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Fotografia por Eduardo Morgado

No dia 19 de Março de 1941 abriram com uma “gama de artigos infindável” os Armazéns S. José na Avenida dos Combatentes da Grande Guerra. Hoje, quase 73 anos depois, o balcão de madeira ainda é o mesmo que foi benzido pelo cónego Joaquim Gaiolas na abertura do espaço e a quantidade de produtos continua a ser considerável, apesar de o surgimento em meados da década de 90 ter alterado o paradigma de consumo – as quintas-feiras deixaram de ser o ‘el dorado’ do comércio citadino barcelense. Herança de oito filhos, a loja mantém-se aberta pela tradição familiar e os clientes são atendidos por funcionários com décadas de serviço na casa.

De uma forma romantizada, na origem de um dos mais antigos e carismáticos negócios do centro da cidade está uma história de amor entre um empregado e uma filha da patroa. Que a seguir contamos. Os Armazéns S. José abriram como “filial” de uma outra loja sedeada junto à Capela de S. José (daí o nome) no actual Campo Camilo Castelo Branco – essa loja teria hoje mais de 90 anos. Ora, aí trabalhava Francisco Rodrigues, conhecido por “Mimos”, que “começou a namoriscar” com uma filha da patroa, conta José Alberto Rodrigues, de 58 anos, um dos filhos dessa relação. Como o funcionário entendia que não devia namorar a filha da patroa e continuar a trabalhar naquela casa, “queria sair” e até tinha uma proposta para um “emprego jeitoso em Guimarães”. “Mas a minha avó, como gostava do meu pai – ele era uma pessoa trabalhadora, uma pessoa honesta, muito séria – abriu isto para ele e para um tio meu, Artur Basto”, conta o filho. “Ele era bom funcionário, a minha avó gostava muito dele”.

Mas, portanto, tudo começa na primeira casa junto à capela de S. José que era conhecida por “Vieirinhas”. “Era de duas sócias. A minha avó e uma prima dela que era cunhada do João Duarte, eram ambas Vieira”, conta José Alberto Rodrigues. Lá vendia-se tudo o que fosse de “miudezas”. “A minha avó tinha um espírito de comerciante muito grande. Se lhe pediam alguma coisa que não havia, suponhamos, agrafadores… ela não dizia que não havia, dizia ao cliente: ‘caramba, vendi há pouco o último, amanhã passe por cá que eu já tenho’. Depois ia à lista telefónica ver onde se vendiam agrafadores e encomendava. Tinha uma gama de artigos que era uma coisa infindável, havia de tudo”, orgulha-se o neto, recordando que até se dizia, quando alguém não encontrava determinado artigo de que precisava: “Vai às ‘Vieiras’. Já fui. Já foste? Então não há”.

CRISE AUMENTA PROCURA PELO MATERIAL DE COSTURA

A loja na Avenida dos Combatentes da Grande Guerra abriu então com Francisco Rodrigues e Artur Basto à frente do negócio e um funcionário, João Brito, de Barcelinhos, que, morrendo novo (“aos trinta e poucos anos”), ali trabalhou até aos seus últimos dias. “Depois o meu tio saiu, o meu pai ficou sempre aqui”, adianta José Alberto Rodrigues. Na altura, “a casa trabalhava muito bem – ainda hoje trabalha, dentro do ramo” – e às quintas-feiras chegava a ter dez funcionários para dar vazão a todos os pedidos. “Ui… Era o melhor dia. Há 40 anos só havia meia dúzia de carros, havia era camionetas. As pessoas entravam aqui apressadas: ‘rápido, tenho que ir para a camioneta’. Às vezes, o meu pai almoçava às quatro da tarde, não tinha tempo para comer”.

