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Concerto Gisela João, Festa das Cruzes 2014

Fotografia: Eduardo Morgado

Igual a si própria, é assim que Gisela João é e quer continuar a ser. Por isso fala de forma espontânea, sem papas na língua, recorrendo frequentemente a expressões populares e até ao calão. Encontrámo-nos com a fadista de 30 anos na terça-feira, dia anterior ao concerto na Festa das Cruzes, quando acabava de chegar de Lisboa. Pelo caminho veio a pensar na genuinidade das pessoas do Minho e nas fortes tradições de Barcelos que ia reencontrar. E, claro, nos amigos e na família, que não via desde o Natal. O sucesso que atingiu com o disco de estreia vê-o como um filme em que ainda não assumiu ser a personagem principal. Gosta de cantar, mas não se deslumbra com a fama. Por detrás da postura irreverente está uma “miúda normal” que preza acima de tudo a liberdade para fazer o que quer e não tem medo de cortar com convenções ou recusar fazer o que não lhe apetece. “Não tenho tempo para fazer fretes, a vida é muito curta”.

É o primeiro concerto da Gisela em Barcelos após ter alcançado o sucesso, e logo nas festas emblemáticas da cidade. É um sentimento especial?

É espectacular. Vinha para cima a pensar que adorava ter lá comigo um rancho folclórico a dançar comigo o “Malhões e Viras”, mas é lógico que precisava de trabalhar com eles nem que fosse uma hora ou duas, um dia ou dois, para vermos como a coisa se fazia. Não pode ser assim em cima da hora, não gosto de fazer as coisas assim, nunca fiz. Depois lembro-me sempre dos artesanatos daqui, porque eu sou louca por artesanato, faço artesanato urbano… Artesanato urbano é o nome chique (risos). Faço bordados, bonecas de trapos. Se me puserem à frente o material para fazer as olarias também consigo fazer, lembro-me que em miúda fazia. Gosto muito, muito desta riqueza que há aqui, tenho saudades disso, e quando venho cá, venho sempre a pensar em ver essas coisas. Depois, a forma como as pessoas se riem aqui é diferente: é mesmo com vontade, e se não gostam de alguma coisa dizem logo. Gosto muito da alegria e do dramatismo todo que se vive aqui. É nisso que venho a pensar quando venho para cá: vou cantar para aquela malta que, quando está a curtir, está mesmo a curtir.

Mas tem grandes expectativas para o concerto?

Não gosto de criar muitas expectativas, porque já vivo com as expectativas dos outros. É uma coisa a que eu não tenho como fugir, porque a expectativa está criada, está lançada pelos média, entro pela casa das pessoas adentro sem pedir licença. As pessoas vêem-me na televisão e quando abrem os jornais, não fazem ideia de quem eu sou e começam a imaginar coisas consoante aquilo que lhes é dito. Tenho medo da imaginação, por um lado. Quando fui a Florença pela primeira vez, lembro-me que ia com uma imagem tão maravilhosa dentro da minha cabeça que, quando cheguei lá, o bonito daquilo não foi suficiente para a expectativa que eu tinha criado. A nossa imaginação leva-nos para sítios que mais ninguém consegue ir. E eu tenho medo disso, às vezes. O que eu posso garantir é que vou cantar e tentar fazer o meu melhor, que é o que quero fazer sempre, senão saio frustrada do palco, começo a chorar a meio do concerto e é logo um filme…

Já lhe aconteceu?

