Home
01

Os Rós

Desenhar a árvore genealógica do rock’n roll em Barcelos obriga-nos a viajar até à década de 60, aos anos do yé-yé, em que as bandas eram conjuntos académicos, o PA era chamado de instalação (isto quando as guitarras não eram ligadas a rádios), os concertos eram bailes em que os grupos tocavam horas seguidas. É recuar a tempos em que os músicos se vestiam de fato, e nos espectáculos, por entre músicas dos The Beatles ou Rolling Stones, tocavam slows, música italiana e francesa.

Os Rós foram os primeiros e os Celos os que chegaram mais longe. O leque era composto pel’Os Galos e pel’Os Mísseis. Com percursos mais longos ou mais efémeros, as universidades ou a guerra colonial acabaram por ditar o fim destas quatro bandas que foram o embrião do rock – ou da música moderna, se assim o quisermos – em Barcelos.

Ora, mais de cinquenta anos depois, quando o país olha para Barcelos como uma cidade onde o rock é senhor (chegaram a pôr-lhe o epíteto de “capital do rock”) e de onde saem alguns dos mais interessantes e criativos projectos musicais da actualidade, o JB chegou à fala com alguns protagonistas dessa época. Os avós do rock em Barcelos.

CELOS TOCARAM NO PRIMEIRO VILAR DE MOUROS

“Eu não sei o que te espera / nesta terra ou no além / terás paz ou terás guerra / serás um ou serás cem / eu só sei que o rock rola em Barcelos”, a letra deste tema dos Rendimento Mínimo, que se tornaria um autêntico hino, é profética. Aconteça o que acontecer, em Barcelos rock vai haver sempre. Se agora temos os Black Bombaim ou os The Glockenwise a correr o país e a Europa, nos anos 90 tivemos os The Astonishing Urbana Fall a fazer capa do Blitz (quando o jornal era uma referência) e a tocar nos principais festivais de Verão, mas a semente desta árvore que não pára de dar frutos já havia sido plantada na década de 60.

Vinte e cinco anos antes de os The Astonishing Urbana Fall tocarem em Vilar de Mouros, o que aconteceu em 1996, os Celos actuaram na primeira edição do “Woodstock português”.

Celos

Celos

O primeiro Vilar de Mouros aconteceu em 1971 nos dias 7 e 8 de Agosto. Além do conjunto de Barcelos, actuaram os Quarteto 1111 (de José Cid), Objectivo, Pentágono, Psico e Pop Five Music Incorporated. Estas bandas tocaram nos dois dias, um encabeçado por Elton John e outro por Manfred Mann.

“Foi a loucura total”, recorda Francisco Pimenta do Vale, o baixista do grupo, numa entrevista em 2012 ao jornal Rock Rola em Barcelos, distribuído com o JB. “Tirando os profissionais, éramos o melhor conjunto do Norte”, justifica assim o músico a presença no primeiro festival de música realizado em Portugal.

Vilar do Mouros acolheu 30 mil pessoas de todo o país. A pequena localidade minhota não estava preparada para tal afluência, a comida esgotou logo no primeiro dia e as filas de carros eram intermináveis. “Havia pessoal à boleia do Algarve até Caminha”, recorda Francisco Pimenta do Vale.

Nesta época, os Celos, cujo nome é uma referência à cidade onde nasceram, já eram um grupo experiente que vivia a segunda fase da sua carreira, que começou em 1962 e terminou em 1974. Com algumas alterações na formação, o percurso do grupo divide-se essencialmente em duas fases: a embrionária, na década de 60, e a mais arrojada, nos 70.

Joaquim Matos (guitarra solo), Domingos Ferreira (vocalista), José Manuel Pimenta do Vale (baterista), Francisco Pimenta do Vale (viola ritmo) e o falecido Sérgio Teixeira (baixo) compuseram a formação original que nasceu no Bagoeira, onde ensaiavam. Depois juntou-se-lhes durante algum tempo Mário Rodrigues (teclado). Entretanto, o baterista saía para ir combater na Guerra Colonial e era substituído por Justino Martins. Sérgio Teixeira também abandonou a banda para cumprir o serviço militar. Foi então que Francisco Pimenta do Vale passou para o baixo e, para o seu lugar, entrou José Carlos Encarnação. Ainda nesta primeira fase, Justino Martins deixou o conjunto e o vocalista Domingos Ferreira passou a acumular as funções de baterista. Mais tarde, Encarnação deixou a formação reduzida a quarteto. Depois de uma paragem de alguns meses, em 1970, José Manuel regressa do Ultramar com “ideias novas” e os Celos dão início a uma nova fase com quatro elementos originais – Joaquim Matos, Domingos Ferreira, Francisco e José Manuel Pimenta do Vale – mais Mário Cerqueira (teclado). Domingos Alves (saxofone e flauta) completou a formação.

