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estadioOscar Morales e Gonzalo Castro marcaram, no espaço de um minuto (40’ e 41’), os golos que levaram o Nacional de Montevideo para o intervalo a vencer. No reatamento, o Gil Vicente reduziu com um cabeceamento de Paulo Alves (51’). O marcador não sofreria mais alterações e 1-2 seria o resultado final do jogo de inauguração do Estádio Cidade de Barcelos, a 30 de Maio de 2004.

Praticamente ninguém questionava a construção do Estádio, que era considerado uma necessidade para um concelho com um clube na primeira divisão a jogar num campo de terceira. O velhinho Adelino Ribeiro Novo há muito que já não correspondia às exigências do escalão maior do futebol nacional, muito menos preenchia os requisitos para competições internacionais.

Mas o que era uma questão pacífica (era preciso construir um Estádio moderno que desse uma boa imagem de Barcelos, consentâneo com as necessidades de um clube no principal campeonato português e que desse também resposta aos critérios da UEFA e da FIFA) acabou por tornar-se gerador de várias polémicas e alimentou (alimenta) tricas políticas.

Quem não se lembra do fiasco que foi a “segunda inauguração” com um famigerado Julio Iglesias a tocar para uma plateia de cadeiras vazias? Esse é certamente o episódio mais difícil de esquecer de muitos que marcaram a edificação do Estádio Cidade de Barcelos e que lembramos agora, quando se celebram dez anos sobre a sua inauguração.

MONTEVIDEO SUBSTITUIU SANTOS NA INAUGURAÇÃO

Comecemos mesmo por aí… Não era o Nacional de Montevideo a equipa que estava contratada para vir inaugurar a infra-estrutura, um investimento superior a 20 milhões de euros custeado na íntegra pela Câmara Municipal (que afirmava serem apenas 16 milhões), mas sim o Santos Futebol Clube, do Brasil. Só que, a sensivelmente duas semanas da inauguração, a Empresa Municipal de Educação e Cultura (EMEC) foi informada de que afinal a equipa brasileira não poderia vir, pois tinha um jogo para a Taça Libertadores da América. O Santos FC ainda disponibilizou a equipa B, mas foi recusada. A opção de recurso foi, então, o Montevideo, várias vezes campeão da primeira liga do Uruguai.

Da parte do Governo, para inaugurar a obra esteve José Luís Arnaut, à altura ministro-adjunto de Durão Barroso. “A imagem que o Estádio Cidade de Barcelos dá do nosso país deixará muita gente satisfeita”, afirmou o governante.

A festa de inauguração do Estádio Cidade de Barcelos, cuja organização a Câmara Municipal delegou na EMEC, custou 200 mil euros, o valor do acordo com a empresa 2R Entretenimento, que ficou encarregue da produção. Os bilhetes custavam 25 euros para o público em geral e 15 para os sócios do Gil Vicente, então treinado por Luís Campos. A lotação, cerca de 12.500 lugares, ficou muito aquém das expectativas. Apenas 4984 pessoas assistiram ao jogo e muitas delas, como escreveu o JB na altura, “abandonaram o Estádio a meio da segunda parte”, uma vez que era domingo à noite e as horas já iam avançadas por causa de um “espectáculo piromusical de muito mau-gosto” antes do início da partida.

UM FIASCO CHAMADO JULIO IGLESIAS

Não satisfeita com o flop do jogo inaugural, a Câmara decidiu fazer uma “segunda inauguração”. Coisa em grande, mesmo! Mas o tiro saiu pela culatra. E de grande só mesmo a desilusão. O concerto de Julio Iglesias, no dia 2 de Julho de 2004, foi um absoluto fiasco de bilheteira que entrou para sempre no anedotário barcelense.

Na edição de 7 de Julho de 2004, o JB relatava que “o espectáculo não terá tido sequer cinco mil espectadores” e muito por causa do preço dos bilhetes que oscilavam entre os 30 e os 75 euros. Quanto ao concerto, escrevia o JB sobre a entrada de Julio Iglesias em palco: “Com as luzes todas desligadas, duas limusinas percorreram a parte de trás da bancada nascente, acompanhadas de duas dúzias de seguranças apeados. Com grande estilo hollywoodesco, os seguranças tiraram o cantor do carro e, apesar de não haver vivalma nas proximidades, levaram-no como se de uma preciosidade se tratasse até ao palco”. O presidente da Câmara, Fernando Reis, assistiu a tudo sentado na primeira fila.