Já, porque prefiro estar quieta do que fazer por fazer. Nunca tive pretensão de ser famosa. O que eu gosto mesmo é de cantar e de fazer as pessoas sentirem coisas. A arte para mim é emotiva, é sensitiva. Tenho que fazer sentir coisas na pele, tenho que conseguir a atenção das pessoas e acho que é isso que um verdadeiro artista tem de ter. É só por aí que se pode ir, não é para agradar a ninguém. Se amanhã [quarta-feira] for para o palco a pensar: tenho que agradar àqueles meus amigos que andavam comigo na Gonçalo Pereira, quero agradar à minha família… não! A arte é transversal e a mensagem que eu passo é transversal, canto fado, que ainda por cima é uma coisa do povo, histórias de vida que toda a gente sentiu, como a dor de corno. Quero fazer sempre o meu melhor e quando vejo que às vezes o microfone não é aquele que gosto… Que eu até gosto do mais rasca que existe, por acaso descobri há pouco tempo. Pensei: vou ter que gastar para aí dois mil euros num microfone, não me digam? E disseram-me: “Não, Gisela, o teu custa para aí cem euros, gostas daquele que há em todo o lado”.

Mas não consegue afastar esse pensamento de que efectivamente vai estar a cantar na sua terra e mais do que nunca para os seus amigos.

Claro, quem não se sente não é filho de boa gente. Estou a dizer é que não gosto de criar expectativas em geral. Amanhã, sei que vou estar impossível. Ninguém vai poder falar para mim, chatear-me com muitas perguntas. Estou sempre a falar, que é o meu grave problema, é a forma como se estraga mais a garganta.

É sempre assim?

Sim, mas amanhã mais. Embora esteja mudado substancialmente, tenho memórias em todos os metros quadrados aqui do centro da cidade, porque era onde eu vivia, onde fiz a escola, onde ia para a noite com os meus amigos.

“ESTOU A RECIBOS VERDES, QUE ME COBRAM À FORÇA TODA”

Ainda costuma vir muitas vezes a Barcelos?

Não tenho tempo, infelizmente, porque vivo em Lisboa e trabalho a recibos verdes. Isto é tudo muito bonito, apareço na televisão, nas revistas e tal, mas não sei quando vou ter trabalho. Tenho um concerto amanhã, por exemplo, e posso estar dois meses sem ter outro; ou ter trabalho no Verão e passar meses inteiros sem concertos. E estou a recibos verdes, que me cobram à força toda. E viver em Lisboa não é o mesmo que viver em Barcelos. Não pagas 250 euros pela renda de uma casa, pagas 500 euros, e com muita sorte, por uma casquinha de noz. Ou seja, tenho que aproveitar tudo o que me aparecer de trabalho em Lisboa, porque cada vez que saio de lá estou a perder trabalho e a ter despesa. O máximo que venho é ao Porto, e porque é em trabalho também, e estou com os amigos e tal. Mas gostava de vir cá mais vezes.

A pergunta é recorrente: é impossível fazer uma carreira na música fora de Lisboa?

É difícil. Ainda no outro dia o Sérgio Godinho estava-me a dizer: “não tens de viver em Lisboa”. Eu disse-lhe: pois, claro, tu podes falar assim… Ele estava a dizer que era do Porto e que esteve fora e tal, mas os anos são outros. O Sérgio tem a carreira que tem, tem concertos, recebe os seus royalties todos os anos. São realidades diferentes. Eu acho que é preciso estar em Lisboa, principalmente nas artes.

Se tivesse ficado em Barcelos não teria conseguido?

Não, porque é muito a coisa do momento. Eu vivia no Porto e comecei a ir a Lisboa para conhecer o meio. Fui lá uma noite, fui outra noite e mais do que uma vez me perguntaram: “olha, amanhã queres vir lá cantar?”. É uma coisa de oportunidade, aparece e estás ali. Depois de ir a Lisboa algumas vezes, e como já tinha sítio onde ficar, já era recorrente, o Hélder [Moutinho] diz-me um dia: “olha, vou levar-te ali a um sítio”. Levou-me ao Sr. Vinho. A Maria [proprietária da casa de fados] convidou-me para ficar lá. Se eu não estivesse a viver em Lisboa ou se naquele dia tivesse que voltar para o Porto, se calhar não tinha ido ao Sr. Vinho e a Maria não me tinha convidado. É sempre um pau de dois bicos, porque como tens mais oferta de trabalho, também tens mais procura por parte de trabalhadores, porque é uma cidade grande e vai lá muita gente para tentar. Mas acho que as coisas não caem do céu, se tu trabalhares mesmo e se tiveres mesmo nascido para aquilo, não me venham com o discurso de que são sete cães a um osso. E quando eu digo trabalhar mesmo é deixares de estar com a família, com os amigos… Não estou com a minha família desde o Natal, vou estar com eles agora. A minha amiga que mora a dez metros de mim, em Lisboa, não me põe a vista em cima desde o início de Fevereiro. Tenho que ser muito regrada. Tenho que ficar em casa com os meus gatos, sozinha, a ouvir música. Falo pelas redes sociais que é para descansar.