Na segunda “vida” da banda, os Celos fazem um grande investimento e compram material que ainda hoje faria roer muitos músicos de inveja: guitarras e baixos Fender, órgão Hammond, bateria Ludwig e amplificadores Sound City. Tocavam temas de Shadows, Beatles, Rolling Stones, Os Titãs, Jethro Tull, Chicago, Blood Sweat and Tears, Black Sabbath ou Deep Purle. Chegaram a actuar em Espanha numa iniciativa em Pontevedra, cidade geminada com Barcelos.

A estreia foi no Bagoeira, numa festa de Natal, só para amigos e familiares, e na primeira aparição pública, no Casino de Afife, partilharam o palco com o Conjunto Alegria do qual fazia parte Quim Barreiros, a quem emprestaram a bateria. O último espectáculo dos Celos, cujo fim se deveu às vidas profissionais e pessoais dos seus elementos, aconteceu em 1974, no Pavilhão Municipal de Barcelos, e com eles tocou Pedro Osório que, na altura, trouxe consigo um contrabaixista que se estreava ao vivo e dava pelo nome de… Herman José.

GUERRA COLONIAL DITA O FIM D’OS MÍSSEIS

Nos finais de 60 e inícios de 70 a guerra no ultramar estava no seu auge. Os jovens eram obrigados a ir para a tropa. O serviço militar obrigatório foi uma das razões para o hiato musical no país entre essa fase inicial – em que brilharam bandas como os Chinchilas ou os The Sheiks, apelidados de “Beatles portugueses” – até sensivelmente ao início dos anos 80 em que se dá o “boom” do rock (em) português.

Os Mísseis

Os Mísseis

Se os Celos ainda conseguiram resistir à ida dos seus elementos para a Guerra Colonial, os seus contemporâneos Mísseis deram por terminada a carreira. “Entre 71 e 73 acabou por se dar o desmembramento do grupo. Houve um interregno motivado pelo serviço militar obrigatório, depois regressámos do ultramar e acabámos. Cada um foi-se desligando por razões várias”, conta o co-fundador Rui Ferros.

Formados em 1963 por “amigos da escola”, os Mísseis eram a mais nova das quatro bandas rock que existiram em Barcelos nos anos 60 e que abordamos nesta reportagem. O conjunto académico foi criado por Rui Ferros e João Galiza (violas) e Mário Pimenta (bateria) aos quais se juntaram Luís Silva (baixo) e Carlos Lourenço (voz). “Foram eles os três que tiveram a ideia. Depois vieram falar comigo, sabíamos que o Carlos Lourenço cantava bem e começámos a tocar”, relata Luís Silva.

Quando Mário Pimenta foi para a tropa, o vocalista Carlos Lourenço assumiu também a bateria. Para o órgão entrou Quim Zé. Com a saída para o serviço militar dos seus elementos, Os Mísseis foram sofrendo algumas alterações e haveriam de incorporar ainda Domingos Alves – que mais tarde faria parte dos Celos – para a secção de metais e José Joaquim no trompete.

O grupo tocou em hotéis como o Suave Mar, em Esposende, nos clubes da Apúlia e Vila Praia de Âncora, nas tardes yé-yé no Casino da Póvoa de Varzim, na Festa das Cruzes e em vários carnavais e passagens de ano.

Em alguns desses espectáculos Os Mísseis partilharam palco com os Celos, com os quais havia uma “rivalidade saudável”, uma vez que durante anos foram os únicos conjuntos académicos de Barcelos – os mais antigos, Os Rós e Os Galos, terminaram a meio da década de 60.

Prova de que a rivalidade era saudável é que Os Mísseis admitem que os Celos eram melhores. “Não atingimos o nível deles”, aponta Luís Silva, que é corroborado por Rui Ferros. “A diferença era grande em termos de qualidade. Posso dizer que os Celos eram melhores do que Os Mísseis em todos os aspectos: tinham melhores aparelhagens, melhores músicos, eram mais antigos… Nós surgimos depois, seguimos as pisadas deles. Havia uma rivalidade, mas saudável. Se precisássemos de alguma coisa uns dos outros, não havia problema”, lembra.

Como era comum nos conjuntos da época, Os Mísseis não tinham originais e interpretavam os temas das bandas que mais apreciavam. Os Beatles eram inevitáveis e os Rolling Stones já estavam na berra, mas tocavam também Ottis Redding, Procol Harum, Spencer Davis Group ou Bee Gees, entre outros. “Tocávamos por puro prazer e diversão”, destaca Luís Silva.

