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Lino PereiraLino Pereira é desde Fevereiro de 2014 professor assistente da Universidade Católica de Leuven. Tinha então 28 anos (já tem 29) e foi “o mais novo (ou talvez o segundo mais novo) a ocupar uma posição dessas na longa história da universidade”, realça Ian Vickridge, director de investigação do Instituto de Nanociências de Paris, numa recomendação para o último dos prémios com que o cientista natural de Carvalhal foi laureado.

“Felizmente, ganhei esta posição bastante cedo. É uma situação rara. Foi uma combinação de factores, um pouco de sorte, como sempre”, refere o investigador que cedo encontrou na Bélgica estabilidade profissional. “Posições deste género vão abrindo em Portugal, mas provavelmente teria de esperar bastantes mais anos até conseguir uma oportunidade destas”, diz, via Skype.

Lino Pereira ressalva, contudo, “que se faz muito boa ciência em Portugal” e que o seu sucesso “deve-se em muito à qualidade da investigação” que se faz no seu país de origem. “Desde que a tal crise começou, a investigação científica tem sido bastante asfixiada. Há muita qualidade mas é muito mais difícil fazer as mesmas coisas que lá fora. Com a falta de perspectivas a longo prazo, fica difícil tomar determinados riscos. Não quer dizer que o que faço aqui não pudesse fazer em Portugal, mas no meu caso específico não iria acontecer tão cedo”, explica.

Bastante novo o cientista percebeu que “queria fazer exactamente” o que está a fazer agora e até tem uma “história engraçada” para o ilustrar: “Tinha um padrinho que sempre quis que eu fosse juiz. E até me dizia: ‘mesmo que não tenhas dinheiro para estudar, eu pago, desde que seja para juiz’. Mas desde que me lembro sempre disse que queria ser professor universitário, e na altura nem sabia o que era isso”.

Quando terminou o 9.º ano escolheu naturalmente Ciências. E como no secundário se “tornou óbvio” que ia seguir Física, no 12.º ano teve que trocar de escola – foi para a Escola Secundária Alcaides de Faria, porque a Secundária de Barcelinhos, nesse ano, não teve alunos suficientes para criar uma turma de Física. A convicção no caminho a seguir deveu-se, “entre outras influências”, a um dos docentes que teve na disciplina de físico-química no secundário, Joaquim Jorge Oliveira, “um excelente exemplo do impacto que a dedicação de um professor, mesmo antes do ensino superior, pode ter no futuro dos seus alunos”. Depois fez a licenciatura em Física na Faculdade de Ciência da Universidade do Porto, tendo conquistado o prémio Prof. Moreira de Araújo e Eng. António de Almeida, atribuído aos estudantes de Física que terminam o curso com a média mais alta.

Entre 2007 e 2011 fez o doutoramento com um pé em Portugal e outro na Bélgica. “Foi misto. Era para ser metade do tempo fora de Portugal, mas acabei por passar mais tempo na Bélgica do que estava planeado” e também com muito trabalho no CERN, o maior laboratório de física de partículas do mundo. Depois ficou “a tempo inteiro” em Leuven a fazer pós-doutoramentos até vencer o concurso para professor assistente. É uma posição permanente que lhe permite pensar a longo prazo e, por isso, dificilmente regressará a Portugal. “Antes de Fevereiro, diria: quem sabe. Seria muito improvável voltar por falta de oportunidades. Se me oferecessem garantias de financiamento para fazer o tipo de investigação que gostaria, consideraria voltar”. Agora, “é praticamente impossível regressar. Tudo aponta para que fique”. Tem uma namorada belga, perspectivas de futuro e, “depois de se habituar ao mau café e ao mau tempo, fica difícil sair” da Bélgica, refere. “Cá é bastante mais estável. Não é perfeito, mas está-se bastante melhor do que em Portugal. Dá para fazer planos a longo prazo. Sabes que podes confiar em determinadas promessas que te fazem. No futuro, para pensar em constituir família, sabes que mesmo que se tudo te corresse mal, o sistema é bastante estável, não te deixavam à rasca”. E, por isso, já está em pensar em adquirir casa própria em Leuven. O que fará quando regressar da Austrália para onde vai entretanto seis meses em trabalho. “Quando comecei com esta posição permanente, ainda tinha mais dois anos de uma bolsa individual de pós-doc e então a gente concordou que continuaria o projecto que incluía uma estadia em Canberra, que era suposto ser de um ano, mas como agora tenho o meu próprio grupo, reduzi para meio ano”.

INVESTIGADOR PREMIADO

Além do prémio Prof. Moreira de Araújo e eng. António de Almeida, Lino Pereira já conquistou três prémios internacionais. Em 2011 foi laureado com o “Best Student Presentation Award” (melhor apresentação de um aluno) na 56.ª Conferência Anual sobre Magnetismo e Materiais Magnéticos no Arizona, Estados Unidos. “Das maiores conferências mundiais sobre magnetismo”, na qual ter feito a “apresentação oral em si foi um privilégio”. Em 2013, também nos Estados Unidos, desta feita em Seattle, o paper que apresentou na 21th International Conferece on Ion Beam Analysis foi considerado segundo melhor do evento. Por fim, no ano passado foi agraciado na 19th Internacional Conferece on Ion Beam Modification of Materials com o Prémio IBMM que distingue investigadores em início de carreira que tenham dado um contributo extraordinário para a área de estudo. Este prémio teve um sabor especial por ter sido ganho “em casa”, isto é, em Leuven, onde a bienal teve lugar.