E com certeza não devia estar muito contente. É que o conjunto dos dois espectáculos inaugurais do Estádio deu um prejuízo de quase meio milhão de euros aos cofres municipais! A Câmara fez uma transferência para a EMEC no valor de 489.198 euros de “indemnização compensatória” justificando que “a realização de tais eventos implicou um investimento quantificável mas de receita imprevisível”. O jogo do Gil Vicente com o Montevideo e o concerto de Julio Iglesias custaram cerca de 800 mil euros e a receita não chegou sequer aos 300 mil euros.

Contudo, apesar do rombo financeiro e das críticas que este suscitou por parte da oposição ao executivo do PSD, ninguém esperava que oito anos depois o espectáculo de Julio Iglesias viesse novamente à baila. Em 2012, deu entrada no Tribunal de Barcelos um pedido de execução da EMEC apresentado pela Golden Concerts, Limited, a reclamar 225.000 euros do concerto do cantor romântico espanhol. A EMEC, cujo conselho de administração em 2004 era presidido por Domingos Araújo, garante nada dever àquela empresa sedeada no offshore de Gibraltar. O Tribunal de Barcelos declarou-se incompetente para julgar a matéria que, por envolver uma entidade de direito público, devia ser julgado no Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga.

ERA UMA VEZ OITO COURTS DE TÉNIS

O Cidade de Barcelos foi alvo de uma intensa disputa política. O principal partido da oposição, o PS, então liderado por Horácio Barra, criticava os custos da obra e o facto de não ter sido levado avante o projecto de construção de um complexo desportivo que abrangeria outras infra-estruturas. E foram os socialistas a denunciar que, apesar dos 16 milhões apregoados pela Câmara, a verdade é que as obras derraparam e o Estádio custou perto de 22 milhões de euros: terrenos (390.599€), projectos e alterações (1.236.238€), plano de segurança (3.491€), fiscalização (737.253€), 1.ª fase da empreitada (600.966€), 2.ª fase da empreitada (11.285.532€), 3.ª fase da empreitada (4.428.816€) e arranjos exteriores (1.756.059€), acrescendo o IVA que rondaria o milhão.

Em Janeiro de 1997, era apresentado à comunicação social o projecto para o Estádio – que, a título de curiosidade, deixou o então presidente do Gil, Francisco Magalhães, bastante desiludido por apenas duas das bancadas serem cobertas (depois acabaram por serem todas). Seria apenas o primeiro passo para o Complexo Desportivo de Barcelos, que, segundo Fernando Reis, funcionaria como “um novo pólo de desenvolvimento da cidade”. Além do Estádio, como hoje o conhecemos, naqueles terrenos envolventes, em Vila Boa, adquiridos pela Câmara com esse mesmo fim, estavam projectados quatro campos de treino, uma pista de atletismo, oito courts de ténis, um pavilhão desportivo, um complexo habitacional e um centro de estágios!

Na véspera da inauguração, a 30 de Maio de 2004, o Record editava uma revista especial sobre o Cidade de Barcelos que dava como certa a conclusão, no ano seguinte, da segunda fase do projecto, que contemplaria a pista de atletismo e os quatro campos de treino… Até hoje, nem vê-los. Nessa mesma publicação, Fernando Reis assumia que a construção do Estádio era “um sonho que alimentava desde 1992”, cerca de dois anos após ter chegado à presidência do Município. Mas que só viu concretizar-se doze anos depois (obra pública que se preze sempre atrasa e esta não foi excepção) coincidindo com o Euro 2004.

O Campeonato da Europa não teve influência na decisão de construir o Estádio. Aliás, para isso teria que ter mais do que 30 mil lugares, o que Fernando Reis recusava para evitar que o Cidade de Barcelos se tornasse um “elefante branco” com os estádios de Faro, Aveiro ou Leiria. Mas o momento era oportuno e a Câmara concorreu, em conjunto com o Hotel Ofir, para ser um centro de treinos do Euro 2004. A candidatura foi aprovada, mas ninguém quis vir para Barcelos / Esposende. “Não podíamos obrigar alguma selecção a aceitar vir para cá. Tivemos várias visitas, mas infelizmente nenhuma das equipas escolheu esta zona. E um delas, a Croácia, esteve perto de vir, só que o sorteio ditou que os seus jogos fossem todos longe de Barcelos”, lamentava Fernando Reis na revista especial do Record.

