Home

carlos silvaÉ das figuras que mais batalham por uma solução de Governo à esquerda. Foi um dos rostos do Congresso das Alternativas Democráticas e do Manifesto 3D. Militante do PCP durante 20 anos, partido pelo qual foi duas vezes candidato à Câmara de Barcelos, tendo integrado também, em diferentes momentos, listas para as eleições legislativas e europeias. Saiu do PCP em 2013, integrou como independente a lista do BE às eleições europeias e, apesar das manifestas afinidades com o Bloco, mantém-se como independente. É deputado na Assembleia Municipal de Braga para a qual foi eleito como cabeça-de-lista dos independentes “Cidadania em Movimento”. Nascido em Abade de Neiva, mudou-se para Aguiar aos cinco anos e ali cresceu. Licenciou-se em Sociologia pela Universidade de Amesterdão (Holanda) e em Direito pela Universidade de Lisboa. Foi professor catedrático de Sociologia na Universidade do Minho e director do Departamento de Ciências Sociais naquela faculdade até Abril passado. Aposentou-se em Setembro. “Continuo a fazer investigação, mas não lecciono”. Manuel Carlos Silva recebeu o JB na sua casa, em Braga, para falar sobre a convulsão que vive a esquerda portuguesa, defendendo que PCP e BE devem estar abertos a um entendimento com o PS. 

É correcto falar de esquerda ou será mais preciso dizer esquerdas?

Talvez seja mais preciso dizer esquerdas, porque, de facto, há várias orientações e posicionamentos à esquerda. Desde o próprio PS, com algumas reservas do ponto de vista da prática da política macroeconómica, embora não tanto ponto de vista conceptual. Sobretudo no Governo, o PS não tem sido amiúde coerente com políticas de esquerda, mas, grosso modo, podemos dizer que o PS, PCP, BE e outros pequenos grupos e partidos que têm vindo a florar são das esquerdas.

Há uma parte da esquerda que normalmente diz que o PS não é de esquerda. Rejeita isso?

Rejeito. Há, apesar de tudo, alguns elementos de esquerda, e até consideráveis, no PS. Para além de uma base social de apoio que é, de facto, orientada à esquerda e uma parte do próprio PS que tem concepções e práticas de esquerda.

Por que é que, tendo essa base social de apoio maioritária de esquerda, depois, no Governo, essa prática não se concretiza?

Porque o PS, de resto como grande parte dos partidos sociais-democratas e trabalhistas europeus, tem tido um certo desvio ou uma acomodação à lógica do capitalismo e, nesse sentido, gere o sistema de uma forma semelhante aos partidos liberais ou, até, democratas-cristãos. Ou seja, tem, juntamente com outras forças e movimentos, uma afirmação e quota-parte nas conquistas do Estado-providência, uma orientação por políticas públicas, sobretudo as sociais, mais humanistas, mas na política governamental macroeconómica os partidos socialistas não têm cumprido o seu papel. E daí a perda de votação no quadro europeu: na Grécia, Espanha, França e noutros países, inclusive em Portugal, embora menos, porque o PS não tem estado ligado a duras políticas de austeridade e de empobrecimento, como as dos últimos três anos. Mas antes já começou com uma política de austeridade, que nem sempre ia ao encontro dos interesses e aspirações das classes trabalhadoras e do povo em geral. Isso já colocou, de certa maneira, o PS numa quase subordinação às lógicas europeias a favor do capital financeiro. E é nisso que o PS não tem sido coerente. Esperemos que no futuro o seja. Esse é o problema por que os partidos mais à esquerda não têm a confiança necessária para sequer encetarem uma negociação. Mas ela é necessária.

Foi uma das caras do Congresso das Alternativas Democráticas, que procurava uma solução de governo à esquerda…

E do Manifesto 3D também.

São duas plataformas que procuraram esse consenso. Mas, por exemplo, o 3D já acabou…

Penso que prematuramente. O Congresso das Alternativas é demasiado amplo, não tem uma orientação programática para a governação, mas tem linhas gerais. Tem um programa que dá muitíssimas orientações para essa governação, uma vez que estão inseridos vários partidos e independentes. A plataforma que tentou fazer essa convergência e criar alternativa à situação actual foi o 3D. E teve bastante adesão das pessoas. Simplesmente creio que houve uma táctica errada da comissão organizadora do próprio 3D, para além da fraca disponibilidade dos partidos à esquerda de se encontrarem numa plataforma comum. Não foi só o BE, o PCP também, embora não tenha sido abordado de modo mais insistente, do meu ponto de vista erradamente. Isso foi um erro da comissão organizadora. Não houve um esforço no sentido de que o próprio PCP fosse envolvido.

