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vilar fradesRemontando “provavelmente” ao século VI, a riqueza do Convento de Vilar de Frades está no diversificado conjunto de elementos de diferentes épocas que lá podemos encontrar – desde o românico, à arquitectura manuelina, ao barroco (desde o nacional ao de influência francesa, o rococó) até ao neo-clássico.

Desde Junho de 1910 que é considerado monumento nacional. Após décadas de abandono, desde 1994 que a Direcção Regional de Cultura do Norte (DRCN), entidade responsável pela gestão do espaço, tem levado a cabo a requalificação do monumento, que já ascendeu a 3,4 milhões de euros e que ainda não está completa.

“Foi um processo longo e complexo” cuja primeira fase de intervenção, com os projectos dos arquitectos Alfredo Ascensão e Paulo Henriques, “consistiu em obras de carácter urgente, com o objectivo de suster a degradação acelerada do edifício, que ameaçava ruína iminente em alguma áreas”, explica ao JB a DRCN. Posteriormente, “procedeu-se à recuperação do corpo principal da igreja, onde, para além das obras de consolidação, foram reconstruídas as salas sobre as capelas laterais e recuperados os elementos de azulejaria, talha e pinturas, torre sineira, sacristia. Todas as peças artísticas integradas na sacristia mereceram acções de conservação e restauro, assim como o tecto em estuque”, esclarece a mesma entidade.

Falta ainda reabilitar o “último piso da ala conventual” e “a conclusão da requalificação do adro da igreja”, fase que “será integrada numa futura candidatura aos fundos comunitários”, adianta a DRCN.

Por serem “não só de construção civil, mas também de restauro, acabaram por ser obras avultadas e demoradas”, explica ao JB Isabel Sereno, arquitecta da DRCN envolvida na requalificação do espaço.

O projecto de reabilitação do Convento de Vilar de Frades esteve nomeado entre os dez finalistas dos prémios prémios AR&PA de Intervención en el Patrimonio Cultural 2014, no âmbito da AR&PA – Bienal de Restauro e Gestão do Património, realizada entre 13 e 16 de Novembro, em Valladolid.

Os Prémios AR&PA de Restauro e Intervenção no Património Cultural foram criados em 2000, com o objectivo de reconhecer o trabalho realizado por profissionais e instituições dedicadas à conservação, reabilitação e restauro do património cultural, assim como o interesse de projectos destacados na aplicação de técnicas, metodologias e estratégias inovadoras nas intervenções em bens culturais.

Em 2006, devido à reabilitação de que foi alvo, o Convento situado em Areias de Vilar abriu as portas ao público. A ligação do monumento à comunidade é um ponto que a DRCN considera de relevância. E tem dinamizado o espaço com as “Conversas no Claustro”, iniciativa mensal para dar a conhecer o valor patrimonial do antigo mosteiro, mas também tem aberto o espaço a concertos e outras actividades. Além de continuar a ser celebrada missa, também ali são ministradas as aulas de catequese.

“Temos uma preciosidade nas mãos e mantê-la é uma tarefa que vai caber a todos”, sublinha Elvira Rebelo. A responsável da DRCN pela ligação do monumento à comunidade alerta que “uma casa fechada degrada-se mais”, pelo que é importante “sensibilizar” a população para a necessidade de manter o Convento aberto e que todos devem contribuir para tal.

A DRCN sublinha que o número de visitantes “tem vindo a aumentar nos últimos anos”. Em 2014 visitaram o Convento de Vilar de Frades 1.500 pessoas. O JB fez uma visita guiada, que mais do que informação descritiva oferece uma “viagem interpretativa” da riqueza histórica e patrimonial do monumento.

HISTÓRIA

Segundo Joaquim Vinhas, no fascículo de Areias de Vilar da colecção “Concelho de Barcelos – Freguesias” lançada com o JB, o antigo mosteiro “teria sido fundado em 566 por S. Martinho de Dume”. Estava ligado à regra de S. Bento.

Do mosteiro beneditino poucas “evidências físicas” restam, refere António Pereira, arqueólogo e responsável pelas visitas guiadas ao Convento de Vilar de Frades. Sobram apenas alguns elementos do portal da “primitiva igreja” reconstituído nos inícios século XIX. “Não se encontra na posição original, nem será todo ele do período românico”. Desse período serão “as duas arquivoltas interiores”, sendo que “a parte exterior será uma reprodução do século XIX, como acontece com grande parte da fachada”.