Como é o seu dia-a-dia?

Tenho que descansar muito, é muito importante para a garganta e como sou meio hiperactiva dormir não é fácil. Adormeço por volta da meia-noite e meia, uma. Gosto de acordar cedo, porque acho que de manhã é que se ganha o dia. Acordo às nove, faço o meu pequeno-almoço, começo logo a ouvir músicas – são elas que me escolhem a mim. Há duas semanas estive a fazer os concertos com o Sérgio [Godinho] no Teatro S. Luiz e tinha de cantar três músicas. O gajo não sabe escrever duas quadras só, são textos gigantes e, no tempo antes do concerto, passei 24 horas sobre 24 horas a ouvir aquelas três músicas. Que é para decorar e aquilo ficar dentro de mim, conseguir que a melodia se torne minha para depois poder interpretar à minha maneira. Faço os meus bordados, faço pesquisa de músicas. Estou sempre a ouvir música. Gosto muito de música. Confesso que não estou muito actualizada com o que vai acontecendo hoje em dia, porque vou descobrindo ao contrário, para trás, não o que sai de novo.

O que está a ouvir agora?

Ao vir para cima vinha a fazer uma estupidez, porque gosto de ter a minha equipa sempre bem-disposta. Gosto de brincar. Às vezes páro para pensar que se calhar é porque canto fado e lido muito de perto com poemas que falam da parte mais intensa, mais dramática da vida. Vinha no caminho a fazer um remember de músicas que me lembro de dançar na minha infância: [começa a cantar] “Dançando lambada”, “Tieta do agreste”, “Já fui ao brasil…”. Mas isso era por brincadeira. Nesta altura ando a ouvir muito o Donny Hathaway. Sempre gostei muito, mas depois há alturas em que vou ouvir mais. Acho que a música é muito como os livros, não somos nós que os escolhemos, são eles que nos escolhem a nós. É frase feita, mas é verdade. Já me aconteceu de ouvir músicas e pensar: ya, ok… Não dou muito tempo porque não gosto de me forçar a gostar de alguma coisa. Ou gosto ou não gosto. E se não gosto hoje, se calhar gosto amanhã. Se não dá, é porque não tinha que ser. É como as relações. A minha avó sempre me disse: “Quando for para ser, é”.

Falou na sua avó. Em todas, ou praticamente todas, as entrevistas menciona-a.

Eu cresci com a minha avó Micas. Fui criada com ela. Lembro-me que ela me dizia sempre uma frase: “Filhinha, pobrezinha, mas sempre limpinha, sempre honesta”. Isto é só um exemplo dos valores que me foram incutidos, orgulho-me muito deles. Eu não era a Gisela que sou hoje se não tivesse começado com esses valores, porque não teria regido a minha vida por esses pontos de referência que me deram. O exemplo de mulher forte, eu acho que o temos todos naqueles com quem nós crescemos. A minha avó é a melhor do mundo, mas para ti é a tua. Faço sempre questão de falar disso, porque é daí que eu venho, eu sou essa Gisela.

“NÃO TENHO PENA NENHUMA DE MIM”

Noutra entrevista disse que já estava um bocado farta de os média explorarem o facto de ter nascido numa família humilde…

Sim.

Mas também nunca escondeu isso, tem orgulho.

Tenho muito orgulho.