Mas acreditava que o PCP poderia colaborar nessa plataforma?

Não teria muitas expectativas, mas deveria ser envolvido porque tem responsabilidades políticas neste campo. À esquerda do PS é o partido com mais responsabilidade. Tem o dever político e ético de fazer com que haja uma resposta, que neste momento não existe. Para já, à esquerda do PS era possível fazer alguma coisa, com o PCP, o BE e outros, como o Livre, o MAS e outros pequenos grupos. Acho que há e haveria possibilidades de encontrar uma plataforma de entendimento. Não teriam que desidentificar-se com o seu próprio partido. Ter uma plataforma com uma programação mínima era possível. E é possível, só que não há vontade.

Saiu do PCP por isso?

Certamente foi um dos motivos, para além de uma certa discordância que tinha já em relação ao passado. No meu entender, o PCP, do ponto de vista organizativo e teórico, não avançou. Não quer dizer que não tenha sentido ou que tenha perdido a sua pertinência e utilidade. O PCP é importantíssimo, é bom que se diga. O PCP é importante e ainda é um partido…

Que é uma bóia de salvação para muita gente.

Exactamente. É importante não só pela sua influência política e partidária, mas também social, sindical e autárquica. O PCP tem uma importância muito relevante, no entanto não tem estado à altura da exigência de uma saída para a crise. Não tem responsabilidade no que os partidos à direita, e até o próprio PS, têm feito, mas tem responsabilidade na saída do problema. Não pode invocar sempre e constantemente, como aliás o BE em parte mas não tanto, o passado e as práticas do PS, embora seja verdade, porque essa alternativa tem que ser construída. Isso significa estar disponível para fazer concessões. Nem o PCP nem o BE podem ir junto do PS com a exigência do seu programa a 100%, terão que fazer concessões. Num programa eleitoral, num entendimento parlamentar ou de governo, há que haver concessões de parte a parte. O PS, esse sim, tem que fazer uma reanálise da sua posição, do seu passado e não cometer os mesmos erros no futuro. E sobretudo ter clareza nas sua orientações, porque o PS não é claro, tanto dá para guinar à direita com eventualmente à esquerda, isso sim que é crucial.

“BE DEVE MOSTRAR CLARAMENTE DISPONIBILIDADE PARA EVENTUAL COMPROMISSO GOVERNATIVO”

O que lhe parece o PS com António Costa?

Não temos nenhuma certeza de nada, prevalece a ambiguidade e a incerteza.

Há uma aproximação à esquerda, foi ao congresso do Livre, tem dito que a esquerda tem de querer governar…

Teremos que aguardar para ver, ou ver para crer.

Acredita que a votação do Livre nas europeias se mantenha nas legislativas?

Pode manter-se, mas é curioso ouvir o Rui Tavares dizer que é pela unidade e fazer um novo partido. Como é que alguém que diz que é pela unidade, que o BE não era suficientemente pela unidade… E ele nunca foi do BE, mas fez pior: não sendo do BE não teve a coerência de retirar o seu lugar do Parlamento Europeu.

Mas entretanto do BE saíram Daniel Oliveira, Ana Drago, Joana Amaral Dias, também com o mesmo argumento de que o Bloco não procura a governação.

O BE está a fazer um percurso que me parece interessante no sentido de que, pelo menos com a actual direcção, não tem uma atitude e um posicionamento isolacionista, considera necessário esse encontro à esquerda, mas é verdade que talvez no passado tenha actuado mais à imagem do PCP. O BE deve mostrar claramente que tem capacidade e disponibilidade para um eventual compromisso governativo, desde que haja um mínimo de princípios e orientações que defendam algumas coisas básicas, como sejam o Estado Social, a redução da austeridade, a reposição dos cortes nos salários e pensões e uma política de afirmação em relação à Europa.

Quanto ao BE, depois destas dissidências e agora com a disputa pela liderança, o que poderá acontecer na convenção de Novembro?

Estou com receio de alguma nova clivagem. Espero que haja o bom senso, quer de uma parte quer de outra, para encontrar uma fórmula que seja de convergência. É fundamental não só para o BE, mas para a esquerda portuguesa e para o país.

O que acha da liderança bicéfala? O Pedro Filipe Soares tem razão na avaliação que faz de que não teve sucesso?

Não é a matéria fundamental no BE. Do ponto de vista da paridade é correcto, pode ser talvez reconsiderada a forma de funcionamento e, sobretudo, a eventual distribuição de funções, mas o problema não está aí. E até o próprio Pedro Filipe Soares nunca terá tido até agora objecções a essa direcção bicéfala.