Em 1425 é fundada a Congregação dos Cónegos Seculares de S. Salvador de Vilar de Frades, pelo mestre João Vicente, médico de D. João I. A ordem religiosa muda de nome em 1461 para Congregação de Cónegos Seculares de S. João Evangelista, “por intermédio” da Rainha D. Isabel, esposa de D. Afonso V. É também conhecida por Ordem dos Lóios.

“Depois há toda uma transformação do edifício”, refere o arqueólogo, com a construção da igreja de estilo manuelino cujo portal “é um dos elementos mais antigos”. É o “típico portal manuelino” mas que já incorpora elementos do renascimento, que é posterior. As cinco-arquivoltas são “bastante comuns” na arquitectura manuelina, mas os “pseudo-colunelos” que mimetizam um tronco de árvore com ramos podados e os capitéis com a representação de grotescos “já nos remetem para o renascimento”. A “intrusão de um movimento posterior à arte manuelina” é uma “característica única” daquele portal, considera.

Em 1834, o ministro Joaquim António de Aguiar, conhecido por “mata-frades”, extinguiu as ordens religiosas e ordenou a expropriação de todos os bens das mesmas. Assim, como muitos outros espaços, o Convento de Vilar de Frades passa para o Estado e é depois vendido em hasta pública. De uma área de 90 hectares, foi tudo vendido a privados, excepto a igreja e o claustro, que fica a funcionar como residência paroquial. Ou seja, no domínio público fica 10% de toda a unidade conventual. O espaço vendido a privados é inicialmente transformado em quinta. Em 1953 é comprado por Artur Cupertino de Miranda que, em 1957, o vende à Ordem Hospitaleira de S. João de Deus que ali, ainda hoje, tem presença com a Casa de Saúde S. José, para doentes mentais.

CLAUSTRO

O claustro é “o elemento de ligação de todos os espaços e dependências” na orgânica de construção de conventos e mosteiros. No Convento de Vilar de Frades havia um claustro manuelino, de inícios do século XVI, de quando ocorre a construção da igreja pela Congregação de Cónegos Seculares de S. João Evangelista. Desse claustro apenas “resiste a parede sul, hoje em ruina”, aponta António Pereira. O claustro manuelino era pequeno mas bastante luxuoso, com ornamentações em mármore e um chafariz no centro.

Do século XVII a inícios do século XIX registam-se “grandes transformações” no Convento. O claustro manuelino é substituído por outro, nos finais do séc. XVIII e inícios do séc. XIX, com estilo neo-clássico. “Mais simples, com uma arquitectura mais austera e menos ornamentada”. Esse tipo de construção traduz-se nas duas alas existentes. Só que a construção não foi terminada por causa da extinção das ordens religiosas em 1834 e as outras duas alas ficaram por erguer.

“No contexto da clausura, o claustro permitia ter algum contacto com o exterior”, com elementos naturais. Daí a existência de um chafariz no centro do jardim. O chafariz barroco do claustro de Vilar de Frades é o que hoje está no Largo da Porta Nova, onde foi colocado após a Ordem Hospitaleira de S. João de Deus o ter cedido ao Município, nos anos 60.

O claustro era ainda um “espaço de convívio entre os vivos e os mortos”, pois era um local de enterramento de frades e religiosos. No âmbito da requalificação do Convento de Vilar de Frades iniciada em 1990 foram descobertas nas galerias do claustro seis sepulturas. Foram identificados, ainda, outros enterramentos no jardim, no claustro manuelino.

Antes da construção dos cemitérios, os paroquianos eram enterrados no adro da igreja. No século XIX,na altura das invasões napoleónicas, como o adro da igreja estava ocupado pelo exército francês, os enterramentos das pessoas de Areias de Vilar passaram, “excepcionalmente”, para o claustro do convento, espaço destinado a frades e religiosos.

IGREJA

Graças à “grande proximidade” com o arcebispo de Braga, D. Diogo de Sousa, a Ordem dos Lóios começa a construir uma nova igreja, de estilo manuelino, nos inícios do século XVI. D. Diogo de Sousa financiou a capela-mor, onde estão cravados os brasões da sua família, e só não financiou a nave porque ter-se-á desentendido com os Lóios. “Segundo as crónicas dos Lóios, terá havido um desentendimento, porque o arcebispo entendia que na parte do arco do cruzeiro deveria constar o seu brasão e a Ordem optou pela águia de S. João Evangelista”. Isto fez com que D. Diogo de Sousa deixasse de financiar as obras, embora fosse habitual, à época, os “mecenas” pagarem a capela-mor e a nave ser paga pelos paroquianos.

