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velhariasComeçou em 2002 com apenas dez participantes, hoje tem 75 e a partir de Janeiro terá mais 20 lugares disponíveis. A feira de velharias tem vindo a crescer ao longo dos anos e, ocupando lugar de relevo no Campo da Feira, não passa despercebida a quem visita o centro da cidade nos 4.º e 5.º domingos de cada mês. E inúmeras requisições levam a ACOBAR – Associação de Coleccionismo de Barcelos a criar, no início do próximo ano, um sucedâneo: uma feira de usados onde qualquer pessoa poderá vender aquilo de que já não precisa.

Pela manhã muitas carrinhas começam a ser descarregadas e os artigos a serem colocados ou no chão ou em bancas. São nove horas da manhã e os visitantes mais madrugadores começam a aparecer ainda com os vendedores a prepararem o “estaminé”.

Naquele quarteirão do topo do Campo da Feira, aparece um pouco de tudo. Estarmos aqui a fazer um relato exaustivo daria uma descrição semelhante à que Eça de Queirós fez do Ramalhete – no tamanho e não na qualidade da prosa, obviamente.

Para poupar o leitor a uma fastidiosa enumeração, fazemos um pequeno resumo que cremos ser elucidativo: discos (vinil, CD, cassete), filmes (VHS, DVD), livros (dos clássicos à literatura de cordel), máquinas de escrever, alfaias agrícolas, bicicletas e motas (assim como respectivas peças), mobília, louça, artigos de coleccionismo (moedas, selos, postais, brinquedos). Ou seja, a variedade impera. Pegando no título de uma reportagem antiga do JB sobre um encontro de coleccionadores, pode dizer-se que este é o sítio mais provável para encontrar o improvável.

A feira teve início há 12 anos por iniciativa da Junta de Freguesia de Barcelos. Chamava-se “Feira Com Junta” e realizava-se na Praceta Francisco Sá Carneiro. “Além de as pessoas [da Junta] não terem tempo, faltava-lhes know-how; em 2003 pediram-nos a colaboração, o que até deu origem à criação da ACOBAR”, explica Constantino Ribeiro, presidente da Associação que rapidamente passou a organizar a feira com o apoio do Município.

Em 2005, já com a ACOBAR fundada, é estabelecido um protocolo com a Câmara Municipal para a cedência do espaço no Campo da Feira e o evento mudou de local. “A ACOBAR nasceu um pouco por causa disto”, sublinha Constantino Ribeiro.

Desde então a feira de velharias não parou de crescer. “Inicialmente tinha 10 participantes e neste momento estamos com 75”. E a partir de Janeiro, adianta o presidente da ACOBAR, vai ser ampliada: “Iremos criar mais um corredor, serão mais vinte participantes”. Vai passar a ocupar o topo Noroeste, zona que será destinada sobretudo a “carros antigos” e “clássicos” e peça e acessórias para os mesmos.

É mais uma vertente que a ACOBAR pretende explorar depois do sucesso que foi a recente integração da venda de motorizadas e bicicletas antigas. “Trouxe outros públicos à feira. As motas e bicicletas antigas estão um bocado na moda e há uma procura enorme”, aponta Constantino Ribeiro.

“FIZ AQUI MUITOS AMIGOS”

“Ainda hoje vendi uma [bicicleta], no outro fim-de-semana vendi duas, vai-se vendendo”, diz Domingos Silva, de Perelhal. Tem expostas cerca de uma dúzia de bicicletas e vende também peças e acessórios. Faz a feira de velharias há seis meses, por sugestão de um irmão que faz parte da ACOBAR e o convenceu a participar. O interesse pelos veículos de duas rodas é que já vem de há muito, de quando casou. O sogro era mecânico e pegou-lhe o bichinho. “Entretinha-me a restaurar umas motas”, conta. Trabalha na manutenção de uma empresa. As motas e as bicicletas são apenas um “passatempo”. Já tem clientes que ali o procuram “todos os meses” e vendedores que lhe vêm propor negócios, mas o que mais o faz gostar da feira é o convívio. “Não é daqui que a gente vai tirar o salário ao fim do mês, é mais pela amizade. Fiz aqui muitos amigos”.