Não gosta é que façam de si a coitadinha…

É isso! Porque o público gosta muito disso, senão não existiam revistas Maria, Big Brothers. É a forma fácil de se fazer jornalismo, porque já sabes à partida que se falares de alguém que teve uma infância difícil e não sei quê, o povo gosta disso. Por isso é que tens revistas cor-de-rosa que só falam da vida das pessoas. Tens pessoas que não fazem um charuto, mas são famosas e aparecem em todas as revistas, porquê? Porque vão lavar roupa suja e falar da vida privada. A vida privada é minha e ninguém tem nada a ver com isso. O que me chateia é que aquela coisa do coitadinha… Isso seria eu vender-me de uma forma fácil. Falo disso à vontade, porque não tenho vergonha nenhuma de onde vim, sou a primeira a contar. Não quero é que as pessoas gostem de mim por isso. Quero que as pessoas conheçam o meu trabalho. E se gostarem é do meu trabalho e se me derem valor é por isso, não é por terem pena de mim, porque eu era a mais velha de sete irmãos. Eu não tenha pena nenhuma de mim. Nenhuma. Acho que pena é o pior sentimento que se pode ter de alguém. É um horror. Quero que as pessoas dêem valor ao trabalho. Há muitas perguntas para se fazer. Às vezes eu ficava cansada da minha própria história. Há tantas coisas para falar. Até uma miúda com dez anos chega ao pé do artista e pergunta: “o teu papá?, a tua mamã,? onde é que tu moravas?”. É que nem dá pica para dar entrevistas.

Com este disco muitos críticos, entre eles o Miguel Esteves Cardoso, disseram que era a melhor voz do fado desde a Amália…

Fui eu que lhes paguei (risos).

Mas é um fardo difícil de carregar. O que sente quando lê essas coisas?

Faço de conta que não sou eu. Sou muito exigente comigo, mesmo. Claro que fiquei feliz com todas as críticas maravilhosas que saíram ao meu trabalho, mas dizer bem é fácil. Eu quero é fazer sempre mais, preciso de trabalhar muito. Se eu preciso de trabalhar, não tenho tempo para estar sentada ao sol na esplanada, a beber umas bejecas e a dizer que aquele escreveu fixe sobre mim e está tudo. Porque esta coisa da fama é muito rápido, como diz aquela máxima: “para chegares lá acima demora muito tempo, mas para vires cá para baixo é num instante”. Os média fazem com que o público conheça ou não, mais ou menos, um artista. Amanhã se calhar já não tenho muito interesse, porque o disco já saiu há um ano, não tenho nada novo… Eu tenho é que trabalhar. Claro que fiquei feliz com essas críticas. Qualquer pessoa que faz o seu trabalho gosta de ser reconhecida. Eu gosto de dar parabéns aos meus amigos. Se os meus músicos fazem uma malha boa, sou a primeira a dizer: que fixe que ficou! Toda a gente tem que ficar feliz, mas não posso esquecer é o trabalho.

O disco foi o melhor do ano para a Blitz e o Público e integrou o top ten do Expresso. Ganhou o Prémio Revelação Amália, o Prémio José Afonso e agora está nomeada para os Globos de Ouro. Além do óbvio reconhecimento do trabalho, o que é que isto tudo lhe diz?

Não tenho televisão em casa, é menos uma coisa a prender-me a atenção, assim fico mesmo só com música e livros. E às vezes as minhas amigas a brincar enviam-me mensagens a dizer “acabei de ver uma menina a sonhar na televisão”, que é quando aparece alguma coisa minha. Estou sempre a dizer que estou a ver isto tudo como se fosse um filme e, de repente, pronto, parece que sou eu. É a única forma de explicar como tenho sentido o que me tem acontecido. Nem sequer acredito, ainda não assumi que sou eu, porque sou uma miúda normal, como outra qualquer. Tenho a sorte ou o azar de a minha profissão ser mediática. O trabalho do senhor João que vende laranjas ao lado de minha casa é muito importante, só que a profissão dele não aparece na televisão.

Voltámos a uma questão que abordámos no início, que são as expectativas. Quando os artistas lançam um primeiro disco com o sucesso que este teve…

No segundo já está tudo com a faca apontada para cortar… Estou-me cagando para isso.

