Home

ex-combatenteFevereiro de 1966. Gabriel Rodrigues embarca no navio Niassa para Angola. Cabinda espera o 1.º cabo atirador especial de 21 anos. Podia-se dizer que a guerra estava a começar, mas para o soldado a guerra tinha começado muito antes. Antes do mês de preparação que teve para o cenário de guerra em Lisboa. Antes de tirar a especialidade em Chaves. Antes mesmo de fazer a recruta, em 1965, no Regimento de Infantaria 8 (actual Regimento de Cavalaria 6), em Braga.

A guerra – afirma – começava logo que os mancebos iam à inspecção e eram dados como aptos para o serviço militar. Eram pouquíssimos os que escapavam. “Naquela altura até os cegos e os coxos iam”. Carne para canhão. “Quando já estávamos apurados para ir, queríamos arranjar namoro com uma rapariga e não conseguíamos. Elas diziam-nos: ‘ainda não foste à tropa, só quando vieres’. Tinham medo que morrêssemos por lá ou que depois não as quiséssemos. Diziam: ‘namoro não, quando vieres da tropa temos muito tempo’. Não queriam namorar com a gente. E aí começava logo a nossa guerra”.

O Niassa levou até Cabinda o jovem nascido a 31 de Dezembro de 1944, na casa dos avós, em Milhazes, onde os pais, a viver em Carvalhal, haviam decidido passar o ano novo. Após o desembarque, seguiria para a mata de Maiombe, das maiores florestas do mundo. “Entrávamos num carreiro e não víamos o sol, era só árvores”.

Porém, não partiu de imediato para Maiombe, porque mal chegou a Cabinda, “como não ia habituado àquele clima”, começou a sangrar do nariz “sem parar”. Ficou oito dias na enfermaria, não podendo, dessa forma, acompanhar a companhia que avançou para o aquartelamento de Luau, na fronteira com a República Democrática do Congo.

Em Cabinda, onde ficara a ser tratado, encontrou um amigo de Carvalhal que vinha precisamente de Luau, onde o cabo Rodrigues iria juntar-se à sua companhia, logo que a hemorragia nasal estivesse sarada. A companhia do amigo tinha sofrido pouco antes “14 baixas” naquela zona. O 1.º cabo atirador especial não acreditava no que ouvia. Precisava de ver para crer. “Levou-me a uma capela e lá estavam os caixões”, recorda. “Ao ver aquilo, e a saber que ia para aquele sítio, fiquei logo traumatizado”. Hoje padece de stress de guerra e anda “a fazer tratamento”. Na caravana em que seguiu para o aquartelamento encontrou os “jipões” destruídos em que as tropas que foram atacadas seguiam. Havia “pedaços dos carros em cima das árvores”. Os combatentes, amarga Gabriel Rodrigues, tinham que ver “coisas bastante ingratas”.

“A GUERRA TAMBÉM TINHA AS SUAS DISTRACÇÕES”

Na vida no aquartelamento “não era onde estava o mal”. Jogava-se futebol. “Havia jogos entre as companhias”. Havia convívio e brincadeiras. Havia muita cerveja. “A guerra não era só feita de guerrilha, também tinha as suas distracções”. Uma das coisas que ajudavam os soldados a distraírem-se era a correspondência. Cartas e aerogramas. Estes últimos eram fornecidos pelo Movimento Nacional Feminino. “A nossa satisfação era receber uma carta ou um aerograma de uma madrinha de guerra”. E Gabriel Gonçalves tinha “muitas”. Depois, “havia aquele gozo entre colegas: ‘ eu é que recebi correio, vós não recebeis nenhum’. Brincadeira entre colegas”. E também havia convívio com os locais. “No sítio em que estávamos havia uma sanzala a uns mil metros. De vez em quando íamos lá e até comíamos um churrasquito com eles. Eram amigos. Se soubessem de alguma coisa, diziam ao nosso capitão… porque também se não dissessem estavam sujeitos a ser linchados”.

Dormir era com um mosquiteiro em volta, como se estivesse “dentro de uma gaiola”. Era a forma de evitar a picada de mosquitos que transmitiam a malária (ou paludismo) que provoca febres muito altas. A alimentação era problemática. A água saía do poço com espuma. Tinha “petróleo”, diz. Era preciso meter “umas pastilhas” no cantil “para desinfectar a água, tirar os micróbios”. Hoje Gabriel Rodrigues ainda não pode “ver esparguete” à frente. “Só comíamos esparguete. E com cheiro a chouriço, mas só o cheiro porque o chouriço tinha fugido”, diz com humor. Um dia desforrou-se. Teve que ir a Cabinda ser visto por um dentista. Encontrou um “tasquinho” de uma portuguesa. “Comi nove ovos”, lembra. “Podia ter-me dado o badagaio”.