Como o arcebispo não mais financiou a obra, teve que ser a Ordem a pagar a nave da igreja, só que como não tinha grande capacidade financeira, a qualidade da construção não era a melhor. Em 1616, a 20 de Janeiro, uma tempestade, que ficou conhecida como tormenta de S. Sebastião, danificou a nave, o que levou a Congregação a encerrar a igreja e a construir a Capela da Nossa Senhora do Socorro onde passa a realizar-se o culto durante alguns anos. Em 1621, começa a ser reconstruída a nave, cujas obras só ficam completas em 1694. Apesar de nesta época já haver outras formas vigentes na arquitectura, os Loios “têm a preocupação” de manter o estilo manuelino.

A planta da igreja é em forma de cruz latina. A separar a nave da capela-mor, o transepto foi financiado por D. Leonor de Lemos e D. Teresa de Mendonha, sobrinhas de D. Diogo de Sousa.

Estima-se que tenha sido João de Castilho, dos maiores arquitectos da Europa naquela época, a fazer o projecto da igreja do Convento de Vilar de Frades. Isto porque, então, estava a trabalhar na Sé de Braga. Ora, como João de Castilho estava a trabalhar para D. Diogo de Sousa, que por seu turno se comprometera a financiar a construção da igreja e, tendo em conta a “traça erudita” e o seu carácter inovador, tudo “leva a crer” que tenha sido o arquitecto espanhol a desenhar o projecto e a mandar um seu assistente, João Lopes-o-Velho, executá-lo.

Há alterações que provêm quer do advento do barroco (os retábulos de talha dourada), quer do Concílio de Trento (1545 – 1563), que leva a colocação de “gradeamento para delimitar o espaço reservado aos fiéis e o espaço reservado aos religiosos”. As capelas laterais – cinco de cada lado – têm comunicação entre si, o que permite que os eclesiásticos possam atravessar toda a nave sem entrar no espaço reservado aos fiéis. “Há um encontro muito feliz entre a arquitectura manuelina e as disposições do Concílio de Trento”.

Os elementos do barroco estão patentes nos retábulos em talha dourada mas também na azulejaria. Os azulejos encomendados para revestir a parte inferior da capela-mor, possivelmente por volta de 707, foram retirados em meados desse mesmo século e distribuídos pelas capelas-laterais – no seu lugar original foram colocados dois cadeirais. Acontece que a “transposição desses elementos não foi a mais feliz”, explica António Pereira, e muitos perderam-se. Aquando da intervenção naquele espaço reparou-se que, no tardoz (o verso) dos azulejos, havia uma ordenação alfa-numérica. Foram recompostos por essa ordem, mesmo faltando diversos elementos, na sala de exposições do Convento.

Nas capelas laterais mantêm-se quatro painéis, datados de 1742 e 1736, que são “um exemplo muito raro da azulejaria joanina de Bartolomeu Antunes”. Diferencia-se do barroco sobretudo no “enquadramento das cenas”, uma vez que na arte barroca a “cercadura”, o que envolve as imagens, “é muito simples” e o estilo joanino é mais rebuscado. A oficina de Bartolomeu Antunes era a de “maior renome no séc. XVIII” e com o terramoto de Lisboa, em 1755, muitas das suas produções desapareceram, o que acrescenta ainda mais valor aos azulejos que se encontram no monumento. “É por causa destes elementos que, no seu conjunto, Vilar de Frades é reconhecido como monumento nacional”, sublinha o arqueólogo.

Um dos retábulos da capela-mor representa o purgatório como espaço de transição, sequência das disposições do Concílio de Trento. Nele há a representação de S. Miguel com uma balança a determinar as almas que irão para o céu, mas também tem imagens de S. João de Baptista e de, supõe-se, Santa Maria Madalena. Nenhum tem relação com o “culto das almas” mas aparecem representados pela ligação à comunidade. “Na Idade Média, Vilar de Frades estava repartido em três diferentes paróquias: a de S. Salvador, que continua a ser o padroeiro da igreja, a de S. João Baptista e de Santa Maria Madalena. No séc. XV são absorvidas pelo convento e a [paróquia] passa a ser Areias de Vilar como a conhecemos hoje mas, do ponto de vista da identidade, essa separação ainda se mantém. Principalmente as pessoas mais antigas, ainda hoje, quando vêm assistir à eucaristia, as que são de S. João Baptista sentam-se de um lado e as que são de Santa Maria Madalena sentam-se noutro”, aponta António Pereira.

