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Fotografia por Dario Silva

É com um aroma distinto que a Cafezeira de Barcelos – Casa Pias recebe os seus clientes. Há no ar uma agradável mistura de sabores (colorau, pimenta, café, cevada…) e à volta uma imagética que remete para uma reconfortante antiguidade que permaneceu intocável ao longo dos anos. E já lá vão 61…

Foi a 12 de Março de 1952 que Manuel da Cruz Pias abriu a loja, na Rua Barjona de Freitas, que se “revestiu de uma grande importância, pois veio colmatar o vazio existente no ramo, ao colocar à disposição da população produtos de mercearia, fumados, especiais, vinhos, café e cevada, na época, bastante atractivos”, refere o livro “Os Homens do Comércio Local de Barcelos”, editado pela Associação Comercial e Industrial de Barcelos (ACIB).

Actualmente a Cafezeira de Barcelos continua a ser uma das mais emblemáticas casas da cidade e, excepto alguns ‘updates’ indispensáveis para acompanhar a evolução dos tempos, mantém firmes os alicerces da fundação. Que é como quem diz, continua a apostar essencialmente na produção própria de café e cevada e venda de especiarias avulso, entre muitos outros itens de mercearia fina. E graças a esse caminho trilhado sem esquecer o ponto de partida é que a crise não derrubou o negócio agora conduzido por Adelino Pimenta, mais conhecido por Lino Vieira, genro do fundador da Casa Pias. É que, apesar da concorrência das grandes superfícies, ali há o que não se encontra em mais lado nenhum. “Aqui vende-se o que os outros não têm”, sublinha o gerente, de 60 anos, casado com Elisabete Pias, de 58 anos, filha do fundador da Cafezeira de Barcelos. Professora aposentada, acompanha o marido na loja na qual cresceu. “Éramos sete irmãos, dois trabalhavam aqui e eu gostava de vir também”.

Recuando décadas, a maior diferença para os dias de hoje reside “principalmente no número de clientes”, conta Elisabete Pias. “Era uma casa que estava sempre cheia, com gente até à porta”, recorda o marido, acrescentando que essa redução de clientela deve-se à “falta de dinheiro”, sim, mas sobretudo à concorrência das grandes superfícies. “Há alguns clientes que vão passear aos domingos para os centros comerciais e fazem lá as compras. Embora tenhamos artigos que não há lá. Somos uma casa diferente”, vinca Lino Vieira.

E o que é que mais se vende ali mesmo? “O essencial das vendas durante o ano é a cevada e o café”. Mas tem ainda presuntos e salpicões, “uma grande variedade de chás” e bebidas alcoólicas. “Na altura, o fundador vendia mais vinho do Porto e Champagne, agora alargámos para os vinhos maduros e verdes e está numa fase em que estamos a vender bem. Estamos bem fornecidos, temos boas marcas e o cliente já nos está a procurar por isso”, avalia Lino Vieira. Ultimamente tem aumentado também a procura por sementes de chia e mirtilo. Ou seja, “artigos que fazem bem à saúde”. Especificamente na Páscoa há amêndoas de licor vendidas a peso e frutas cristalizadas; na época natalícia há queijo da Serra “de qualidade” que atrai “muita gente de propósito” à loja. “Há clientes que vêm cá uma vez por ano, precisamente no Natal, à procura dos produtos secos”, acrescenta Elisabete Pias. Outros há que “ainda pedem” artigos que se “deixaram de comercializar”, como os rebuçados ‘Noivos’ e ‘Amores’ da marca Regina. “Hoje não há nada disso, a fábrica fechou (…). Toda a gente que passava aqui comprava”, lembra Lino Vieira.

CAFÉ SEM MARCA, MAS COM QUALIDADE

Apesar de vender “algum de marca” porque “um ou outro cliente pede”, o “forte” é o café da casa. “Compramos em cru e mandamos torrar. Não tem marca, mas tem qualidade. Escolhemos o produto de países bons em café como a Costa Rica, São Tomé, Brasil ou Colômbia e fazemos uma mistura que dá qualidade ao nosso lote”, considera o gerente estabelecimento que na altura em que foi inaugurado ainda “não havia cevada em pacote”.

