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gascMais de duzentas famílias do concelho dependem do Grupo de Acção Social Cristã (GASC) e da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos (SCMB) para comer, seja através da cantina social ou da distribuição mensal de cabazes alimentares.

Aberta em Julho de 2012, a cantina social da SCMB dá refeições diariamente a 35 agregados, beneficiando directamente, segundo a instituição, 95 pessoas. Para além disso, a Misericórdia distribui mensalmente cabazes alimentares a 10 famílias – numero que aumenta na quadra natalícia

No GASC são cerca de 60 famílias que diariamente vão buscar refeições e entre 80 e 100 que todos os meses recebem cabazes alimentares – no Natal são mais de 200. Realce-se que os números que apresentamos referem-se apenas a duas instituições, provavelmente as duas mais proeminentes, pelo menos no centro urbano, sendo que em todo o concelho há outras que também prestam este tipo de apoio social. 

Outra importante valência do GASC é o refeitório social que alimenta todos os dias, ao almoço e ao jantar, cerca de 50 pessoas. Além da comida, a instituição procura tirar os utentes da rua, colocá-los em apartamentos, dar-lhes roupa e proporcionar-lhes condições para a sua higiene. O JB foi conhecer o trabalho do GASC e as vidas dos que dele dependem.

Faltam poucos minutos para o meio-dia. No refeitório social do GASC, situado no Bairro da Misericórdia, em Vila Frescainha S. Martinho, já há pessoas à espera que as portas se abram. De um lado, os que ali vão comer. Do outro, os que levam a comida, que alimenta todo um agregado familiar, para casa.

Estamos do lado do refeitório social. As funcionárias abrem a porta. Quem estava à espera entra ordeiramente, pega num tabuleiro, é servido, senta-se à mesa, come. A presença dos repórteres é notada. E olhada com alguma desconfiança. Chega Constantino Lopes, fundador e presidente do GASC, e explica o motivo da nossa reportagem. É muito respeitado por todos e é perceptível que a partir daí a nossa presença passou a ser bem aceite.

“Alguém quer falar com os jornalistas?”, perguntou. Humberto Rebelo estava na fila para levantar o tabuleiro, mas de imediato prontificou-se a falar com o JB. É dos utentes mais antigos do refeitório social, aberto em 1998 nas instalações do antigo matadouro municipal. “Já venho aqui há bastantes anos, embora nem sempre. Já estive dois ou três anos sem vir”, conta. São “fases” da vida. De uma vida tudo menos fácil. “Sou cozinheiro de profissão. Ceguei da vista direita. Tenho vindo mais frequentemente, porque com 160 euros de rendimento mínimo, a viver sozinho, a ter que pagar um quarto, é um bocado difícil”, explica.

Tem 47 anos e já trabalhou em França, Itália, Espanha. Fala as línguas daqueles países. “Sou poliglota”. Só que admite que na “juventude” perdeu-se “um bocadito” e deitou “muita coisa por água-abaixo”. Já andou na rua e nas drogas. O golpe mais duro foi mesmo a perda da visão do olho direito por causa de uma doença derivada da toxicodependência. “Psicologicamente deitou-me muito abaixo. Tirou-me muita mobilidade, tirou-me reflexos, do flanco direito não vejo, para fazer um movimento repentino tenho que ter muito cuidado… E na cozinha anda-se com panelas, com isto e aquilo…”. Já não consome, mas admite que tem um problema “para toda a vida”. Está sem trabalhar, mas não por falta de vontade. “Preciso de uma oportunidade, preciso de um trabalho, mas há quem esteja muito pior do que eu”.

É um traço geral nos utentes com quem falamos: recusam vitimizar-se e reconhecem que a situação em que se encontram podia ser bem pior, se não tivessem o apoio do GASC. Humberto Rebelo não esconde a gratidão. “Ajudaram-me e ajudam-me”. No dia anterior já tínhamos falado com Constantino Lopes que nos traçou o cenário global da acção do GASC e contou alguns casos aflitivos e preocupantes. É inquietante e faz-nos questionar: o que seria de muitas pessoas se não fosse o GASC? Humberto responde que “provavelmente teria que roubar para comer” ou “viveria na rua”. Mas essa questão praticamente já não se coloca porque “desde que o GASC existe, saiu muita gente da rua. Que eu saiba, é a única instituição do concelho que conseguiu meter pessoas em quartos”, acrescenta.

“CONSEGUIMOS TIRÁ-LOS DAS RUAS”

Constantino Lopes explica sucintamente o trabalho feito nessa área: “A maior parte [dos utentes] recebe o RSI, nós ficamos fiadores e eles pagam a sua rendazinha todos os meses”. Ou seja, o GASC age em diversas frentes: tanto serve comida como oferece roupa, tanto proporciona condições para os utentes fazerem a sua higiene como os apoia no alojamento.