Foi uma das razões que o levaram a avançar.

Sim, mas isso é dito agora. É preciso é ver porque é que é dito agora. É negativo criar mais uma clivagem no BE quando no essencial estão de acordo. Embora haja alguns que pensam que há que fazer um esforço de aproximação a outros partidos, inclusivamente ao PS, e outros, minoritários ou talvez não tão expressivos, que acham que o BE nunca deverá governar com o PS, porque este é, digamos, um partido traidor dos interesses dos trabalhadores. É isso que entendem alguns de um certo radicalismo muito próximo do PCP. Essa tendência dentro do BE não me parece ser saudável e realista. (…) Não tendo no horizonte a capacidade de contribuir para uma solução parlamentar ou governativa estão, para além das boas intenções e retóricas, a fazer objectivamente o jogo da direita.

É possível em Portugal haver um Governo de esquerda sem o PS?

Neste momento não é possível, no futuro não sabemos. De momento não há condições, o que tem a ver com a relativa baixa consciência política do povo português, que não é culpa dele, mas da intoxicação mediática, das clientelas, do enorme poder dos interesses instalados. Em termos de movimentos sociais há um baixo nível de organização. Salvo os sindicatos e algumas organizações mais aguerridas, não há na sociedade portuguesa um alto grau de mobilização; salvo algumas esporádicas movimentações, de manifestações, como o 15 de Março e o “Que se lixe a Troika”, até induzidos por grupos activistas, mas, contrariamente ao Podemos em Espanha, não tiveram sequência.

Em Espanha essa manifestações como tivemos aqui evoluíram para o Podemos que está a alcançar o PSOE. Na Grécia, o Syriza ganhou as europeias e nas próximas eleições estará a discutir o Governo. Por que é que isto não acontece em Portugal?

É justamente o que estávamos a falar: era necessário haver organização. Se estes movimentos ou grupos políticos próximos tivessem capacidade de mobilizar como em Espanha, mas sobretudo como o Syriza, de um modo mais organizativo como partido politico, certamente poderiam ter mais um bocado de expressão. Por um lado, temos a fragmentação à esquerda – é o grave problema neste momento – e, por outro, temos elites político-partidárias desligadas dos interesses e das preocupações da população. É uma elite que está orientada para os lugares, para o poder, para o Governo e não tem capacidade de mobilizar a população. E a esquerda, que deveria ter esse papel, tampouco o está a ter suficientemente, não tem capacidade. A desafeição, o descrédito e o fechamento em torno dos partidos ditos do arco da governação não deixam espaço a que haja uma alternativa real. Por outro lado, à desafeição das elites corresponde um não envolvimento e mobilização da sociedade civil, por isso é que o drama é maior.

“NA ESQUERDA HÁ UMA POLÍTICA DE NÃO SUJAR AS MÃOS”

Nas primárias do PS houve uma mobilização. Isto pode mudar alguma coisa? Como vê as primárias, vieram para ficar?

Creio que vieram para ficar, mas não creio que daí resulte o milagre da solução do problema, porque há diversas motivações na mobilização: porque diziam não se rever no António José Seguro como líder, porque não teria a capacidade de mobilização para as eleições, que é o que está em jogo; por outro lado, muita gente se mobilizou porque se pressentia o vencedor e já se estava a posicionar. Se isso corresponde a uma mobilização profunda da sociedade portuguesa, não creio que seja tanto assim, até porque a maior parte das pessoas, infelizmente, tem uma atitude de relativo distanciamento, alheamento. (…) Claro que para os partidos à esquerda do PS pode ser negativo. Pode acontecer que o António Costa tenha alguma capacidade de mobilização maior.

Pode determinar o fim do BE?

Não necessariamente, mas pode fazer estragos em termos eleitorais. E, embora não tanto, o próprio PCP pode perder.

O PCP tem um voto muito militante.

Não é líquido. O PCP também pode perder com este novo cenário. O PS, se tivesse alguns deputados que lhe pudessem vir de pequenos partidos estaria disponível, mas ainda não foi claro e receio que possa, numa situação limite, se não conseguir maioria absoluta, como é provável…

Coligar-se com o CDS?