QUANDO REIS CHAMOU TERRORISTA AO PS

A acesa contenda política em torno do Estádio teve o seu momento mais pitoresco quando a vereação e alguns deputados do PS decidiram ir visitar o Estádio na semana antes da inauguração. Horácio Barra avisou a EMEC que iria fazer a visita, mas esta não gostou nada. Criticou a “inoportunidade do momento”, a “deselegância pela forma como foi marcada” e que não iria acompanhá-la. Mesmo assim, os socialistas insistiram e lá apareceram no Cidade de Barcelos, cuja porta principal se encontrava fechada. A comitiva do PS decidiu então dar a volta ao edifício, encontrou uma porta aberta do lado nascente e entrou. A atitude irritou sobremaneira Fernando Reis, que acusou os adversários políticos de terrorismo. “Já estou habituado ao ridículo, já estou habituado às acções terroristas que eles por norma têm. Regressámos ao tempo do PREC e deste PS de Barcelos espero, efectivamente, tudo”, disse Fernando Reis, considerando que a visita ao Estádio foi “uma acção verdadeiramente terrorista” e uma “invasão de propriedade privada”.

Da política para o desporto, muitos foram os grandes momentos que o Estádio Cidade de Barcelos já viveu. A Selecção Nacional jogou no relvado do Cidade de Barcelos no dia 26 de Março de 2005 num particular contra o Canadá, que servia de preparação para o apuramento para o Mundial de 2006. A equipa das Quinas, então orientada por Luiz Filipe Scolari, ganhou aos canadianos por 4-1. Golos de Manuel Fernandes, Pauleta, Hélder Postiga e Nuno Gomes. As bancadas encheram para ver a equipa finalista do Euro 2004 jogar sob a batuta do “maestro” do meio-campo, Deco. Cristiano Ronaldo foi substituído no início da segunda parte pelo barcelense Hugo Viana.

Entre outras competições internacionais (ver caixa), há a destacar o Campeonato Europeu de Sub-21 que se realizou em 2006 e arrancou precisamente no Cidade de Barcelos com um jogo entre a Sérvia e Montenegro (país que, curiosamente, na altura já não existia) contra a Alemanha, e que os alemães venceram por 1-0.

Mas a maior enchente e os momentos mais emocionantes que o Estádio viveu foram, sem dúvida, no dia em que o Gil Vicente regressou à primeira divisão, cinco anos após a descida na secretaria, devido ao Caso Mateus. Dia 29 de Maio de 2011, as bancadas estavam à pinha. Completamente. E Hugo Vieira levou os gilistas à loucura apontando o 3-1 contra o Fátima e garantindo o regresso ao convívio entre os grandes, que acabou por ser premiado, ainda, com o título de campeão.

ABERTO ÀS ASSOCIAÇÕES

A manutenção do Estádio está a cargo da Câmara e, em conjunto com o Adelino Ribeiro Novo, fica por 280 mil euros por ano. Muito, muito longe dos milhões anuais que custavam às autarquias de Aveiro ou Faro e Loulé os seus estádios para o Euro-2004. E, ainda por cima, é um dos estádios com melhores assistências em Portugal. Por exemplo, na última época, o Cidade de Barcelos teve uma média de 3658 espectadores, o que corresponde a uma taxa de ocupação de 30,40%, valendo-lhe o oitavo lugar no ‘ranking’ da Liga – além dos três grandes, do Braga e do Vitória de Guimarães, é ultrapassado pela Académica e Belenenses.

Além de o relvado ser utilizado esporadicamente para outros jogos que não os do Gil Vicente, como finais do Futebol Popular, o Estádio contempla ainda o Centro Empresarial onde estão sedeadas, a custo zero, várias instituições desportivas do concelho, como o Motor Clube, o Basquete Clube, a Academia de Xadrez, a Associação de Futebol Popular, etc.

