do que do meu”.

Por isso, a Auto Acessórios Barcelense nunca teve funcionários. Mesmo que isso implicasse um esforço redobrado de Manuel Elias. “Trabalhei noite e dia com uma dedicação espantosa. Uma vez a polícia passou aqui na rua, a fazer vigilância, e vieram bater-me a porta porque a luz estava acesa e eram três horas da manhã. E eu aqui a trabalhar. Tinha que fazer tudo: escritório, contas das finanças… tudo direitinho. E nunca tive uma multa das finanças nem nunca me atrasei em nada”.

NEGÓCIO CAIU COM A RUÍNA DO TÊXTIL

Desde o primeiro dia que Manuel Elias teve um bom leque de clientes. “Abri a porta e a freguesia entrou”. A indústria têxtil era o principal filão. Vendia correias, parafusos, rolamentos, lubrificantes, óleos para fábricas com a João Duarte, a Tebe ou a Fiação. “Foi o melhor ponto para nós. Só que a indústria acabou. Não quer dizer que não volte, mas para agora acabou. Noventa por cento das principais empresas fecharam”. A decadência do sector têxtil acentuou-se a partir “de 2000 em diante” com as falências em catadupa e abalando os pequenos fornecedores, que perderam uma importante carteira de clientes e, em alguns casos, nunca viram os créditos que detinham junto destas empresas serem liquidados.

Depois, os dias de feira semanal já não são o que eram. “As quintas-feiras não prestam para nada, antigamente eram melhores. Hoje não anda gente nas ruas, quando antes era um dia de apoio semanal… Antigamente nas freguesias não havia as casas de comércio que há hoje. A quinta-feira era quase como um dia feriado”, recorda.

Paralelamente, também proliferaram as grandes superfícies, mas essas, apesar de obviamente serem um concorrente, nunca preocuparam Manuel Elias. “Porque a gente consegue, pelos métodos de atendimento e conhecimentos, passar por isso, o mal é acabar o comprador”.

Agora o negócio é apenas uma pequena sombra do que foi. “Vive-se  das recordações do que se fazia”. No espaço de cerca de uma hora, em que estivemos a falar com Manuel Elias, nenhum cliente entrou na Auto Acessórios Barcelense. “Tem dias em que não entra nenhum”, confessa.

O negócio já viu dias muito melhores e o que vale a Manuel Elias foi ter posto poupanças de lado ao longo dos anos. “Se não fosse o meu sistema de vida de ter procurado amealhar um bocadinho, hoje era difícil. Dá-me a impressão que previ isto”, afirma, ressalvando, no entanto, que neste momento também tem menos despesas. O prédio pertence-lhe, pelo que não tem que pagar renda, e os quatro filhos são independentes. “Cada um seguiu a sua vida”. O pai não acredita que os seus descendentes dêem continuidade ao negócio, mas está muito longe de se apoquentar com isso. “Esse assunto não me preocupa, nem nunca me preocupou. No meu entender, os filhos não são criados dos pais. Os filhos nascem, a gente procura dar-lhes a educação necessária, encaminhá-los da melhor forma possível e depois vê-se a vocação e o querer deles. Esse assunto não me preocupa. Morrendo, acabou”.

“ISTO É ESSENCIAL PARA EU VIVER”

Manuel Elias recebe ainda uma pequena pensão (“nem me fale da reforma…”) pelos vários trabalhos que teve “desde rapaz pequeno”, incluindo “muitos anos” no Teatro Gil Vicente como projeccionista, “sindicalizado e com carteira profissional”. Deixou a actividade cerca de um ano após ter aberto o estabelecimento na Rua Direita, com os números de polícia do 70 ao 74, onde antes funcionava um bazar.

À frente daquela casa desde 1963, é muito provavelmente o lojista ainda em funções mais antigo da cidade. “Nunca pensei nisso, nem é um assunto que me interesse especialmente, o interesse é banal. Mas, aqui há uns tempos, houve umas pessoas que me disseram que esta deve ser a casa mais antiga com a mesma administração, porque há outras mais antigas mas que tiveram sucessores”, explica.

Face às dificuldades actuais, porque continua, então, meio século depois com a porta aberta? “Faz parte da minha vida. Se der lucro, deu, se não der, não deu, mas isto é essencial para eu viver. Faço por gosto”. Não é um acessório, é uma peça fundamental na sua vida.

Reportagem publicada na edição 162 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 5 de Fevereiro de 2014.

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