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adolfoO vocalista dos incontornáveis Mão Morta esteve à conversa com o JB horas antes de comentar um filme sobre Nick Cave exibido no décimo aniversário da Zoom, no Teatro Gil Vicente. A liberdade de expressão, as acusações de incentivo à violência de que os Mão Morta foram alvo e a repulsa pelas redes sociais são temas abordados nesta entrevista em que Adolfo Luxúria Canibal lembra que, na sua adolescência, Barcelos era vista como uma cidade “parola”, mas que essa imagem mudou radicalmente. “Como é que se formou toda uma geração tão vanguardista em Barcelos?”, pergunta.

A seguir ao atentado ao Charlie Hebdo houve uma grande discussão pública em torno da liberdade de expressão na qual encontro um paralelismo com a polémica que houve em torno do videoclipe dos Mão Morta, “Pelo relógio são horas de matar”. A questão dos limites, de incitar à violência…

O único argumento que me tocou e que, de certo modo, ainda não resolvi é a questão da blasfémia. A liberdade de expressão não é sequer questionável, é um valor das democracias. A questão tem a ver com a blasfémia. É um crime num ou noutro país nórdico, a Noruega, salvo erro. E o que é a blasfémia? É de alguma forma ridicularizar valores religiosos. Para alguém, como eu, que não tem religião, esta história da blasfémia, à partida, é um absurdo, mas o argumento chave que me tocou é que consideramos que é um absurdo porque temos uma visão positivista saída da revolução francesa relativamente às religiões. Estamos a dar mais valor ao ponto de vista ateu do que ao de um religioso, seja qual for a religião. (…) A minha mãe dizia-me: graças a Deus muitas, graças com Deus nenhuma. Isto é uma perspectiva católica cristã que pode ser transversal a todas as religiões monoteístas.

Então compreende que se diga que com a religião não se deve brincar ou criticar?

Eu acho que o estado superior civilizacional é um estado não religioso. Do meu ponto de vista, deve brincar-se e muito com as religiões e com a ideia de Deus. Mas é um ponto de vista ateu. Uma sociedade como a França, que é secular, em que o Estado é separado das igrejas e onde os valores republicanos perduram acima de tudo, essa posição deve ser a dominante, deve haver liberdade total de brincar com as religiões e não deve haver qualquer crime de blasfémia. Mas em países como, por exemplo, Portugal, onde há uma Concordata, em que o Estado não é por definição católico, é laico, mas há uma grande identidade entre os valores cristãos e os do Estado, de alguma forma faz sentido que haja um crime de blasfémia. (…) São questões que não têm resposta fácil.

Mas eu queria era o seu ponto de vista.

Claro que do ponto de vista ateu não há qualquer limite, a não ser os criminais. Em termos de códigos penais há um limite que é o bom nome. Não podemos atentar contra o bom nome, é crime. Faz-se esse paralelismo. O bom nome das religiões são os seus valores, tal como o bom nome das pessoas são os seus valores. Se eu disser que uma pessoa é mentirosa, é um atentado ao bom nome, a não ser que prove que é mentirosa. Dizer que uma religião engana os fiéis, que é vigarista, é um atentado ao bom nome dessa religião. Há esse paralelismo.

Tem que haver um distanciamento. Uma instituição é diferente de uma pessoa.

Claro que sim, mas não há muita diferença entre um valor individual e um valor colectivo ou ideológico. Do meu ponto de vista, que sou ateu, não deve haver limites para brincar com Deus, seja ele qual for. E mesmo que haja limites, o tal crime de blasfémia tem, quando muito, um sancionamento penal, nunca uma vingança com morte, isso é perfeitamente absurdo.

Quando o videoclipe de “Pelo meu relógio…” foi lançado, houve quem o visse como um uma incitação ao ódio, à violência…

Antes do vídeo, a canção insere-se num disco que conta uma história e é o último tomo dessa história. É a história de alguém que, por se terem degradado de tal modo as suas condições quotidianas, de sobrevivência física e de bem-estar social, perde a cabeça e acaba a praticar actos violentos de uma forma cega contra a destruição da sua vida. Isto é um perigo, porque as políticas de austeridade, ultrapassado determinado limite, como foi alertado por vários políticos, nomeadamente Mário Soares… Nunca ninguém disse que o Mário Soares incentivava o terrorismo, acho eu.