Mas como é que gere isso? Pensa: “o próximo álbum tem que ser mesmo bom, senão estou tramada”?

Não. Penso que o próximo álbum tem que ser exactamente como este: simples. Eu gosto de música simples, não gosto de artimanhas. Não tenho pressa nenhuma, se o disco sair para o ano, sai, se sair daqui a três ou cinco anos, sai. Quero é ser muito verdadeira comigo. Já tenho dito à malta que me está a oferecer poemas e músicas, porque é muito difícil para mim dizer não, que para este disco já tomei uma decisão, que é: queres oferecer um poema? Tudo bem, mas é sem compromisso, vai para a minha caixinha, vou guardando lá as coisas, e no dia em que sentir que estou com vontade de trabalhar a sério no disco, vou ver. Se me sentir bem a cantar, canto, senão não canto. É para me proteger, porque se me estás a dar um poema todo contente e eu fico também toda contente, mas depois… Não canto porque quero cantar. Canto porque preciso de cantar. Há dias em que acordo e em que não me apetece cantar, escusam de vir. Para se gravar um disco é a mesma coisa. Cantar um poema porque foi um amigo que mo deu e eu gosto muito dele, esse peso lixa-me a vida. Se gravar um disco a pensar que quero agradar a este ou àquele estou lixada. Porque nunca vou agradar a toda gente. A minha preocupação é fazer tudo muito igual a mim própria. As pessoas têm que entender que eu faço música para o público, mas também não posso fugir daquilo que sou. Posso garantir que nunca vou gravar uma música com alguém muito mediático como uma forma fácil de chegar ao público. Só o farei se o trabalho do artista tiver alguma coisa a ver comigo. Se fosse o JP [Simões], já fiz coisas com ele, é meu amigo. Mesmo que não fosse, gosto do trabalho dele. Para cantar com o Sérgio Godinho, não têm que me pagar sequer, é uma referência do meu universo musical.

A Gisela João disse numa altura que muita gente a abordava a dizer “a fadista x é que deve estar muito chateada com o seu sucesso”…

Detesto essas conversas.

Como é o meio musical, concretamente no fado? As pessoas dão-se bem ou há esse tipo de tricas?

Não sou de todo a melhor pessoa para responder, porque em primeiro lugar não sou de Lisboa, logo por aí a minha postura é diferente. Não estou nos fados, porque não tenho tempo. Lido mais com cantores de outras áreas e damo-nos bem. Quando vêm com essas histórias… O povo gosta de tricas. Com as colegas que conheço damo-nos todas bem. Fico realmente feliz, fico mesmo, quando vejo uma colega minha ter algum sucesso. É bom. É sempre bom para nós até enquanto nação. Então, a Ana Moura aparece no Jools Holland e eu não vou ficar feliz? Sinto isso até com a malta de Barcelos. Sinto pelo Facebook o carinho com que falam de mim. No outro dia fiz um post qualquer e houve alguém que era de Barcelos, que eu não conheço, a dizer “vamos apoiar a nossa Gisela”. É emocionante, é lindo.

“NÃO CASTREM AS PESSOAS, É O QUE PEÇO”

A imagem da Gisela – até uma das suas fotos promocionais mais conhecidas é com um cigarro, sapatilhas All Star e calção curto – é uma imagem irreverente que depois contrasta com a faceta mais tradicionalista do fado. Como é que a miúda irreverente se enquadra no fado de que gosta, que é o mais tradicional?