Aqui chegados, é importante contar como iniciou o trabalho do GASC, para perceber como evoluiu ao longo dos anos. “Começámos com uma carrinha. Íamos dar a refeição à noite, só à noite, ali no largo dr. José Novais, e dávamos uma sopa e duas sandes. Todos os dias. Depois dávamos no Campo da Feira e ainda íamos à Estação. Começamos a ver que o número ia aumentando e as pessoas perguntavam: e ao meio dia? Então, conseguimos que a Câmara nos cedesse estas instalações e montámos este refeitório”, conta o presidente do GASC desde a fundação da instituição a 5 de Novembro de 1978.

O espaço é precisamente “onde ficava o gado que ia morrer no dia seguinte”. Fizeram-se obras e o refeitório começou a funcionar ao almoço e ao jantar. Só que havia outras necessidades a suprir e também foram construídos balneários. “Era necessário tomarem banho, mudarem de roupa. Gente que morava na rua… Foi outro trabalho. Conseguimos tirá-los das ruas, começámos a arranjar-lhes casas e quartos e temo-los espalhados por várias zonas da cidade”, aponta Constantino Lopes.

Humberto Rebelo diz que “hoje em Barcelos só passa fome quem quer”, porque além do GASC “há muitos apoios”, inclusive da Câmara Municipal, e “só as pessoas que não querem ter determinados horários e regras é que se vêem na rua”. Isto porque, diz, “há contrapartidas” de quem recebe os apoios, nomeadamente os do GASC, como ir a “reuniões” e cumprir com outras normas previamente estabelecidas.

O utente “mais novo” do refeitório social tem 19 anos e prefere não identificar-se. Não tem residência. “Durmo numa casa abandonada”. Na prática, foi sempre assim. “A minha história de vida resumiu-se a ficar na rua”. Frequenta o GASC porque é “o único meio” que tem “para comer”. Podia pedir, como pede dinheiro para o autocarro para ir ver o filho “que está em Braga num colégio”, ressalva, mas prefere ir ao refeitório porque “a comida é boa”. Já teve casa. “Qualquer pessoa que está na rua tem as suas fases boas, tem as fases más”. Só que perdeu a habitação pois “não tinha rendimentos”. Está agora a “tratar do caso” através do GASC. Não tem apoios sociais, porque nunca descontou. Já emigrou, mas acabou explorado. “Os mais velhos, que são os que estão acima de nós, são quem nos corta as bases. Fui para a Córsega, disseram-me que ia receber oito euros à hora, estive lá um mês e não recebi uma cheta. Se não fosse ter levado comida daqui que andei a pedir, andava lá a passar fome. Tenho um filho, não posso baixar a cabeça. Mas há gente que baixa a cabeça e anda aí nas ruas a pedir porque não consegue arranjar trabalho. São as pessoas a calcar-nos, calcar-nos, calcar-nos… é a vida. É o nosso meio social”, lamenta.

Contudo, rejeita a vitimização. “Não tenham pena dos sem-abrigo. Basta ter um colchão e três cobertores que ninguém passa frio. E basta vir ao GASC que ninguém passa fome nem anda sujo”. Por isso, defende que o GASC “é um grande apoio para muitas pessoas” e só vê um aspecto que podia ser melhorado, que era o refeitório ter um segurança ou “alguém para manter respeito”. Alcoólicos e toxicodependentes, por vezes, têm comportamentos menos correctos. “As senhoras que estão aqui, algumas delas voluntárias, não são obrigadas a levar com as borracheiras e droguices dos outros”. Os utentes que criam confusão ficam proibidos por algum tempo de comer ali.

O refeitório social está aberto ao almoço e ao jantar, sete dias por semana. A única excepção é o domingo à noite, mas ao meio-dia os utentes levam uma sande para comer ao jantar. Todos os dias passam por lá entre 45/50 pessoas. “Os jovens que estão dependentes da droga há dias em que não vêm, outros em que só vêm ao meio-dia ou só à noite”, diz Constantino Lopes.

Porém, os que têm problemas de adição estão longe de ser os únicos frequentadores do espaço. “Grande parte são pessoas que vivem sós, viúvos ou divorciados. Sente-se que há um grande número de pessoas que vivem sozinhas. Muitos desempregados. (…) Pessoas desprotegidas que não têm retaguarda”, elucida.

Muitas vezes as dificuldades são “temporárias”, nota o presidente do GASC. “Há pessoas que chegam cá e dizem: ‘agora já não preciso, arranjei emprego, já ultrapassei o problema que tinha’. Às vezes são dívidas, estão desempregados”.

SETE FUNCIONÁRIOS NO REFEITÓRIO SOCIAL

José Lourenço, 53 anos, começou a frequentar o refeitório social “há um ano”. Tem problemas de coração, sofreu um AVC. “Estou doente e o meu meio de sobreviver é o refeitório social”. Vive com a mãe, que “suporta o aluguer”. Não tem “vícios”. Rejeita “mendigar nas ruas”. Bordador de profissão, teve “mais tarde” um café, em Vila Frescainha de S. Martinho, que lhe deu “azar”. “Em 16 meses fui assaltado 11 vezes. Tive que abandonar. Depois tive que me livrar de bens para pagar o que me roubaram. Ando de cabeça levantada, vendi coisas para pagar. Tenho a consciência tranquila e não devo nada a ninguém”. O refeitório é o último recurso. “Se puder evitar vir aqui, não venho. Tendo comida em casa, como em casa”.