“HÁ UM LIMITE A PARTIR DO QUAL AS PESSOAS PERDEM A CABEÇA”

Também houve quem dissesse…

Também houve? Pronto… (risos). É o mínimo do bom senso pensar que há um limite a partir do qual as pessoas perdem a cabeça. Houve um banqueiro que disse que as pessoas aguentavam tudo e mais alguma coisa, mas isso são os banqueiros que não passam dificuldades, mesmo quando são apanhados pela justiça continuam a ser banqueiros e a viver noutro mundo, não sabem do que estão a falar. Chegando a um beco sem saída, como qualquer animal, os estudos behavioristas mostram isso, as pessoas tornam-se violentas, atacam o seu semelhante e a elas próprias. O suicídio é um exemplo. Nunca se viu tanto suicídio em Portugal. (…) É uma história sobre como se chega de um bem-estar individual a um estado de desespero que pode levar a actos impensáveis ou impensados. A própria canção fala de uma coisa que o código penal prevê. Quando as condições se tornam insustentáveis, a pessoa tem direito à auto-defesa. O código penal aceita ou não pune o homicídio quando é em legítima defesa. O que é legítima defesa? Quando não há outro meio para afastar um perigo para si próprio. O princípio é o mesmo. Podemos discutir o que a é a insustentabilidade, mas não está definido em lado nenhum a partir de que patamar é que pode ser crível a legítima defesa. Mas ninguém discutiu isso nesses termos, discutiu-se foi que essa auto-defesa era um apelo ao terrorismo, o que é um absurdo. O próprio código penal, então, seria um absurdo. Depois pegou-se no clipe, que é uma ilustração quase publicitária. A função do clipe é como vender sabonetes, tem que ser forte, porque quanto mais forte for mais apelativo é, mais impacto causa. Pegou-se num clipe em que há uma pessoa a disparar tiros…

Mas com pessoas bem conhecidas por trás…

Por trás num outro nível. Há vários níveis. Tem-se o quotidiano por trás, com pessoas conhecidas, que é o que passa nas televisões, era tudo imagens televisivas, e depois vemos um gajo desesperado aos tiros. As pessoas que levam com os supostos tiros e ficam supostamente mortas são desconhecidas. Há um que está vestido de padre, que era uma private joke entre o realizador e o actor. O realizador sempre lhe disse que o havia de filmar como padre. Não tinha outra leitura. É evidente que as pessoas são livres de ter outra leitura, porque aquela pessoa está vestida de padre, mas todos os outros não tinham propriamente uma identificação. São pessoas normais, executivos. Ainda quis que ele pusesse lá um gajo de BMW mas era difícil de filmar, não se conseguia meter o carro dentro do estúdio.

Numa entrevista disse que nem sequer tinha visto o vídeo, mas tinha visto…

Finalizado, não. Nessa altura, tinha visto o esboço.

De todas as coisas que se disseram, quais as opiniões que mais o desiludiram?

Houve muita polémica, sobretudo na net, mas aí passou-me ao lado, porque estou um bocado farto dos imbecis que, debaixo do anonimato, disparam à esquerda e à direita, dizem tudo da boca para fora, completamente desbragados, insultam toda a gente. Não consigo sequer pensar em ler coisas na net. Não consigo ler quando são os outros os focados, muito menos quando somos nós. Nem sequer fui à net ver o que havia. Polémicas da net, não, obrigado, já há muito tempo. Agora, em termos de jornais, das poucas coisas que li, houve um pivô da Sic ou da RTP que tem um artigo de opinião num jornal qualquer, que provavelmente não deve ouvir música, não deve conhecer Mão Morta de lado nenhum, não deve saber o que é música portuguesa, e diz com um desplante enorme, lá de cima do seu patamar divino, que os Mão Morta fizeram aquilo porque estavam a entrar numa fase de decadência e havia uma grande concorrência das novas bandas e por isso precisavam de marcar espaço face à concorrência emergente. Fogo, onde estes gajos chegam! Estamos sempre a dar a mão às novas bandas! Este gajo não sabe do que está a falar.

“A NET É A MESQUINHEZ ELEVADA A VALOR SUPREMO”

Muitas pessoas falaram sem perceber o contexto.