Não me admirava muito, infelizmente. E será aí o teste: até que ponto António Costa está de preferência orientado mais à esquerda ou prefere uma muleta, que será o CDS? Isso é que será de recear. Podem-me dizer que ele não se pode manifestar porque não quer gastar já os cartuchos todos e ir buscar votos à direita. Tudo bem! Mas podia ser mais claro pelo menos na aproximação a negociações à esquerda. Claro que foi ao Livre, porque se tiver hipoteticamente um deputado pode ser necessário, mas não creio que seja uma orientação clara. Porque aí tinha que o fazer, no meu entender, não era com o Livre, era com o PCP e com o BE. E se o PCP, por razões ideológicas, entende que não deve ir para o Governo, porque não quer fazer nenhuma aliança ou entendimento, pode fazê-lo com o BE, desde que este esteja disponível. Essa é a questão que o BE deve assumir. Não tem que ter complexos de que o acusem de reformista, tem que assumir a possibilidade de ser uma alternativa com o PS, eventualmente também com o PCP, não pode é descartar-se. (…) Na esquerda há uma política de purismo: não se engajar, não sujar as mãos, não se meter na governação, que parece algo comprometedor. Aí está o erro. Se olharmos para a grande parte da população, o que ela está à espera não é do socialismo, porque esse não é para já, mas de uma alternativa real vinda do PS e dos outros partidos à esquerda.

No plano nacional, o PCP é reticente a coligações com outros partidos, mas a nível autárquico não tem problemas em coligar-se com o PSD. Como explica isto?

É uma visão instrumentalista da política que eu não subscrevo. Creio que o PCP deve estar mais aberto a um entendimento com o PS, com o BE ou com outros partidos à esquerda, do que a fazer entendimentos tácticos, instrumentais, acomodatícios, com o PSD. Não é que seja de excluir, se for necessário salvaguardar alguns interesses ou propostas, porque o PSD é um partido democrático, não há que ter complexos.

Nas últimas autárquicas acabou por ser vítima desta relutância do PCP. Foi proposto pelo BE como candidato à Câmara de Barcelos pelos dois partidos e o PCP rejeitou. Ficou magoado?

Não, não fiquei absolutamente magoado. Do ponto de vista pessoal, não me aquece nem arrefece, o que estava em jogo não era o meu protagonismo enquanto candidato, era uma fórmula que podia ser aplicada noutras situações, não só em Barcelos, mas que o PCP não quer. Neste caso, o PCP não queria não só porque não tem feito esse trajecto de aproximação e conjugação com o BE a nível nacional, mas porque eu era algo dissidente em relação à concepção programática, sobretudo teórica e organizativa, do partido. Certamente que não seria uma pessoa bem-vinda. Ainda no quadro da CDU já havia sido proposto pelos camaradas de Barcelos e a direcção distrital ou nacional, não sei nem me interessa, terá dito: “ele já está bastante idoso e tal… temos que ter renovação”. Renovação só do ponto de vista da idade.

O PCP renova quadros, mas o discurso não muda. Não há renovação política.

É só renovação etária, porque de facto não há renovação política no sentido profundo da palavra. Nos direitos das mulheres, das minorias étnicas, dos emigrantes, na questão da prostituição, na abordagem a certo tipo de problemas que do ponto de vista tradicional marxista não eram trazidos a debate e que hoje evidentemente devem ser debatidos sem qualquer tabu, o PCP não avança nesses campos. Diria até que nalgumas questões é conservador, como na legalização da prostituição.

Mas o PCP é assim por medo ou por falta de intelectuais que voltem a teorizar o marxismo, como foi Álvaro Cunhal?

Há falta de renovação do ponto de vista teórico. O Álvaro Cunhal até certa altura, anos 80, terá dado resposta, era uma referência, mas entretanto o PCP perdeu alguns bons quadros intelectuais que saíram para a Renovação Comunista, PS, BE, alguns independentes… O PCP enquistou e não teve capacidade de ter gente capaz de apresentar análises alternativas. O PCP reproduz através das novas gerações a mesma linha de pensamento. (…) Terá que renovar-se e encontrar propostas que sejam mobilizadoras não só das gerações mais velhas e intermédias mas também das novas e de diversos sectores.

Pedia-lhe que traçasse o cenário que acha que vamos encontrar nas legislativas, em 2015. Haverá de facto essa união pela qual tem lutado?

Tenho um pressentimento de que vão manter-se enquistadas algumas forças, embora tenha uma leve esperança, não muito realista. Acho que, infelizmente, vão sobrepor-se os interesses corporativos ou partidários e creio que não vai haver essa unidade. Mas tenho, apesar de tudo, essa leve esperança de que haja algum rasgo quer por parte do BE, do PCP inclusivamente, e da nova liderança do PS. Tenho alguma esperança que isso possa acontecer. Será uma grande novidade, será a grande viragem para o futuro, se isso acontecer.

Entrevista publicada na 197 (III Série) do Jornal de Barcelos no dia 22 de Outubro de 2014.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s