As histórias que contaremos adiante passam-se em Luau cujo aquartelamento era um antigo seminário, abandonado quando estalou a guerra. Gabriel Rodrigues permaneceu ali mais de um ano e depois esteve no aquartelamento de Massabi, mais perto de Cabinda e também mais calmo. O aquartelamento de Luau tinha mais de cem militares. A companhia tinha quatro pelotões, cada pelotão tinha à volta de dez homens. Havia ainda os militares de especialidade, cozinheiros, etc. “De dois em dois dias saía uma ordem de serviço”. O capitão dava a cada pelotão diferente tarefa. Desde guarda ao aquartelamento a reconhecimentos no mato. Se essas operações de reconhecimento durassem mais de um dia, os militares iam à arrecadação “levantar a ração de combate”, que era uma “caixa com diversos mantimentos, tudo enlatado”. Era uma caixa por dia para cada um. Nessas expedições os combatentes levavam “panos de tenda para engatar uns nos outros e fazer uma barraca” que dava para três. Se tivessem que atravessar rios, não havia outro remédio que não dormir com a roupa molhada. “Não tínhamos outra”.

O aquartelamento só foi atacado umas “três ou quatro vezes”. Lá fora é que estava o verdadeiro perigo. “O primeiro tiro é sempre deles, depois há que ripostar”. Quando atacados, os soldados lançam-se para o chão, rastejam se for preciso para se encobrirem “o melhor possível”. E começam a atirar contra o inimigo. “Eles deixam de disparar e vamos no encalço. Se os apanharmos, linchamo-los”. Quando havia feridos, estes eram levados para uma zona descampada – por exemplo, sanzalas que tenham sido destruídas – e um helicóptero, chamado via rádio, vai buscá-los.

No mato teme-se pela vida. Os sustos foram muitos. Gabriel Rodrgiues seguia numa patrulha de reconhecimento. “A páginas tantas, um colega fica com a perna presa”. Era uma mina anti-pessoal. Mas não rebentou. “Tinha sido posta há algum tempo e houve um gano que caiu e ficou entre a patilha e a granada que não a deixou rebentar quando o colega a calcou”, explica. Foram momentos de tensão. “Quando vimos o fio da armadilha, deitámo-nos no chão e foi um colega desmontá-la”.

“GOSTAVA DE VOLTAR”

Noutra altura, Gabriel Rodrigues seguia numa coluna de reabastecimentos. “Íamos de três em três dias buscar gasolina, gasóleo, batatas, arroz, massa…”. Os militares seguiam na carroçaria do Berliet (“um camião enorme”) dispostos em volta das mercadorias, armados e vigilantes. “Ao passar numa ponte, que não era ponte não era nada, de madeira velha”, a frágil estrutura cede. Caiu tudo ao rio. “Não morreu ninguém por sorte. Houve alguns feridos”.

Massabi era um pouco mais tranquila e o tempo foi passando. O 1.º cabo-atirador especial esteve em Angola mais de dois anos. Enquanto andava a combater nunca teve percepção do que era e para que servia aquela guerra. “Dá-me impressão que as injecções ‘mata-cavalo’ que nos davam era para esquecer aquilo. Apanhávamos as injecções e andávamos perdidos”.

Nunca questionou o sentido da guerra que hoje percebe que não teve sentido algum. “Para nós era desconhecido. Fomos criados num regime que não nos dava hipótese de conhecermos nada. Depois de vir para cá e após o 25 de Abril, vou tendo conhecimento de que fiz uma guerra que não tinha sentido, que não devia ter feito. Então vamos matar pessoas que são daquela terra? Não tem sentido”. Gabriel Rodrigues, hoje com 70 anos, não sabe se chegou a tirar alguma vida. “Tiros dei, despachei muitos cartuchos, agora se matei… isso não vi”.

Maio de 1968, 26 meses e meio depois de ter embarcado no Niassa, Gabriel Rodrigues diz adeus a Cabinda. Após 15 dias em Luanda, regressa a Portugal no navio Uíge. Sente “alívio” e “felicidade”. “Quando a gente chega a Lisboa e começa a ver terra, começa a ver casas, vê o Cristo-Rei, a pessoa diz assim: de onde nós vimos! Aí começa realmente o nosso viver”.

Regressou à vida civil e trabalhou na indústria têxtil até à reforma. Em 1997 ou 1998 inscreveu-se na APOIAR, que em 1999 daria origem à Associação Portuguesa de Veteranos de Guerra. Em 2002 fundou a delegação de Barcelos, de que é presidente. Nunca regressou a Angola , mas “gostava de ir lá ver como aquilo está hoje”.

Rubrica “Memórias da Guerra Colonial” publica na edição 208 (Série III) do Jornal de Barcelos no dia 7 de Janeiro de 2015.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s