É, gosto de música crua e o fado gosto dele tradicional. Mas sou assim na minha vida. Tinha 15 anos, ia para o Vaticano e ao mesmo tempo já cantava fado. Vês as minhas playlistas e se meteres a tocar no shuffle de repente estás a ouvir trance e a seguir Schubert; ou tens Philip Glass e a seguir os cantares alentejanos; começam uns malhões e uns viras e a seguir tens o Chet Baker. Gosto de pôr um vestido clássico e calçar umas sapatilhas podres. Desde que me lembro, sempre fui assim. Gosto muito de ditados populares, porque têm todos um fundo de verdade, e há um que é “não é por te vestires da feira que és da feira”. E é verdade. Não é por te vestires de fadista que és fadista, não é por te vestires de advogado que és advogado. Gosto muito do meu país, e quanto mais saio mais gosto, mas reconheço à distância coisas que sempre soube e sempre senti, que é este puritanismo, estes velhos do restelo. “As coisas costumam-se fazer assim”. Abomino essa frase. O que interessa é o que tu queres fazer, a tua liberdade. Em média tens 70 e poucos anos por cá, é muito pouco tempo. Não castrem as pessoas, é o que eu peço.

Acho que essa postura mais irreverente acabou por levar malta que não tinha nada a ver com o fado, até por causa desse lado cinzento, a ouvir Gisela João. Tem essa noção?

Tenho, então não tenho? Ainda vivia cá em Barcelos, cantava na Adega Lusitana, e lembro-me sempre disso, de ter malta jovem, os meus e amigos dos meus amigos, que me iam ouvir. E mesmo quando fui para o Porto e depois para Lisboa acontecia a mesma coisa. Sempre tive muita malta jovem a ouvir-me. Adoro isso, que é o abrir a porta para alguém conhecer uma arte. Para já, podem dizer que só me conhecem a mim, mas daqui a uns tempos tenho a certeza de que vão ouvir outras coisas e vão descobrir toda uma panóplia incrível de artistas. Isso é o que me dá mais gozo. Um puto de 14 anos ver uma senhora toda vestida de preto – não tenho nada contra – e com ar muito sério a olhar para cima como se fosse nascer a Nossa Senhora… O puto não vai ter interesse nenhum. Mas não fiz essa imagem por causa disso. Essa imagem sou eu. Essa foto em que estou a fumar um cigarro, aquilo nem foi uma sessão fotográfica para o disco. Foi uma sessão fotográfica com a minha amiga Estelle [Valente], porque um amigo nosso tinha um prédio lá em Lisboa no qual ia começar umas obras para fazer lá um hotel e, uma semana antes de as obras começarem, ele disse-nos para irmos fazer umas fotografias de despedida da casa, que estava toda a cair de podre. E eu saí de casa, peguei em roupas minhas, não estava maquilhada sequer, não tinha cabelo de cabeleireiro. Visto aquilo no dia-a-dia. Se estás a mostrar o que és, ninguém te pode criticar. Se criares uma imagem que é aquilo que queres que as pessoas vejam em ti, esquece. Porque vai haver um dia em que acordas mal disposto e não estás com discernimento para segurar essa personagem e algo não vai bater bem ali

Ia ao Vaticano, ouvia trance… Como chegou ao fado?

(risos) Pois era. Era miúda e ouvi o “Deus Me Perdoe” na Rádio Barcelos e o poema disse-me muito, não me perguntem porquê. Porque é que eu canto fado? Se calhar, era mesmo pelo facto de ter seis irmãos mais novos e tomar conta deles e ter uma responsabilidade acrescida, por ser muito nova e já sentir a vida de outra forma. Queria ser designer de moda, só que sempre cantei paralelamente. Tenho amigos que curtem ir jogar à bola uma vez por semana, eu gostava de ir cantar. Cantava no restaurante, às vezes num evento privado. A primeira coisa que eu fiz quando fui para Lisboa foi arranjar um trabalho durante o dia. Trabalhava à noite a cantar, mas para mim aquilo era o meu hobbie. Até ao momento em que saiu o disco e correu tudo muito bem, aí é que pensei: é mesmo isto. Mas se isto correr mal e amanhã tiver que ir fazer outra coisa qualquer, vou e não me cai nada ao chão.

Ter-se-á perdido uma grande designer de moda?