As coisas mudaram muito, entretanto. “Começaram a haver grandes superfícies a vender tudo embalado, mas a qualidade não é a mesma. Só que o cliente vai passear, vai ao lado e compra”. Ou seja, nem sequer é pelo preço que “até é mais barato em relação aos dos produtos embalados”. Na balança antiga onde pesa os produtos, está afixado com fita-cola um papel escrito à mão: o quilo de cevada custa 2,40€, o quilo de ‘mistura’ 3,90€ e o quilo de café 12,50€ (mas há outra qualidade mais barata a 10,50€). Ao lado do balcão há duas máquinas de moagem, uma para o café e outra para a cevada. “Normalmente levam já moído”, aponta Lino Vieira, enquanto embala um cartucho de cevada que de seguida entrega a uma cliente.

O fluxo de clientela acentua-se à quinta-feira, quando vem gente de todas as freguesias do concelho (e de fora) ao centro da cidade, e nas épocas festivas. “O Natal é o melhor altura, depois é a Páscoa e Agosto também é muito bom por causa dos emigrantes”, observa Lino Vieira, considerando que, apesar da crise, “o negócio tem continuado”. “Sente-se sempre, todas as casas sentem. Mas, muito sinceramente, sentir mesmo a fundo, não sentimos. Porque é um produto diferente e que as pessoas gastam diariamente”, justifica. E a antiguidade é, também, um factor a ter em conta: “É uma casa conhecida por toda a gente”.

Contudo, não quer dizer que o negócio gere fortunas. “Se fosse pelo dinheiro, isto já estava fechado. É mais pelo amor à camisola”, realça Elisabete Pias. E, acrescenta o marido, por não ter que estar sob ordens de “patrões”. “Ninguém manda em mim e não há dinheiro que pague isso. Por isso é que vamos mantendo”.

“MUITOS CLIENTES PEDEM-NOS PARA NÃO FECHARMOS”

Mas o futuro é incerto e passara pela sobrinha do casal, Diana Pias, de 30 anos, que trabalha na loja. “Ela é que vai ter que dizer se quer continuar ou não, porque isto dá muito trabalho e pouco dinheiro. Dá para segurar um posto de trabalho…”, vinca a filha do fundador. E a razão da continuidade ou não do negócio familiar com mais de seis décadas deve-se principalmente a factores externos. “Vêm com impostos e nós temos que pagar”, critica Lino Vieira, dando como exemplo o novo sistema de facturação que obrigou à compra de um novo computador. “Se vamos continuar abertos muito ou pouco tempo, isso também vai depender um pouco daquilo que eles nos deixarem fazer”, completa. E a esposa chama atenção para outra das “coisas” que lhe “tiram o sono”. “Já pensou na nova lei das rendas? O que é que poderá vir por aí? Isso também nos condiciona bastante”, refere.

Como seria cruzar o centro da cidade e não ver a Cafezeira de Barcelos com as portas abertas? “Custar-me-ia um bocado pela falta que me faz para conversar, para trocar impressões”, confidencia Fernando Gonçalves, professor aposentado, de 74 anos, cliente e amigo fiel da casa que “todos os dias de manhã, à tarde e à noite” ali passa para amenas cavaqueiras. E não é o único que sentiria a falta de uma casa que prima quer pela antiguidade quer pela proximidade. “Muitos clientes pedem-nos para não fecharmos isto, porque é uma casa com muitos anos e estão habituados a vir aqui comprar artigos que não encontram noutros lados”, conclui Lino Vieira.

Reportagem publicada na edição 125 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 22 de Maio de 2013.

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One thought on “Cafezeira de Barcelos. O segredo é vender o que os outros não têm

  1. boa tarde, pretendia saber se vende café verde a bulso, a como (preço). Onde se encontra sua loja em barcelos? p.f.mande-me vosso endereço. Obrigado.

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