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aliceLondres é tão entusiasmante para Alice quanto o lugar fantástico que a homónima personagem de Lewis Carroll encontrou depois de seguir a cartola do coelho toca adentro. “A cena brutal é que já estou aqui há quase dois anos e a cidade nunca pára de me surpreender. Descubro sempre algo novo, seja um lugar, uma pessoa, um momento…”.

Alice Negrão, 22 anos (completa 23 em Fevereiro), recusa cair numa rotina monótona, seria até absurdo numa das mais importantes capitais do mundo, onde tudo acontece. “Só é rotineiro se eu o permitir, porque não precisa de ser só casa-trabalho e trabalho-casa. Todos os dias vejo coisas diferentes”.

E, claro, ajuda haver predisposição para ser surpreendido e sensibilidade para reparar no que a rodeia. “Aquela magia de entrares numa estação do metro e veres um homem a tocar alto jazz com o saxofone. Ou, então, decides seguir outra rua que não a que costumas seguir e acontecem coisas diferentes todos os dias”.

O que não falta em Londres é coisas para ver. É uma cidade cosmopolita. Multicultural. Alice gosta de ir visitar galerias de arte, “a maior parte delas gratuitas”, ir a concertos, muitos deles também de entrada livre, e descobrir “partes novas da cidade” que ainda não viu.

Sair à noite é obviamente caro, mas não impeditivo. “É carinho, mas na boa, até porque se recebe bem aqui”. Alice Negrão ganha em Inglaterra três vezes mais do que em Portugal. Na loja de comidas e cafés (“parecida com as estações de serviço em Portugal”) onde trabalha, no centro de Londres, chamada Pret a Manger, recebe, em média, por semana, 280 libras (aproximadamente 359 euros). Em Barcelos trabalhava numa loja de roupa que lhe pagava o salário mínimo.

É fácil encontrar trabalho em Londres. “Quando vim para cá, demorei uma semana a arranjar emprego, a servir às mesas num restaurante”, diz. “Foi fácil, porque um amigo meu trabalhava lá e mal viu um lugar vago deu logo a dica. Ainda é bastante fácil arranjar trabalho, tens é que te fazer à vida, nunca parar de procurar, sair de casa e bater às portas”.

Depois desse emprego inicial, encontrou o actual, onde já não serve às mesas, até porque o estabelecimento não tem esse serviço, e trabalha oito horas por dia. “A meia hora de almoço é paga, portanto acabo por trabalhar sete horas e meia mas recebo as oito”.

“PARA JÁ” REGRESSAR NÃO ESTÁ NOS PLANOS

E como é que Alice aterrou em Londres, porque decidiu deixar Barcelos e voar para Inglaterra? “A ideia de vir para cá surgiu mesmo do nada. Não foi nada planeado há muito tempo. O meu ex-companheiro sugeriu a ideia e lá nos aventurámos”. A família apoiou. Apenas aconselhou cautela. “O meu pai disse-me: ‘tem juízo, cuidado e poupa. De resto, Lili, só quero que encontres a felicidade’”.

Foi o que Alice fez. Está “a adorar” o país e a cidade e não tem intenções de regressar. “Estou bem aqui e, ainda por cima, habituada a um salário que não se compara ao de Portugal”. As novas tecnologias – a nossa conversa, por exemplo, é via Facebook – e a massificação das viagens low-cost ajudam a combater o maior inimigo do português que emigra, a “saudade”. “Posso ir a Portugal muitas vezes ao ano se quiser, por isso, quero ficar, para já”.