Ah, eu continuo a fazer roupas minhas. Comecei a fazer um vestido no sábado à noite, que já está pronto, só falta fazer a bainha, para ver se usava aqui. Viajo sempre com tecidos comigo, seja para onde for. Levo sempre uma agulha e um carrinho de linhas. Levo sempre um retalho na mala, quando não levo os meus bordados todos. Tenho que me sentir bem. Se eu for para o palco com um vestido que toda a gente diz que é muito lindo mas no qual não me sinto bem… Às vezes acontece-me uma hora antes dizer “eu não consigo vestir isto”. E elas dizem-me: “mas tu gostavas tanto deste vestido”. E eu respondo: “Ok, mas já não me apetece”. Pego numa tesoura, corto, faço uma coisa qualquer e já está. Podem dizer que está feio, mas eu sinto-me bem e é isso que é preciso.

Nunca se poderá esperar que a Gisela faça algo contrariada?

Já fiz muita coisa contrariada. Trabalhei em sítios em que não queria trabalhar, lidei com atendimento ao público, que é muito ingrato… Passei por isso muitos anos. Não tenho tempo para fazer fretes, a vida é muito curta. Posso dizer que me convidaram para fazer uma coisa que me ia dar uma popularidade tremenda em Portugal, um programa de televisão que vai começar, e até me pagavam muito bem, mas eu não quis. Não é por ali. Penso assim: se já consegui viver com 400 euros por mês, vou conseguir viver com 400 euros por mês. Se vierem 20 ou 30 mil, porreiro… Se não puderes comer caviar, comes salsichas e atum.

A Gisela tem uma beleza natural, mas é vaidosa? Passa muito tempo ao espelho?

Passo (risos). Costumo dizer na brincadeira que sou muito peneirenta. Mas não me arranjo para os outros, nem para ficar muito bonita. Tenho brio, não sou peneirenta, não sou uma armante. Acho que as pessoas devem ter brio nelas, devem-se arranjar, tanto os homens como as mulheres. Tenho brio em mim.

Ídolos?

Amália, Camané, adorava o Marco Paulo quando tinha cinco anos. Ella Fitzgerald, desde muito nova mesmo. Billy Holliday e Sinatra, também desde muito nova, porque a minha mãe ouvia. O Chico Buarque também. Depois, Kraftwerk, Air, Steve Reich, Laurie Anderson, Massive Atack.

Comida preferida?

Não consigo ter uma só. Adoro papas de sarrabulho, cozido à portuguesa, rojões, bacalhau assado na brasa, raia frita, feijoada, panados, frango de churrasco, arroz de tomate, arroz malandrinho…

Bebida preferida?

Água. Se não tenho água perto de mim, fico doida.

Clube?

Porto. E o Óquei de Barcelos, mas pronto [expressão facial como quem diz “já não é o que era”].

Destino de sonho?

Gosto muito de história da arte. Todos os países que têm uma história forte e de muitos anos atraem-me muito. Mas este ano não acaba sem eu arranjar um tempinho para ir ao Bali.

Filmes preferidos?

No outro dia vi um filme que já não via há muito tempo, “Esplendor na Relva”, que é do Elia Kazan, anos 60. É um absurdo de lindo, de natureza humana, de amor.

Livros?

Os ensaios do Eduardo Lourenço. “O Labirinto da Saudade” é maravilhoso. Mas gosto sempre de falar de um livro que foi o que me despertou para a leitura – até aí, para mim, ler era uma seca – que foi “A Casa dos Espíritos”, da Isabel Allende. Eu era miúda, tinha para aí 13 anos, aluguei-o na Biblioteca Municipal e li-o num instante. Li aquilo a chorar baba e ranho e, quando acabei o livro, virei-o e comecei a lê-lo outra vez.

 Séries, costuma ver?

Bué! Quando viajo, como tenho que ter muito cuidado com a diferença de temperaturas, fico no hotel a ver séries, papo-as todas. Game of Thrones, claro. O argumento é incrivelmente bem escrito. Depois há as antigas de culto que não passo sem as ver. Todas as semanas vou ver um episódio dos Friends ou do Seinfeld.

Entrevista publicada na edição 175 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 7 de Maio de 2014.

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