Não perceberam o disco, não perceberam o contexto, efectivamente, mas também não conhecem sequer a música portuguesa nem os Mão Morta. São daquelas pessoas que, se calhar, chegam aos concursos televisivos e, se lhes perguntam como se chama o vocalista dos Mão Morta, se é Adolfo Luxúria Canibal ou Adolfo Peixe de Cabidela, dizem que é o Peixe de Cabidela. São essas pessoas ignorantes que fazem a polémica. Acho que nem vale a pena dar importância a essas coisas.

Falou dos comentários na internet. Noto, não sei se é por efeito da internet ou se esta é que o mostra numa escala maior, que as pessoas vêm perdendo a capacidade de descortinar o segundo sentido das coisas, têm dificuldade em perceber a ironia, por exemplo.

Quando antigamente se escrevia cartas, a pessoa demorava o seu tempo, a coisa ia pensada. Escrevia-se com jeito, com calma, com labor, de maneira que não havia equívocos. Nas conversas de café, uma pessoa pode dizer os maiores disparates, mas há uma visibilidade das pessoas que se apercebem logo do metatexto: a ironia, o tom. Não se leva à letra o que é dito. Na net escreve-se com velocidade, sem pensar, como se fosse conversa de café, e não tem a visibilidade. Portanto, todas aquelas nuances metalinguísticas, tom, cara, expressão, tudo isso desaparece. Algumas pessoas dão-se ao trabalho de quando escrevem uma bojarda meterem uma cara a sorrir para dar a entender que estão a brincar, a ser cínicas ou irónicas. Mas não chega, as pessoas não conseguem perceber, lêem exactamente no primeiro grau e depois dá coisas terríveis.

Não usa nenhuma rede social?

Não. Uso o e-mail como ferramenta de trabalho, que é óptimo.

Mas nunca usou?

Tivemos uma vez no site dos Mão Morta uma coisa que era parecida com uma rede social, uma espécie de fórum, e para mim chegou, fiquei vacinado. Nunca mais quis nada com aldeias globais. Para mim, nem aldeias físicas, quanto mais globais. Gosto de cidades, de sítios onde as pessoas sejam livres, não gosto de sítios onde as pessoas sejam mesquinhas, e a net é a mesquinhez elevada a valor supremo.

É a net que propicia ou apenas dá visibilidade a esses comportamentos?

Dá visibilidade e propicia.

É que há pessoas a dizer coisas na internet que frente a frente com outra pessoa nunca diriam.

Ou diriam com o tal sorriso, mas efectivamente muitas vezes não diriam sequer. Porque a net propicia o lado cobarde das pessoas. Aquele rancor que não são capazes de deitar cá para fora, ou deitam só entre dentes e com pessoas muito próximas, na net deitam-no cá para fora à força toda porque são anónimos. É como lançar uma bomba e virar costas, não vêem o que estragou. É diferente de olhar uma pessoa nos olhos e dar-lhe um tiro. Não é qualquer pessoa que dá um tiro no meio dos olhos a outro ser humano. Lançar uma bomba ou fazer-se explodir no meio de uma multidão qualquer um que seja um bocado atrasado mental faz, não precisa de uma coragem especial. A net é o terreno ideal para os cobardes.

“QUANDO EU ERA ADOLESCENTE, BARCELOS ERA A CIDADE PAROLA”

Hoje está aqui [Barcelos] para comentar um documentário sobre o Nick Cave. Tem uma relação próxima com Barcelos. Já tocou com Mão Morta cá algumas vezes, é um espectador atento do Milhões de Festa, já colaborou com os Black Bombaim no “Titans”. Qual é a sua impressão da cidade e dos projectos que por cá existem?