O Centro Empresarial é gerido pela ANJE – Associação Nacional de Jovens Empresários através de um protocolo celebrado com a Câmara em 2005 “por tempo indeterminado”. O espaço é “destinado a empreendedores que pretendam iniciar e desenvolver uma actividade empresarial através da apresentação de projectos em áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento da região”. A ANJE suporta os custos de funcionamento do centro de incubação, com a excepção dos serviços de segurança, e cobra uma renda às empresas que varia entre os 160 e os 220 euros, para associados da ANJE, e entre 180 e 240 euros, para não associados.

Feito à medida das necessidades do concelho e sobretudo do Gil Vicente (“O Estádio foi construído à dimensão do Gil”, sublinhou uma altura António Fiusa, presidente gilista, ao JB), o Estádio é unanimemente “bonito e funcional”, como destacava em título o JB aquando da inauguração. É também essa a impressão do arquitecto André Simão que deixa o elogio numa crónica assinada no JB: “Em plena febre do Euro, construíam-se catedrais ao futebol como quem come algodão doce, negavam-se à força toda as evidências da crise e o país em peso ia confiando que a Nossa Senhora do Caravaggio nos traria a taça e o perdão para tanto disparate na gestão das finanças públicas. Em Barcelos, para servir as exigências de um clube primodivisionário, apostou-se num edifício com capacidade para 12.000 pessoas, imagem discreta (que se resume a 4 bancadas cobertas com palas atrevidas suportadas por eficaz esqueleto de metal azul), funções claras e reconhecíveis e uma localização óptima – perto da cidade o suficiente, longe da cidade o bastante. Ao longo de quase dez anos o edifício foi prestando provas, com distinção (…). Ainda guarda espaço para as instalações provisórias do Museu de Olaria e para um Centro Empresarial – ao que sei, com taxas de ocupação razoáveis”. Como dizia Fernando Reis à revista do Record, precisamente há dez anos, em vésperas de inauguração: “É um ‘estadiozinho’ que é uma maravilha”.

PORMENORES

– Capacidade para 12.504 espectadores, onde se incluem 10 lugares para deficientes e 102 para comunicação social. Bancada sul (4.027 lugares), nascente (2.639), norte (2.016) e poente (3.822)

– Todas as bancadas são cobertas. Cabos com um vão de 26 metros suportam a estrutura metálica tridimensional que cobre as bancadas sul e poente

– Orientado no sentido Norte-Sul, o campo tem 105 metros de comprimento e 68 de largura

– Tem cinco pisos, mais cave. No piso cinco: tribuna presidencial (36 lugares), bares e sanitários. No piso quatro: tribuna de imprensa, espaço para reuniões, sanitários, sala de controlo técnico e de segurança. No piso três: acessos. No piso dois: entrada principal e entrada para camarotes, administração do estádio, sala de troféus, vestiários, restaurante, bares de serviço público da bancada e arquibancada sul e sanitários. No piso um: auditório / sala de conferências, camarotes, bares de apoio, sanitários, posto de primeiro socorros, sala de polícia, posto médico, sala de controlo anti-doping, sala de massagens, zona de estar para serviço público da bancada nascente e sanitários, sauna, banho turco e vestiários. Na cave: garagens, balneários, posto médico, vestiários, ginásios de manutenção, musculação e ginástica desportiva. Outros ginásios mais pequenos.

HISTÓRICO DE COMPETIÇÕES

Particular Selecção A

Portugal 4 – 0 Canadá (26/3/2005)

Campeonato Europeu Sub-21

Sérvia 0 – 1 Alemanha (23/5/2006) e Portugal 0 – 2 Sérvia (25/5/2006)

Qualificação Euro Sub-21 2011

Portugal 0 – 1 Inglaterra (3/9/2010)

Taça Regiões da UEFA

Braga 2 – 1 Leinster & Munster – Irlanda (28/6/2011)

Qualificação Euro Feminino 2013

Portugal 0 – 3 Dinamarca (26/10/2011)

Qualificação Euro Sub-19 2012

Hungria 5 – 0 San Marino (4/11/2011) e San Marino 0 – 6 Portugal (6/11/2011)

Qualificação Euro Sub-21 2013

Portugal 1 – 0 Rússia (1/6/2012)

Qualificação Euro Sub-19 2013

Rep. Checa 1 – 4 Portugal (6/6/2013) e Portugal 1 – 0 Dinamarca (9/6/2013)

Reportagem publicada na edição 178 do Jornal de Barcelos no dia 28 de Maio de 2014.

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