Lino Pereira não embandeira em arco e considera que estes “prémios são banais” pois existem em todas as conferências e há muitas conferências por todo o mundo, mas também não desvaloriza e reconhece que “não é absolutamente normal” ser premiado, assim, três vezes num curto espaço de tempo. “No final do doutoramento as coisas começaram a correr e quase em cada conferência ganhava um prémio”.

Todavia, não são os prémios que o fazem correr. “Todos os cientistas que fazem carreira em ciência não é pelo ordenado (não me posso queixar, mas não é pelo dinheiro que escolhi a carreira), é pela paixão. Se perguntares a qualquer tipo na minha situação, ele não te diz que tem um emprego: faz aquilo que gosta e ainda lhe pagam por cima. A gente faz investigação porque é o que mais gozo nos dá”.

E o que investiga em concreto o cientista barcelense? Em linguagem simples, o próprio explica: “Estou à procura de materiais electrónicos que um dia – se calhar daqui a 50 anos – vão substituir os que a gente usa na electrónica de hoje, em particular semicondutores. (…) Os semicondutores usados na electrónica convencional estão a atingir determinados limites e andamos a procura não só de materiais novos mas de uma física nova que poderá alimentar uma electrónica do futuro”.

Como professor assistente, Lino Pereira investiga mais do que dá aulas. “Há uma cadeira ou duas, três se tiver um pouco de azar, mas a maior parte do tempo é dedicado à investigação”. Agora, comanda uma equipa de investigadores. E ele, que começou por ocupar a secretária que um português deixou vazia, tem “contribuído” para a fuga de cérebros em Portugal. “Já contratei dois portugueses. Tem um bocado a ver com o menor número de oportunidades que há em Portugal. Na Bélgica, o pessoal que segue física tem bastante oferta, enquanto em Portugal ou arranjas alguma forma de fazer carreira em investigação ou não há uma indústria que consiga absorver o pessoal com este tipo de preparação, como há na Bélgica. Então fica-me bastante mais fácil contratar os óptimos alunos portugueses, que têm mais dificuldades em Portugal. Isso cria-me alguma facilidade para atrair o talento português. De alguma forma estou a contribuir para o brain drain, mas não é de propósito. Se um belga melhor do que os portugueses se candidatar às posições que eu abro, vai tê-la. Enquanto não tiver um belga melhor, vou continuar a contratar os portugueses”.

TRABALHAR FORA DE HORAS? BELGAS DIZEM NÃO

A integração do cientista português foi fácil. “Os belgas são porreiros”, diz. “A sensação que tens no início é que são bastante fechados e há tendência para entender isso como arrogância. São bastante reservados e, de facto, é difícil entrar nos grupos deles mas mais por medo deles de não te compreenderem porque vens de uma cultura diferente, não por um sentimento de superioridade”. O facto de “cedo” ter conhecido a sua namorada, Charlotte, ajudou-o a entrar em grupos em que “não entraria de outra forma”.

Um dos “choques culturais” com que Lino Pereira deparou foi o desmoronamento da ideia de os europeus do Norte “serem uns chatos e só saberem trabalhar”. Pelo contrário. O investigador levava de Portugal o hábito de trabalhar fora de horas. Muitas vezes ao fim-de-semana ia para o laboratório despachar trabalho e encontrava outros colegas. Continuou a fazer o mesmo na Bélgica, mas quando à segunda-feira comentava que tinha estado no laboratório, onde via outros colegas, mas apenas estrangeiros, começou a perceber que para os belgas o assunto era “tabu”. “Os belgas nunca apareciam [ao fim-de-semana no laboratório] e não queriam ouvir falar de trabalho fora-de-horas. É das nove às cinco, mas nem pensar em trabalhar fora-de-horas muito menos ao fim-de-semana. Há tempo para tudo. Trabalha-se de forma eficiente, pouca conversa, pouco Facebook e afins, mas depois tem que haver tempo para a família, desporto, hobbies, etc. (…) Gostam de viajar, ir a restaurantes. A malta aqui gosta de aproveitar a vida e eles é que me ensinaram isso a mim, a um gajo do Sul da Europa”, diz, admitindo que continua “às vezes a trabalhar fora de horas”.

Logo que terminou o doutoramento (durante o qual vinha muitas vezes a Portugal), “tentava” vir ao país de origem “pelo menos duas vezes, no Verão e no Natal, agora tem sido pelo menos uma vez e assim há-de ser nos próximos anos”. Isto porque a boa situação profissional que agora tem não a encara como um motivo para “relaxar”, pelo contrário: “Posso pensar que posso construir alguma coisa minha de raiz, com as minhas ideias, o que significa que o meu trabalho duplicou ou triplicou e fica um bocado difícil ir a Portugal”. Mas pelo menos uma vez ao ano é sagrado. “Nem que seja para ter um pouco de Verão a sério”.

A carreira na ciência exige “muito trabalho e dedicação” e por isso Lino “tem tudo a agradecer” à família que sempre lhe deu todo o apoio: os pais e os dois irmãos mais velhos. “Todos os domingos telefono ao papá e à mamã”, refere, reconhecendo, contudo, que durante o doutoramento “passava semanas sem dizer nada”. Pensava: “as más notícias viajam depressa. No news is good news [não haver notícias é uma boa notícia]”. Entretanto, em Junho vai nascer o seu sobrinho e afilhado, numa altura em que o investigador estará na Austrália, de onde volta em Agosto. “Vou só passar uns dias a casa [na Bélgica] para ver se está tudo arrumado e depois passo duas semanas em Portugal para conhecer o Martim”. E matar saudades da família, do café e do bom tempo.

Rubrica “Volta ao mundo com Barcelos” publicada na edição 214 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 18 de Fevereiro de 2015.

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