Eram outros tempos. As pessoas das aldeias vinham à cidade por causa da feira semanal e aproveitavam para fazer todo o tipo de compras e recados. E nos Armazéns de S. José havia de tudo. Artigos tão diferentes como tecidos, linhas, agulhas, biberões, talheres, aguçadeiras, pilhas para rádios. “Uma gama enorme”. Agora já não é tanto assim, por diversas razões, desde a banalização do uso do automóvel ao crescimento das grandes superfícies. “Depois isso [a ‘gama enorme’ de produtos] acabou por causa dos supermercados, a partir de 1995, por aí. Mas [ainda hoje] tem artigos aqui que poucas casas têm”, realça José Alberto Rodrigues. Algo que é facilmente comprovável: as prateleiras continuam recheadas dos mais variados itens: tecidos, cobertores, tesouras, lençóis, pijamas, meias-calças, camisolas interiores, cuecas, peúgas… Uma panóplia interminável.

Contudo, as quintas-feiras – o estabelecimento está aberto todos os dias da semana e ao sábado de manhã – já não são o que eram. “Agora talvez seja dos piores dias. Tudo se transforma…”. E, inevitavelmente, a nível global, há “uma quebra” por causa da crise. “O desemprego cresce e isso nota-se”. Mas, por outro lado, repara o proprietário, a crise fomentou uma nova procura por artigos como linhas, agulhas, dedais. “Sabe que o pronto-a-vestir hoje é caro e as costuras voltam a aparecer e é preciso comprar linhas, comprar agulhas, comprar dedais, essas coisas todas, porque fica mais barato, mais em conta”.

“NÃO PODEMOS MANDAR OS FUNCIONÁRIOS EMBORA”

 José Alberto Rodrigues lembra-se bem do muito movimento da loja quando era mais novo. “Vinha do liceu e o meu pai dizia-me: vai para a loja conferir facturas. Não havia calculadoras, era tudo á mão”. Os herdeiros sempre foram estimulados pelos pais a prosseguir os estudos. Diziam-lhes: “Estudem, tirem os vossos cursos, que é muito melhor do que estar aqui a trabalhar”. “Estavam alerta para o futuro, queriam que a gente estudasse”, recorda José Alberto Rodrigues, que ainda frequentou o curso de Direito em Coimbra. Em 1995 juntou-se ao pai nos Armazéns S. José e ali esteve durante dez anos, até Francisco Rodrigues morrer, em 2005, e o negócio passar “a ser dos oito filhos”.

Abriu entretanto um gabinete de exportação, com a esposa. Por isso, não passa muito tempo no estabelecimento da Avenida dos Combatentes da Grande Guerra que faz 73 anos em Março próximo e que mantém tal longevidade “porque é coisa de família”. Mas não só. Há um outro importante factor. “A gente não vai mandar os empregados embora, não é? Dizer a um empregado com quarenta e tal anos de casa e a outro com vinte ‘vai-te embora’… não se pode fazer isso!”.

Além da loja em Barcelos, Francisco “Mimos” chegou a ter outras “duas casas” na Póvoa do Varzim, às quais dedicava os meses de Verão, de Junho a Setembro. “Era quando aquilo dava”. Nessas alturas, à frente dos Armazéns S. José ficava, então, o irmão dele, José António. “O meu tio geriu isto sempre muitíssimo bem”, avalia José Alberto Rodrigues.

Os clientes hoje continuam a ser atendidos por Domingos Brito, com 43 anos de casa, e José Carlos, com mais de vinte, em quem os patrões depositam total confiança (“são rapazes muito sérios”, garante José Alberto Rodrigues) e com quem a clientela já está familiarizada.

O futuro pode até não ser auspicioso. “Acho que isto ainda vai andar um bocadinho para trás”. Mas, por outro lado, José Alberto Rodrigues também acredita que este tipo de lojas tradicionais, o comércio de rua, “nunca vai acabar”. “É como o bom sapateiro, como os fatos por medida”, compara. Aliás, a ideia é a mesma: dar ao cliente o que ele não encontra noutros locais. “Trabalhar à medida do cliente”. E, assim, as estantes e o balcão de madeira, que permanecem “exactamente” iguais desde a altura em que o cónego Joaquim Gaiolas, como era usual nos tempos de então, os benzeu, assim permanecerão, aparentemente, imunes à erosão do(s) tempo(s).

Reportagem publicada na edição 159 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 15 de Janeiro de 2014.

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