Constantino Lopes afirma que o número de utentes no refeitório social se vai mantendo, mas “as pessoas vão mudando”. O número de famílias a receber o cabaz mensal, distribuído na primeira segunda-feira de cada mês, andou sempre entre as 80 e as 100 (nesta época de Natal o GASC distribui mais de 200). Antes, “mais para as cem”, agora, “mais para as 80”, porque, desde que, há cerca de um ano, abriu a cantina social, para dar resposta ao crescente número de famílias necessitadas por via da crise, “algumas passaram a vir buscar a comida em vez de levar a mercearia”.

Quer o refeitório, quer o serviço da cantina social são apoiados pela Segurança Social. No entanto, avalia o presidente do GASC, o “critério é um bocado apertado”. “Pagamos aos funcionários 14 meses, mas eles só nos apoiam 12 e não na totalidade. O que nos dão é um apoio substancial e que nos faz falta, mas se não fosse a Câmara a também apoiar-nos não podíamos ter estas coisas todas a funcionar”. Ao todo são sete pessoas a trabalhar ali: duas cozinheiras, duas ajudantes de cozinha, um motorista, uma ecónoma e uma assistente social.

Os beneficiários destes apoios têm que passar por um “crivo”, são avaliados por psicólogos e assistentes sociais. “As pessoas inscrevem-se e eles observam as suas necessidades. Têm que trazer o recibo da renda de casa, o recibo da luz e da água, comprovativo dos vencimentos que estão a auferir e dos apoios que recebem. Feitas as contas, se der uma capitação inferior a 150 euros [por mês], ajudamos”, precisa Constantino Lopes.

O critério é rígido, mas a situação concreta das pessoas não, e por vezes é imperativo torná-lo mais maleável. Constantino Lopes dá um exemplo de que “nunca” se esquece. “Uma vez veio uma pessoa de certa idade, estava na fila para receber mercearia. Uma pessoa veio ter comigo e disse-me: ela não precisa, tem casas alugadas. Eu pus-lhe [à senhora] as mãos sobre os ombros e disse-lhe baixinho: a senhora não precisa, tem casas… E ela diz-me: ‘é verdade, tenho algumas casas arrendadas e recebo uma rendazinha delas e também recebo uma reforma. Mas tenho um filho toxicodependente que, de vez em quando, pega numa faca e ma aponta ao pescoço e diz: ou me dás o dinheiro ou mato-te. E eu tenho que lhe dar o dinheiro todo’. E eu tinha que lhe dar [o apoio] porque, pelos critérios não estava abrangida para o receber, mas vivia numa situação miserável”.

DENÚNCIAS ANÓNIMAS SÃO FREQUENTES

Aliás, denúncias anónimas de que há utentes que não precisam do apoio que o GASC lhes concede são frequentes. Praticamente todas sem razão, quase sempre baseadas apenas no ilusório da aparência. “Há situações muito complicadas e é preciso compreendê-las”, sublinha Constantino Lopes, afirmando que há muitos casos em que as pessoas aparentam ter uma vida confortável mas que estão na miséria. Casos em que “até elementos da direcção do GASC diziam que a pessoa não precisava, que vivia bem, mas íamos averiguar e, de facto, viveu bem [mas já não vive]”. Os motivos são vários. Por exemplo, um marido que emigra e deixa de enviar dinheiro para a esposa “porque arranjou outra família lá”. Ou um casal que fica subitamente desempregado e passa a viver na “miséria” embora habite uma residência, o que aparentemente traduz bem-estar financeiro.

“Temos recebido muitas queixas de que damos a quem não precisa, porque não conhecem a situação. Às vezes dizem que damos e não damos. Ainda há pouco tempo recebi uma carta de uma pessoa que não se identificava a dizer que alguém que ela julgava que não precisava estava aqui a receber. Fomos consultar o nosso ficheiro e, de facto, ela veio pedir, mas não estávamos a dar porque ela não preenchia os critérios”. Constantino Lopes acredita que o número de pessoas que passam fome é superior ao daqueles que pedem ajuda. É a chamada pobreza envergonhada. “É preciso muita coragem para vir cá”.

Além dos apoios institucionais da Câmara e Segurança Social, o GASC tem a ajuda de várias empresas do concelho que oferecem desde comida a roupa e recebe contributos da própria sociedade civil, sobretudo vestuário. “Temos aí sempre roupa preparada para eles. Quando há mudanças de estação as pessoas oferecem-nos e vamos distribuindo. Todas as segundas-feiras os nossos [utentes] escolhem [o vestuário que querem] e todas as sextas-feiras damos roupa a quem vier de fora. Quando sentimos falta de alguma coisa [principalmente roupa interior que se gasta mais] pedimos às empresas que nos ajudem”. Com a cooperação da Segurança Social e Câmara Municipal e a solidariedade de empresas e particulares, o GASC é o último recurso de uma série de pessoas desfavorecidas e excluídas. E se não houvesse último recurso?

Reportagem publicada na edição 206 (Série III) do Jornal de Barcelos no dia 23 de Dezembro de 2014.

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