Em Barcelos tinham uma “grande claque” que os seguia como a “uma equipa de futebol”. E também tinham muitos admiradores em Braga, onde João Galiza e Rui Ferros estudavam.

OS RÓS FORAM OS PRIMEIROS A FAZER ROCK EM BARCELOS

A história rock em Barcelos começa a ser escrita entre 1959 / 1960 e são Os Rós que compõem o primeiro parágrafo. “Foram mesmo os primeiros”, realça Justiniano Monteiro, co-fundador e vocalista da banda, cuja formação inicial contou ainda com José Maria Teixeira (viola solo), Carlos Carvalho (piano), Francisco Serra (viola baixo), Sousinha (acordeão – já falecido) e Justino Martins (bateria). Mas outros elementos passaram pelo grupo que esteve activo mais ou menos cinco anos – acabou entre 1964 /1965. E alguns deles eram d’Os Galos. “Havia assim umas trocas”, recorda Justiniano Monteiro. Vejamos: Justino Martins, que era o baterista original d’Os Rós, passou para Os Galos (e ainda haveria de tocar nos Celos); já o baterista original d’Os Galos, Eduardo Encarnação, iria para os Rós; António Alves Afonso, baixista d’Os Galos, transitaria para Os Rós; o pianista Carlos Carvalho tocava em ambos. Afinal, Barcelos era uma cidade pequena em que todos se conheciam e eram amigos. “Entre nós não havia a ideia de compartimentação. Chegámos a pensar juntarmos os dois grupos”, recorda José Mariano Machado, co-fundador d’Os Galos. “A nossa ideia era curtir música, mais nada, era só isso que contava”, explica. E até “contracenaram” em palco por diversas vezes. “Os Rós foram mesmo os padrinhos de lançamento d’Os Galos”, aponta António Alves Afonso, que tocou nas duas bandas.

Mas detenhamo-nos, por enquanto, n’Os Rós, que mudaram algumas vezes de formação e por lá, além dos já referidos, passaram Carlos Basto (viola de acompanhamento e vibrafone) e Cândido Maciel (pianista que, segundo vários intervenientes nesta reportagem, era um músico de excelência. Numa época em que praticamente todos os instrumentistas eram autodidactas, Cândido Maciel, também conhecido por Dido, destacava-se pelo excelente ouvido e técnica). Não sendo músico, Jaime Bessa – já falecido – praticamente fazia parte da banda. Engenheiro electrotécnico, “era o homem do som” e, numa altura em que não era fácil ter bom material, “ele próprio fez uma câmara de reverberação”, não esquece Justiniano Monteiro.

Tocavam rock’n roll dos primórdios, como Elvis Presley ou Billy Haley, mas não só. “E muitas canções italianas, porque a música italiana estava muito em voga por causa dos festivais da canção”, refere Justiniano Monteiro. E foram apanhados pelo furacão musical dos quatro de Liverpool. “Ainda tocámos umas canções dos Beatles”, recorda.

Os concertos não eram concertos com o conceito actual, mas sim bailes que se prolongavam não raras vezes “quase a noite inteira, com uns intervalozinhos pelo meio”, regista o vocalista. Logo, era obrigatório ter um extenso e diversificado reportório. Os Rós “tinham à volta de oitenta músicas, do rock ao tango, havia de tudo, música espanhola, italiana, francesa”, realça António Alves Afonso.

Como mandavam os pergaminhos da época, também Os Rós tinham um “fatinho” para os concertos. “Tivemos um que era casaco azul e calça branca e depois outro que era todo branco”, lembra Justiniano Monteiro.

As actuações eram maioritariamente em Barcelos e nas cidades circundantes, mas chegaram a fazer três datas em Trás-os-Montes – Bragança, Vila Real e Chaves. Foi num desses espectáculos que aconteceu um dos episódios mais caricatos que Justiniano Monteiro recorda. Tocaram com outro grupo e, quando este estava em palco, os músicos d’Os Rós aproveitavam para se divertir e dançar com as raparigas que tinham ido ao baile. Acompanhadas pelas mães, como era usual. E o vocalista notou que algo diferente se passava: “A pessoa ia buscar a miúda e a mãe quase a empurrava: ‘vai dançar’. Havia uma solicitação fora do vulgar”. E a razão para tal só a souberam no final. O condutor do táxi em que os músicos fizeram a viagem – o material seguia na frente numa carrinha – e de quem eram amigos, Barroso, chegou ao local e começou a fazer “reclame” de que Os Rós tocavam apenas “por desporto” e que eram “milionários” com “pais muito ricos”, lembra, entre risos, Justiniano Monteiro.