Barcelos fica a dois passos de Braga. É uma cidade que tem um centro histórico bonito e aquele postal sobre o rio na ponte velha é qualquer coisa de extraordinário. É uma cidade que, quando eu era adolescente, era olhada com alguma sobranceria, era a cidade parola. Não sei de onde lhe vinha essa fama, mas o certo é que era uma coisa que as pessoas sentiam. Os de Braga olhavam para Barcelos com esse despudor, os de Viana também, os de Guimarães também. Havia no Minho um olhar um bocado estranho de menoridade sobre Barcelos. O certo é que hoje olhamos para Barcelos e não é isso que vemos. Vemos uma coisa que, de repente, passou a ser extraordinariamente valorizada, uma cidade que mantém as tradições minhotas mais puras muito vivas. Talvez daí, se calhar, o olhar sobranceiro de aqui há uns anos. No fundo, o olhar que era parolo era o nosso. Outra coisa extraordinária é o trabalho de barro. Não só em termos de barristas tradicionais, das pecinhas de presépio, mas também uma casta de autores de barro, a começar pela Rosa Ramalho, mas muitos outros, que criaram uma mitologia acerca desse trabalho, obras de arte que ultrapassam a mera arte popular. Para além do velho símbolo do Galo de Barcelos. Depois, também tem uma coisa estranhíssima, que é a quantidade enorme de coisas potentes e numa sensibilidade muito underground, muito rock psicadélico que existe em Barcelos e explode por todos os lados e dá cartas a nível nacional. Como é que se formou toda uma geração tão vanguardista, para utilizar um termo arcaico, em Barcelos, essa tal terra de tradições ou pseudo-parola? O certo é que Barcelos convive muito bem com essa tradição do barro, dos motivos minhotos, do galo, e com essa nova tradição da música experimental, de música underground muito para a frente. Não há outra coisa parecida em Portugal como existe em Barcelos. É uma cidade que é estranha e para mim passou a ser uma cidade importante e que conta no esquema português.

E Braga?

É uma cidade maior, que poderia ter outras potencialidades. Já teve, e tem ainda, muita música, mas mais dispersa, com menos cunho único. Tem muitas coisas boas em termos musicais mas tem problemas enormes de rentabilização de imagem. Barcelos consegue pegar na sua música e pô-la a circular pelo país, consegue criar uma espécie de imagem de Barcelos. Independentemente dos grupos, é sempre o nome de Barcelos que circula em termos musicais por todo o país. Em Braga tens os Mão Morta e os peixe:avião, que são conotados com a cidade. Depois tens um ou outro grupo, mas nem sequer fazem referência a Braga. Há grupos que se projectam mas a cidade em si não se consegue projectar, ao contrário de Barcelos.

Os Mão Morta têm concertos marcados…

Tivemos um problema, que ainda existe, com o [baterista] Miguel Pedro. Iniciámos a tournée no ano passado e o Miguel Pedro ainda fez o primeiro concerto, mas descobriu-se que tinha um problema na mão e teve que ser operado. É um problema na cartilagem que só dá a bateristas e tenistas. Fizemos a tournée com um baterista substituto, o Ruca Lacerda, e acabámos a primeira parte [da digressão] em Novembro. Marcámos a segunda parte para Fevereiro, a pensar que o Miguel já estaria bom, mas vai falhar as duas primeiras datas e voltar no concerto em Lisboa, se tudo correr bem. Temos um monte de datas até Abril.

 E Barcelos é uma das cidades contempladas?

De Barcelos não me falaram de nada.

Há algum dos concertos que deu em Barcelos que recorde particularmente?

Demos um na Praceta Sá Carneiro que foi engraçado e outro na casa amarela que foi extraordinário, uma loucura, completamente cheio. Na parte de cima tínhamos uns internados [a assistir ao espectáculo] e era uma sensação muito estranha: sentir que estávamos a ser mais loucos que os próprios loucos. Foi um concerto que me ficou na memória. Foi muito bom, muito pujante e correu-nos muito bem. Sei que as pessoas ficaram furiosas porque não fizemos encore. Tínhamos decidido que não fazíamos mais encores. E esse foi o primeiro concerto após a decisão mas, depois do que aconteceu, decidimos: “Que se lixe, vamos fazer encores porque as pessoas gostam e nós também gostamos”.

Então, foi só mesmo esse.

Foi (risos). Mas sei que na altura as pessoas ficaram furiosíssimas connosco. O da Praceta Sá Carneiro já não me lembro tão bem, também foi há mais tempo. Mas demos outro em 88 ou 87 na Tomadia, em Barcelinhos, esse foi o caos completo, bebedeira completa. Estivemos a tarde toda à espera para fazer o soundcheck a beber, a beber, e quando chegou a hora de irmos para o palco já não nos tínhamos nas canelas. Foi mesmo a desgraça total. Lembro-me bem disso, a desgraça que foi, a vergonha completa.

Entrevista publicada na edição 212 (Série III) do Jornal de Barcelos no dia 4 de Fevereiro de 2015.

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