Segundo Constantino Ribeiro, pela feira de velharias deverão passar “à vontadinha 20 mil pessoas”. Os períodos com maior afluência situam-se entre às 11h00 e as 12h00 e as 15h00 e as 18h00. “Há alturas em que ninguém se mexe aqui”, ilustra o presidente da ACOBAR. “Como há uma boa venda, a feira tem crescido e tem tido o interesse dos participantes”. E vem gente de todo o Norte do país.

Mário Reis, do Porto, serve como exemplo desse crescente interesse. “É a primeira vez” que faz a feira de velharias em Barcelos, diz-nos logo para início de conversa. “Foi acidentalmente”. Como assim? “Ia com destino a outro lado [Taipas] mas depois pensei parar aqui para ver como isto é”. Ah, muito bem, e como está a correr? “Não posso tirar grandes conclusões porque ainda é cedo, só no fim do dia é que posso avaliar”, responde. Era meio-dia. Apesar da prudência, deduz-se que estivesse a correr bem, pois no decorrer da conversa acaba por confessar que as coisas “mais preciosas” vendeu-as todas “de manhã”. E o que eram essas preciosidades? “Canecas de cerveja alemãs. Foram logo! São muito raras”. E as canecas não são a única coisa a vir de Alemanha. “É tudo material alemão, nada nacional. E o mais novo que tiver aí tem que ter 30/40 anos. Mais novo do que isso não quero”. Tem máquinas de calcular dos anos 40, moinhos de café, binóculos, bandejas. E compra tudo directamente na Alemanha onde vive, além do Porto (“meio ano cá, meio ano lá”).

Os vendedores são “pessoas ligadas ao ramo das velharias”, antiquários, alfarrabistas, coleccionadores. No início, recorda Constantino Ribeiro, havia algum preconceito mas a percepção das pessoas tem vindo a mudar. “Viam-nos como uns necessitados e até diziam algumas coisas que não eram muito católicas. Hoje, muitas dessas pessoas, além de serem compradores assíduos, também já são participantes”, aponta o presidente da ACOBAR, dando uma prova dessa mudança de paradigma: “Inicialmente éramos só três participantes do concelho e neste momento somos doze”.

“CADA VEZ MAIS GENTE A VENDER”

Jorge Santos é um deles. Natural de Barcelinhos e residente em Martim, há oito / nove anos que faz a feira de velharias de Barcelos, onde vende livros, discos e porcelanas, entre outras coisas. Também no início sentiu “um bocadinho” esse preconceito. “Isto era uma novidade para as pessoas” que estranhavam ver gente conhecida “de terem outras ocupações” e “estarem dedicadas a isto”. Empregado de comércio, nota que a feira “foi aumentando”, há “cada vez mais gente a vender” e até “mais público”, contudo, lamenta, isso não se traduz em mais vendas, que até “têm baixado muito”. Claro que “depende dos dias”. “Tanto posso vender 20/30 livros numa feira como vender cinco noutra”. “Quando comecei, em termos de vendas, corria melhor. Não havia tantos vendedores, isto não estava tão explorado como está agora, faziam-se melhores feiras”, observa. Além de Barcelos, vende noutras feiras do género em Ponte de Lima, Vila Verde e Esposende. Dessas, a de Barcelos é a “primeira ou segunda melhor”. E o que tem mais saída são os livros.

Entretanto, a ACOBAR tem recebido inúmeros pedidos de pessoas, que não estão ligadas ao negócio de velharias, mas que têm “necessidades devido à crise” e “querem vender produtos que têm em casa” com vista a “angariar algum dinheiro”. Para responder às solicitações, a Associação vai começar a realizar já no início do próximo ano, ao 3.º sábado de cada mês, uma feira de usados no Campo 5 de Outubro (Jardim Velho). “Temos autorização desde Maio [para avançar com a iniciativa] e vamos arrancar em Janeiro”, adianta Constantino Ribeiro. O pedido à Câmara até tinha sido feito para se realizar no Campo da Feira, mas iria “criar problemas” de “logística” porque ao sábado de manhã “muitos carros” estacionam naquele local. Daí a solicitação para mudar para o Campo 5 de Outubro. “Não nos cria problemas a nós nem a mais ninguém”. Será uma oportunidade para quem tiver coisas de que se quer livrar e para quem procura determinados artigos mais baratos. Se estiver em boas condições, nada se deita fora, tudo se aproveita.

Reportagem publicada na edição 203 (Série III) do Jornal de Barcelos no dia 3 de Dezembro de 2014.

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