Não o sendo, a verdade é que também não eram “propriamente proletários”, admite. Na generalidade, os músicos desta época eram de famílias de classe média, desafogadas, muitas delas ligadas ao comércio. “Para andar a estudar na altura era preciso os pais terem dinheiro, porque o ensino não era grátis, e quase toda a malta [das bandas] andava a estudar”, sublinha o vocalista d’Os Rós. O grupo terminou sensivelmente cinco anos após a sua formação exactamente porque os elementos foram “para a faculdade”.

GALOS, OS SHADOWS DE BARCELOS

O mesmo aconteceu com Os Galos, que começaram em 1960/1961 e em 1965  “praticamente desaparecem porque o pessoal começou a ir para a universidade”, diz José Mariano Machado, co-fundador do conjunto.

Os Galos

Os Galos

Os Galos eram inicialmente José Mariano Machado (viola solo), Adélio Coutinho (viola ritmo), Eduardo Encarnação (bateria) e António Alves Afonso (baixo). “Só guitarras e bateria. A nossa formação era tipo Shadows, autenticamente”, lembra José Mariano Machado. “O que gostávamos mesmo era do som dos Shadows”, reforça António Alves Afonso. Porém, entretanto surgiu a beatlemania. “O conjunto que nos veio flectir para a canção foram os Beatles, passaram a ser o nosso padrão”, refere o baixista que viria a acompanhar à viola reputados nomes do fado. “O aparecimento dos Beatles é uma coisa marcante”, concorda José Mariano Machado. E então entra para a voz Francisco Felgueiras, entrento falecido, conhecido por “Chico Poquinhas” (viria a ser presidente da Câmara de Cuba e de Ourique, no Alentejo), e Carlos Carvalho para o piano. Depois, Encarnação é substituído na bateria por Justino Martins, d’Os Rós e posteriormente dos Celos.

O início da banda dá-se na casa do pai de Adélio Coutinho, que tinha uma loja de cereais no centro da cidade, com umas “tábuas”, assim lhe chama José Mariano Machado para vincar a fraca qualidade das guitarras que, num processo “rudimentar”, eram ligadas a “rádios”.

O núcleo duro – Coutinho e Machado – junta-se aos amigos e a banda começa a ensaiar no quartel dos Bombeiros de Barcelos, no Largo Dr. José Novais (junto à Biblioteca Municipal). “Tinha uma sala com um piano, íamos para lá fazer barulho. Eu batia nos bombos. A princípio eu ia tocar bateria, mas o Eduardo Encarnação também queria tocar e ele só tocava bateria, então eu fui para o baixo”, recorda António Alves Afonso.

O grupo tocou, entre outros sítios, nas festas de Darque, na Assembleia de Viana do Castelo ou no Teatro Gil Vicente. “Tivemos algumas exibições, mas não procurávamos espectáculos com tanta evidência como Os Rós, que eram mais organizados, com uma certa tarimba”, compara o elemento que militou nos dois grupos.

José Mariano Machado, que nos anos 90 haveria de formar a banda constituída apenas por médicos Roncos e Sibilos (“são ruídos de auscultação e nós éramos todos pneumologistas”) que chegou a gravar discos e a tocar na televisão, olha para trás com orgulho por ter sido um dos precursores do rock em Barcelos, mas sem embandeirar em arco: “Se não fôssemos nós provavelmente teriam sido outros”. E recorda que “um homem que não é falado mas teve muita importância no advento de pessoas interessadas na música ligeira” na cidade foi o sr. Cecílio, da livraria, que “sabia solfejo” e “incentivou muita gente a tocar”.

Não se pode concluir que as bandas do yé-yé tiveram uma influência directa na actual cena rock de Barcelos, até porque não há gravações dessa altura e o fosso geracional é demasiado grande para os músicos de hoje conhecerem Os Rós, Os Mísseis, Os Galos ou Celos, mas foi aí que tudo começou. E apesar da diferença de cinco décadas, encontram-se semelhanças. Os The Glockenwise, das mais aclamadas bandas barcelenses da actualidade, dizem que começaram a tocar porque não tinham mais nada para fazer. É uma herança com 50 anos e da qual António Alves Afonso pinta o retrato: “A gente aborrecia-se à brava porque não havia nada para fazer, era uma cidade morta”.

Reportagem publicada na edição 188 (III Série) do Jornal de Barcelos no dia 6 de Agosto de 2014.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s