Alice não conhece “muitos ingleses” porque os trabalhos na restauração “normalmente” são feitos por emigrantes. Os ingleses, por norma, têm empregos mais bem remunerados e os que trabalham na restauração “é porque ainda não encontraram nada na área deles ou são jovens estudantes”. Sem querer “generalizar”, uma vez “todos têm um lado bom e um mau”, os ingleses enquanto povo “não se comparam aos portugueses”. “Somos sociáveis, hospitaleiros e eles nem tanto, são muito senhores do próprio nariz e orgulhosos”, conta. E já teve, inclusivamente, “situações difíceis no trabalho com ingleses”, dado que em Inglaterra “há muito a cultura da reclamação”. Já encontrou cliente capazes “de comer uma salada toda, deixar um cantinho e pôr um cabelo deles próprios e dizer que não querem pagar”.

Por outro lado, a impressão que os ingleses têm dos portugueses é positiva. Quando Alice respondia a patrões ou gerentes que era de Portugal, diziam-lhe: “Ah, então é boa trabalhadora”.

A jovem de Barcelos adora encontrar portugueses no local onde trabalha. “Ofereço-lhes um café, trocámos um bocado de conversa. Ao partilhar momentos com uma pessoa que veio da tua pátria, sentes que tens ali um bocadinho de Portugal”.

Com o 12.º ano, tem o objectivo de tirar a licenciatura em Inglaterra. Apaixonada por fotografia e pela música (além de cantar está “a aprender ukelele”), ainda não sabe que curso seguir. Inicialmente queria fotografia, mas mudou de ideias. “Ainda preciso de tempo para pensar no que quero”. Até porque, sublinha, “vai estudar com a ajuda do Governo para pagar as propinas” e que ter “mesmo a certeza” do que quer para “não andar a desperdiçar dinheiro”.

“É PRECISO MUITA CORAGEM”

Quando chegou a Inglaterra, Alice “sentiu a diferença gigante mesmo” em relação a Portugal. “Mas não foi um choque para mim porque sempre tive a mente aberta”. Ficou chocada, afirma, foi com “os preços dos transportes”. “São caríssimos. E então quanto mais longe morares, se trabalhares no centro, mais te vai custar”, avisa.

Aliás, “o que é caro” em Londres “são os transportes e a renda, de resto, os supermercados são baratíssimos”. Alice tem que gastar, semanalmente, perto de 40 libras (à volta de 50 euros) para comprar o “Oyster”, cartão que dá para todos os transportes públicos. Por a habitação ser tão cara é que tem de ser partilhada. “Viver num T1 é caríssimo, a não ser que seja muito afastado do centro”. E, nesse caso, como referido, então tem que se abrir os cordões à bolsa para os transportes. “Então, geralmente, partilha-se casa com pessoal”.

Neste momento Alice vive com mais sete pessoas. “Um bocadinho [de gente] a mais, mas está-se bem”. Alguns trabalham com ela, outros conheceu-os na casa. E não há confusão com tanta gente no mesmo espaço ou tudo se entende bem, perguntamos? “Amigos amigos, negócios à parte. Cada um tem as suas coisinhas”. E para cozinhar? “Geralmente quando vou cozinhar não está ninguém na cozinha porque alguns só comem aquelas comidas de microondas”. Para finais de Março, vai mudar-se “para mais perto do centro” e aí já só vai partilhar casa com mais uma amiga, também ela portuguesa. Será “muito mais fixe”.

A apreciar a experiência, Alice aconselha Londres como destino para quem pensa em emigrar. “Lembrei-me de uma frase que um senhor, cliente regular na minha loja, o Richard, me disse uma vez e nunca mais me vou esquecer: ‘se consegues viver numa cidade como Londres, consegues viver em qualquer lado do mundo’”. A “quem está infeliz com o estado actual”, Alice incentiva a emigrar, mas avisa que sair do país, apesar de ser enriquecedor, não é um mundo pleno de maravilhas: “É preciso muita coragem, muita mesmo. E não é tudo um mar de rosas, há dias tristes e solitários, outros dias são incríveis. Mas uma experiência assim faz-nos crescer tanto que acho que vale mesmo a pena”.

Rubrica “Volta ao mundo com Barcelos” publicada na edição 209 (Série III) do Jornal de Barcelos no dia 14 de Janeiro de 2015.

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