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DSC_6191A Central de Camionagem, em Arcozelo, encheu para ver e ouvir Jorge Palma, que tinha estado em Barcelos pela última vez em 2007 (concerto no auditório S. Bento Menni e integrado no Subscuta). O espaço engalanou-se – e o termo não é nada abusivo – para o evento “A Viagem”, organizado pela Lux Produções, que além do cantor de “Deixa-me Rir” contou com a presença de Diogo Morgado, a actuação de Tozé (vocalista dos Per7ume) e muitos DJ, entre eles o radialista Fernando Alvim. O chão da Central de Camionagem foi alcatifado e no tecto e nos vidros havia panos estrategicamente colocados para melhorar a acústica; num espaço amplo quanto baste, o frio foi contrariado por potentes aquecedores; o recinto foi decorado a preceito e apetrechado com vários bares (até havia uma zona VIP onde era servido sushi).

Cerca da 1h45, o cabeça de cartaz subiu ao palco. Palma começou na guitarra, sozinho, e em inglês, homenageando Bob Dylan e Lou Reed. “Jeremias, o Fora da Lei” deu o tiro de partida no repertório próprio. Depois de “Voo Nocturno” e já acompanhado pelo filho Vicente, na guitarra, Palma passou para o piano e fez uma incursão por clássicos como “Dá-me Lume”, “Deixa-me Rir” ou “Frágil”. Num espectáculo descontraído, cantou um trecho da canção popular irlandesa “Wild Rover”. Já na recta final, “Encosta-te em Mim” foi recebido em apoteose e “A Gente Vai Continuar” encerrou o concerto de quase hora e meia.

No final, estivemos uns minutos à conversa com o músico, de 63 anos, num enfumarado e barulhento camarim junto ao palco, enquanto actuava Tozé.

Entrevistar um artista como o Palma é complicado porque não há praticamente nada que já não lhe tenham perguntado.

Eu também nunca respondo da mesma maneira. Quer dizer, basicamente é o mesmo (risos).

Em tantos anos que leva disto nunca se cansou de tocar?

Não. Há dias em que sinceramente não me apetece, preferia ficar em casa a ver televisão, a ver um filme ou ir ao cinema. Mas depois apetece-me. Quando um gajo sente a vontade…

(Fernando Alvim irrompe camarim adentro: “Palma, então, pá? Caralho!”. “Grande Alvim”, cumprimenta Palma, levantando-se em direcção ao radialista. Trocam umas palavras rápidas e um abraço forte. Alvim sai e Palma ainda lhe diz: “Por causa de ti ia sendo preso nos Estados Unidos, pá”. Achámos melhor não desenvolver esta história, Palma sentou-se e continuámos a entrevista)

Que tal o concerto de hoje?

Não foi dos piores dias, digo-te já.

Já tinha tocado numa central de camionagem?

Estava a pensar que não me tinham explicado bem. Pensava que ia tocar numa central da camionagem, assim tipo armazém, mas não, isto está muito engraçado em termos de arranjo do espaço. Os vários bares, os autocarros que estão lá fora… Já escolhi o que vou gamar agora, é um azul (risos).

Desde “Voo Nocturno” (2007) que, tirando o single para o “Bela e o Paparazzo” (“Tudo por um beijo”, de 2010), não lançou mais nada.

Vou escrevendo coisas. Fiz duetos com o Veloso, com o Gonzo…

Mas um álbum em nome próprio?

Estou a escrever.

E quando vai sair?

Depois das festas de Natal e Passagem de Ano, em Janeiro, vou-me sentar um bocado ao piano e à guitarra…

Este concerto foi num registo mais intimista, só o Palma e o Vicente. Como é que é andar na estrada com o filho? Quem cuida de quem?

Ele está aqui não é por ser meu filho, é por ser bom músico, e tem jeito para fazer os reportórios, para tocar sobretudo. Nem sempre há condições para trazer a banda [Os Demitidos, que o acompanham] e desenrasco-me bem sozinho, com um músico que, por acaso, é meu filho. Há dez anos que tocamos juntos. A ideia é tocar e eu tenho uma grande escola, que é a escola da rua. Paralela ao Conservatório.

Consegue combinar a técnica do Conservatório com a sujidão do rock’n roll.

Pois, claro que sim. É o espírito do rock’n roll do início da minha adolescência. Ajuda-me a fazer o que quiser. E essa é a minha ideia: sermos livres.

Sempre fez o que quis?

Nem sempre se consegue. Mais ou menos tenho feito o que quero e sobretudo tenho dito que não ao que não quero. Às vezes, há concessões que uma pessoa tem de fazer, mas nunca ninguém interferiu naquilo que eu quero gravar.

E quando o fizeram, como quando a EMI – Valentim de Carvalho não lhe aceitou um disco (“Bairro do Amor”, 1989), foi para outra editora.

Saltei para a Polygram… Ah, sim. Quando uma não queria, a outra queria. Neste momento, querem ter a minha discografia junta mas não estão a chegar a acordo. Como diz o Fernando Tordo, se estão à espera que eu morra, talvez se lixem.

Reeditar os álbuns todos?

Sim, juntar tudo o que gravei. Estamos a falar de muitas canções. Se estão à espera que eu morra, vão ter que esperar.

Hoje não tocou “Portugal, Portugal”. Mas, neste momento, de que está Portugal à espera?

Essa infelizmente está muito actual. O país está à espera dos milhões que vão chegando. Eu sinceramente não percebo nada de economia, mas Portugal continua à espera de alguma coisa, isto de há 500 anos. Desde a primeira dinastia… Aquela aventura dos descobrimentos, que é importantíssima, das especiarias… Fala com o Garcia de Orta, é difícil (risos). Fala com o Camões. Portugal continua à espera do ouro do Brasil ou das remessas dos emigrantes, agora está à espera do enegésimo resgaste, que lhe chamam coisas diferentes. Estão à espera de taco. E há gente que se vai orientando com isso. Há fortunas a aumentar e, se um gajo não for completamente ceguinho, percebe. Há um cagagésimo que vai aumentado as suas fortunas, enquanto os outros vêem as suas pensões reduzidas quase a zero, há pessoal a viver muito mal… E as pessoas vão cantando, eu vou dizendo [e começa a cantar] “Portugal, Portugal, do que é que tu estás à espera? Tens um pé numa galera e outro no fundo mar. Enquanto ficares à espera, ninguém te vai ajudar”. (No palco, Tozé acaba a actuação e pede uma salva de palmas para o “grande Jorge Palma”. O barulho ensurdecedor da ovação parece ser o melhor momento para terminar a conversa).

Entrevista publicada na edição 156 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 24 de Dezembro de 2013.

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