SACRISTIA

A sacristia é tipicamente neo-clássica, dos finais do séc. XVIII e inícios do séc. XIX. Antes “haveria outra sacristia, de construção manuelina, muito menor”. Uma das características mais interessantes da sacristia é o facto de ser simétrica. Tudo tem correspondência. Por exemplo, aos janelões correspondem afixados na parede interior quadros, com os quatro evangelistas, atribuídos a Pedro Alexandrino, do mesmo tamanho.

Há uma mesa ao centro para preparar o cálice da missa, arcazes para guardar os paramentos, tectos em estuque naturalistas que foram recuperados na intervenção da DRCN e elementos que nos permitem perceber melhor a congregação dos Lóios. De carácter reformista, com os entraves criados em Portugal à criação de novas ordens religiosas e dado que não se identificava com nenhuma das existentes em Portugal, a Congregação acaba por se apoiar na italiana Ordem de S. Jorge de Alga, de Veneza, “que se caracterizava por envergar hábito azul”. Daí que haja uma escultura de S. Lourenço Justiniano, primeiro patriarca de Veneza e ligado à fundação daquela Congregação em Portugal, com o hábito azul que era usado pelos Lóios.

CORO ALTO

O coro alto é um espaço que está acima das restantes partes da igreja. “Local de reunião e oração, mas também de elevação espiritual”, explica o guia, assim, o “significado simbólico” do espaço. “Coro alto porque se está mais perto do céu”.

O espaço acompanha a reformulação do corpo da igreja do séc. XVII e foi encomendado a um ensamblador chamado António Padilha. No contrato para a realização da obra é estipulado que “o cadeiral devia seguir o mesmo modelo do convento da Serra do Pilar” e a estante de canto chão (ou gregoriano) devia ser “igual” à do Mosteiro de Tibães. É ali que está o órgão, cuja caixa foi recuperada na intervenção da DCRN, faltando arranjar o instrumento em si. O órgão, a imagem de cristo crucificado e o gradeamento são “reformulações” de meados do séc. XVIII.

SALA DE EXPOSIÇÕES

A sala de exposições está no local onde teria funcionado – não há confirmação – a cozinha do convento. À entrada vemos a pia baptismal românica que estava enterrada sob a pia baptismal manuelina que ainda se encontra numa capela lateral da igreja. A pia românica foi encontrada na década de 90 numa intervenção arqueológica. Depois vemos a reconstituição dos azulejos que originalmente pertenciam à capela-mor e que se encontram incompletos. De um lado a homenagem a figuras importantes da Congregação dos Lóios e do outro às da Ordem de S. Jorge de Alga. Estima-se, também, que os painéis das partes inferiores reconstituam as vidas de S. Jerónimo e de Santo Agostinho. A visita guiada chegou ao fim.

Ingressos

Ingresso normal – 1€

Visita guiada – 50% do valor do bilhete

Descontos (Requer comprovação documental):

Visitantes com idade igual ou superior a 65 anos — 50%

Cartão de Estudante — 50%

Cartão Jovem — 50%

Família Numerosa (2 adultos+ filhos) — 50%

Bilhete Família (a partir de 4 elementos com ascendência e/ou descendência em linha recta, ou equivalente) — 50%

Informações e marcação de visitas guiadas: conventovilarfrades@culturanorte.pt / 932 528 411

Horário de Inverno: de 6ª feira a domingo, das 10 às 18 horas

Horário de Verão: de 4ª feira a domingo, das 10 às 18 horas

Cronologia

Século VI – Data provável a que remonta o monumento. Era um mosteiro beneditino

1425 – Fundada em Vilar de Frades a Congregação dos Cónegos Seculares de S. Salvador de Vilar de Frades, conhecida também como Ordem dos Lóios

1461 – Muda de nome para Congregação de Cónegos Seculares de S. João Evangelista

1834 – As ordens religiosas são extintas e os seus bens expropriados. Convento de Vilar de Frades é vendido em hasta pública, à excepção da igreja e da residência paroquial

1957 – Artur Cupertino de Miranda, que comprara 1953 a parte privada – que é a maioritária – do Convento, vende-a à Ordem Hospitaleira de S. João de Deus que tem ali actualmente uma Casa de Saúde Mental a funcionar

Década de 60 – Ordem Hospitaleira de S. João de Deus cede ao município o chafariz do claustro do Convento de Vilar de Frades que hoje se encontra no Largo da Porta Nova

1994 – Começam obras de requalificação do Convento de Vilar de Frades

2006 – O espaço é aberto ao público

 Reportagem publicada na edição 210 (Série III) do Jornal de Barcelos no dia 21 de Janeiro de 2015.

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