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alvaro_costa (8)Cerca da uma hora da madrugada de 25 de Abril de 1974, na Escola Prática de Cavalaria (EPC) de Santarém, os militares são acordados e mandados reunir. É-lhes explicado que “ia-se passar uma revolução” e que iriam “marchar sobre Lisboa” para derrubar o regime ditatorial liderado por Marcelo Caetano.

Os oficiais avisam-nos que só vai quem quer e pedem voluntários. Entre os que de pronto se voluntariaram estava Álvaro Costa, um então jovem de 20 anos que tinha feito a recruta nas Caldas da Rainha e estava “há poucos dias” na EPC a tirar o Curso de Sargento Miliciano.

Natural da Ucha, o aspirante a furriel integrava, assim, a coluna de 240 homens comandada pelo capitão Salgueiro Maia que saiu de Santarém em direcção a Lisboa, ocupando o Terreiro do Paço e depois cercando o Quartel do Carmo até à rendição de Marcelo Caetano.

Na altura, o meio militar já estava politizado e a contestação à ditadura era notória. “Quase toda a gente criticava o regime, sentíamos que havia um descontentamento, os oficiais iam passando essa mensagem”, conta Álvaro Costa, hoje com 60 anos e empresário têxtil.

Por isso é que os 240 homens se prontificaram a acompanhar Salgueiro Maria “de bom grado”, embora estivessem conscientes das consequências que sofreriam caso o plano corresse mal.

“Sabíamos que se voltássemos éramos presos”, recorda Álvaro Costa ressalvando, contudo, que os camaradas que ficaram no quartel estavam solidários com os que partiram na coluna e que os mais penalizados, caso a revolução saísse frustrada, seriam sempre os mais graduados.

SEM RESISTÊNCIA ATÉ LISBOA

Preparadas armas e munições, a coluna arrancou. Álvaro Costa seguia num camião com “taipais altos” em “condições que hoje são inimagináveis”. “Chegámos a Lisboa sem resistência absolutamente nenhuma”. E (quase) sem problemas: “A não ser um carro de combate velho que ficou pelo caminho”.

Os militares da EPC chegam a Lisboa ainda de noite e ocupam o Terreiro do Paço. No epicentro revolucionário Álvaro Costa lembra o momento em que a fragata Gago Coutinho apareceu ao largo do Terreiro do Paço “com os canhões apontados” para as forças revolucionárias: “Os comandantes mandaram todos os carros de combate apontarem em direcção ao barco, mas não se passou nada. Nessa altura já havia muito povo na rua e mal nos posicionámos virados para o barco, olhámos para trás e tinha desaparecido toda a gente, já não estava ninguém na rua”.

O povo começou a aparecer bem cedo nas ruas. Iam para o trabalho mas eram surpreendidos com a ordem dos militares para regressarem a casa. “Dizíamos-lhes: hoje vai ser feriado, não precisam de trabalhar e podem ficar descansados que têm o dia garantido, isto é uma revolução. Eram as ordens que tínhamos”, conta o dono da empresa Faria e Costa, que se lembra de ter sentido o “enorme apoio do povo” quando a coluna saiu do Terreiro do Paço para o Largo do Carmo. “Vi pessoas a chorar de alegria”. A euforia era de tal ordem que Álvaro Costa admite que foram cometidos “excessos e erros” com muitas pessoas a subirem para as viaturas militares. “Tanto é que depois, à chegada ao Largo do Carmo, os carros já iam completamente inoperacionais de tantos civis que levavam”.

“FESTA INTERROMPIDA”

Com os populares em êxtase e os cravos a pintarem de vermelho a Revolução, o 25 de Abril “tornou-se quase uma festa” que foi “interrompida” aquando do cerco ao Quartel do Carmo: “O Marcelo Caetano não se rendia, foi preciso mostrar-lhe força”. Foi então que Salgueiro Maia “mandou abrir fogo” sobre o quartel. “Aí o povo dispersou todo, mas depressa voltou”.

Após a rendição do chefe de Estado, os militares recolheram ao Quartel da Pontinha, para onde também foi levado Marcelo Caetano. “Estivemos permanentemente de prevenção. Estávamos em cima dos carros prontos a arrancar a qualquer momento”. A noite estava fria. “A páginas tantas, chateados de ali estarmos sentados, fomos jogar à bola num espaço lá à beira para aquecer, porque estava mesmo muito frio”.

No próprio dia Álvaro Costa ainda não tinha a percepção de que participara num momento histórico para o país. “As coisas depois é que foram evoluindo”. Mas hoje sente “orgulho” em ter sido um dos intervenientes da Revolução dos Cravos. “Foi um marco”.

Recorda Salgueiro Maia como “um dos mais influentes” oficiais da EPC e guarda a imagem dele como um “homem cem por cento”. “Nunca mostrou autoritarismo militar. Era uma pessoa compreensiva e bem aceite por todos”.

VERÃO QUENTE

Após o 25 de Abril, Álvaro Costa concluiu o Curso de Sargento Miliciano e foi como furriel da Polícia Militar (PM), em Lisboa, que viveu o conturbado PREC – Processo Revolucionário Em Curso. O período mais complicado, o Verão Quente de 1975, passou-o no Quartel da Ajuda, o Regimento de Lanceiros 2. “A polícia não fazia grande coisa nessa altura, porque se o povo tinha algum respeito era pelos militares”. Então, por isso, a PM era chamada para ocorrências várias. Um dia Álvaro Costa foi enviado para uma casa onde a Comissão de Moradores queria instalar mais uma família. “Queriam que os desalojássemos para que ficassem em meia casa. Dão-nos essa ordem e nós lá vamos com a Comissão de Moradores. Subo com dois soldados e a Comissão de Moradores. Bato à porta, ninguém responde. Comunico ao COPCON e dizem-me para arrombar a porta e instalar a família. Dei uma patada na porta, arrombei-a. Lá dentro estavam os donos da casa: um casal idoso e um filho. O filho, totalmente transtornado, manda-se a mim e sou obrigado a sacar da pistola. Qual o meu espanto quando consigo acalmá-lo, nem soldados nem Comissão de Moradores, fugiu tudo pelas escadas abaixo”, conta, assim, um dos episódios do PREC que mais o marcaram. A Comissão de Moradores “nunca mais lá apareceu” e aquela família não voltou a ser importunada.

O Verão Quente ficou marcado pelos confrontos entre o PCP e o MRPP. Conflitos que por vezes tinham que ser sanados com os tiros da PM. “Furámos o telhado todo da Estação do Rossio”, conta o empresário da Ucha. “Foi assim… O PCP era a favor do aumento das tarifas do comboio, o MRPP era pelo povo, não aceitava a subida de preços. Então, na manifestação, o PCP estava com os ferroviários à entrada da estação a verificar que tudo pagava bilhete e o MRPP vinha na rua: ‘ninguém paga’. Juntou-se ali gente na hora de ponta e pegam à porrada uns com os outros… Só com tiros para o ar e bastonada é que aquilo acalmava”.

O 25 de Abril trouxe o fim da guerra colonial, pelo que Álvaro Costa acabou por não ter que combater no ultramar. O pesadelo de qualquer jovem na altura. “Era um trauma”. Ora, como não saíam tantos militares para as (ainda) colónias, os quartéis começaram a ficar lotados. O furriel da Ucha trocou a Calçada da Ajuda pelo Quartel-General do Porto e por fim ainda esteve em Braga, onde comandou o pelotão da PM que para ali fora transferido, até concluir o serviço militar e regressar à vida civil.

Reportagem publicada na edição 173 do Jornal de Barcelos no dia 23 de Abril de 2014.

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