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Fotografia por Eduardo Morgado

No dia 22 de Fevereiro de 1913, Manuel Ribeiro Meira abria uma loja de ferragens na rua Barjona de Freitas. Cem anos depois a Casa Meira mantém-se na família. Hoje, é o neto do fundador, Manuel Augusto Meira, quem está à frente do negócio que sofre as consequências da crise no sector da construção. A tradição familiar que celebra um século e a relação de proximidade com os fregueses são o bálsamo que mantém aberto um dos estabelecimentos comerciais mais antigos e carismáticos do centro da cidade.

Sobre Manuel Ribeiro Meira, refere a publicação “Os Homens do Comércio Local de Barcelos” que o fundador “demonstrou ser um homem de elevada competência e sentido ético, facto que contribuiu para que a sua casa comercial se apresente como um exemplo de sucesso”. E, “além da atenção dispensada aos clientes”, eram relevados também os artigos, que faziam do estabelecimento “um ponto de referência”.

Com a morte do fundador, foi o filho António Manuel Meira quem ficou à frente do negócio. “Era incisivo e cuidadoso nos aspectos mais importantes da imagem da sua casa para fazer face à concorrência”, apostando “na qualidade dos produtos comercializados e na gradual renovação do estabelecimento”, lê-se na mesma revista, que acrescenta: “Perfeito exemplo de comerciante, jamais será esquecido pelos seus clientes, pelo facto de com eles ter desenvolvido uma relação cordial e aberta”. E é exactamente dessa forma que Manuel Augusto Meira recorda o pai que faleceu em 1999: “Se estivesse hoje aqui, o negócio era capaz de ser melhor porque ele tinha um espírito excelente, há muitos fregueses que o lembram constantemente”.

“À QUINTA-FEIRA NÃO HAVIA MÃOS A MEDIR”

Foi ainda com António Manuel que os filhos Manuel Augusto e António Carlos começaram a exercer a actividade que mantiveram após a morte do progenitor. Recentemente, Manuel Augusto, 55 anos, ficou sozinho à frente da loja, o único sítio onde trabalhou a tempo inteiro e no qual desde pequeno ajudava os pais. “Em criança vinha para aqui, porque o meu pai não me dava chances de ir para a rua quando acabava a escola”, recorda. Eram outros tempos. Tempos em que à quinta-feira era uma azáfama sem fim. “Não havia mãos a medir. A gente entrava aqui às nove da manhã e nem tinha tempo de almoçar, não se fechava a porta. Muitas vezes a minha mãe trazia o almoço de casa e tínhamos que comer nas traseiras, no armazém, a correr. E muitas vezes tínhamos que deixar o almoço e vir atender os clientes”, conta. Mas havia outros dias bons: a terça-feira, “chamado dia da praça” que trazia muita gente à cidade, e o sábado em que, apesar de a loja só estar aberta da parte da manhã (“optávamos pela semana inglesa”), facturava tanto ou mais do que nos dias em que trabalhava o dia todo. Segunda e sexta-feira eram dias mortos, assim como a quarta-feira, em que a família Meira aproveitava para “pesar os pregos, tachas e anilinas” e “preparar as encomendas para a quinta-feira”.

Agora o movimento é muito menor. Essencialmente, por duas razões. Nas aldeias não havia tantos negócios, apenas uma ou outra mercearia, e as pessoas tinham que recorrer à cidade para comprar outras coisas de que precisavam. E, claro, a crise na construção civil. “Hoje, a nível de ferragens para a construção, está tudo completamente parado. Aquilo de vender aos vinte pares de puxadores e fechaduras praticamente terminou”. Pelo que, agora, a Casa Meira trabalha “essencialmente com o consumidor final”. Parte dos artigos comercializados são os mesmos de sempre: fechaduras, pregos, dobradiças, tachas, puxadores… Mas, para ter uma “alternativa” ao decréscimo da procura destes itens, foi necessário apostar na área das utilidades domésticas, que vão tendo bastante saída. Tachos, conchas para a sopa, coadores, abre-latas, facas…

O volume de negócios já vem em sentido decrescente há praticamente uma década, mas nos últimos quatro anos o cenário agravou-se. “Aí é que se nota o descalabro, baixámos muito. Se formos aos balancetes de há oito anos, mesmo já com o euro, facturávamos quase o dobro do que facturamos hoje. E temos despesas que são muito maiores”, lamenta o mais velho dos cinco irmãos (entre ele e António Carlos, o mais novo, há três mulheres).

Mas Manuel Augusto Meira quer manter de pé o negócio que herdou e que há cem anos passa de pais para filhos. “O meu pai sempre dizia que não queria grandes doutores, preferia bons trabalhadores e queria a continuidade na família”, lembra. Por isso, não deita a toalha ao chão. “Vamos lutar dia a dia, tentar ter o que os outros não têm”. E acrescenta o segredo mais importante da longevidade do negócio: “Temos um relacionamento próximo com o freguês”. O problema é mesmo o futuro. “Não vejo nenhum dos meus três filhos a vir para aqui”.

“ESTA CASA DIZ MUITO ÀS PESSOAS”

Certo é que a Casa Meira é dos estabelecimentos mais reconhecidos do centro de Barcelos. “Nota-se que esta casa diz muito às pessoas”. O reconhecimento tornou-se ainda mais evidente após a edição do ano passado do Milhões de Festa, em que a loja foi um dos sítios escolhidos para o Red Bull City Gang, iniciativa que leva as bandas locais a tocarem em locais emblemáticos da cidade. “Noto que havia muita gente este Verão que passava por aqui e dizia: ‘olha a Casa Meira’. Isso está relacionado com a propaganda que houve do Milhões de Festa”, refere, sublinhando que, de qualquer forma, “há muita malta nova que foi influenciada pelos pais e avós e continua” a ir ali comprar ferragens e utensílios domésticos.

Apesar de o panorama não ser favorável, Manuel Augusto mantém uma ponta de optimismo e acredita que a situação vai “dar uma volta”. “Se não der, estamos muito mal. Há cinco ou seis anos, eu já dizia que para pior não podíamos ir e, afinal, ainda descemos. Se as pessoas têm pouco dinheiro, gastam-no na mercearia. Se a porta fichar sem fechadura ou mês ou um ano, ou caída sem uma dobradiça, resolve-se bem… Agora o arroz, a massa e o azeite tem que se ter em casa. Não havendo rotação de dinheiro, não vamos para a frente”.

Reportagem publicada na edição 145 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 9 de Outubro de 2013.

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