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ex-combatente

Fotografia por Eduardo Morgado

A minha guerra começou em Tavira”, recorda Manuel Cunha. Foi lá onde teve a preparação militar que lhe permitiu regressar a Portugal, após dois anos de combate em Angola, com vida e bem de saúde. É, portanto, pelo dia 25 de Janeiro de 1964 que se deve iniciar a presente narrativa, o dia em que o estudante da Escola Industrial e Comercial de Barcelos, de 21 anos, pegou na “malinha” e rumou ao Sul do país, a 600 quilómetros de distância de casa, para tirar o Curso de Instrução Sargento Miliciano (CISM).

No momento em que o futuro furriel, nascido a 26 de Agosto de 1942, em Carvalhal, coloca os pés na carruagem, embarca numa viagem repleta de novas experiências. De uma penada foram logo duas. “Nunca tinha andado de comboio” nem “ido a Lisboa”.

Pernoitou na capital. Na casa de um amigo do pai. Alcino Cunha, à altura encarregado de obras da Câmara Municipal de Barcelos, deu ao filho dois garrafões de vinho verde – um para dar ao tal amigo que o ia acolher em Lisboa e o outro para o acompanhar até Tavira. À medida que o comboio ia cruzando o Alentejo não paravam de entrar soldados que traziam os chouriços e os presuntos que inevitavelmente acabaram a ser acompanhados pelo vinho verde de Barcelos.

À chegada à estação de comboios de Tavira “uma equipa de militares” estava já à espera para conduzir os recrutas para o quartel. É-lhes dada a roupa que vão usar dali para a frente, é-lhes cortado o cabelo, é-lhes a administrada a famigerada injecção “mata-cavalo”.

Calhou a Manuel Cunha a parte de cima do beliche. Não sabia fazer a cama. Tinha que atar nós nas pontas para segurar os lençóis ao colchão. Quando se deita, não contém as lágrimas. “De noite comecei a chorar”. Da cama ao lado, uma voz pergunta-lhe: “Estás a chorar, porquê?”. A distância da família, claro. “Sou de Barcelos, já viste quando vou a casa?”. Nos oito meses que por lá haveria de permanecer em instrução, Manuel Cunha só voltou a Barcelos uma única vez, na Páscoa. Mas, continuando, não é que o tal camarada que o tentava reconfortar tinha família em Barcelos? Coincidência ainda maior: uma tia desse militar até tinha oferecido um bolo a Manuel Cunha. “Tenho aqui um bolo que a tua tia me deu, vamos lá comê-lo!”.

O CISM era frequentado por sete barcelenses, entre eles José Augusto Fontainhas, antigo comandante dos Bombeiros de Barcelinhos. O alferes Bessa Meneses, de Paredes de Coura, cuja família tem ligações a Barcelos, foi quem deu a recruta a Manuel Cunha. “Aprendi a trabalhar com todas as armas, foi lá que aprendi a ser guerrilheiro”. Na Câmara Municipal de Barcelos, onde trabalhava desde os 14 anos, quando terminou a instrução primária, começou como paquete de obras e mais tarde foi pintor – até se inscrever na Escola Industrial e Comercial. O trabalho como pintor habilitou-o para desenhar o emblema do CISM.

Os recrutas que obtinham melhores classificações não eram mobilizados, pelo que o cabo atirador que passaria a furriel quando embarcasse já podia imaginar o que o esperava quando concluiu o curso com 11.84.

“O CORREIO CHAMAVA-SE ALEGRIA”

Após uns dias em Barcelos, é colocado em Tomar, depois em Espinho e em Vila Nova de Gaia. É finalmente mobilizado e vai para Penafiel onde a companhia seria preparada para o ultramar. Por fim, vai um mês para Vila Real “aguardar o embarque”. A viagem foi de comboio. Uma máquina tão lenta que dava tempo aos soldados para sair e apanhar “uvas e figos” e ainda caçá-la “nas curvas”. Manuel Cunha foi “feliz” em Vila Real. Lá havia magistério e liceu. E, claro, os militares logo começaram a travar contacto com as raparigas que os frequentavam. Manuel Cunha arranjou uma namorada chamada Nelsa, “engraçada” e “sardenta”, como a cantora italiana, popular à época, Rita Pavone. “Depois ficámos correspondentes durante um ano”. A troca de cartas e o romance acabaram como muitos outros na altura. “É para continuar o namoro a sério?”, perguntou-lhe a rapariga por aerograma, ou o “bate-estradas, porque corria as picadas todas” até chegar ao destino. “Ó Nelsa”, respondeu o furriel, “estou numa zona muito difícil onde há muitos ataques, já temos um morto e vários feridos, vamos que eu fico ferido ou morro. Com que cara vais ficar se eu chego aí deficiente?”. A rapariga já tinha outro pretendente, também militar, e Manuel Cunha não se queria “comprometer” até regressar. “Não sei se vou seguir a tropa ou se vou para o meu emprego. Depois falamos”, disse-lhe.

Após o mês de preparação em Vila Real, a companhia regressou a Gaia para o desfile e cerimónia de despedida. Jogava-se, na altura, a final da Taça dos Campeões entre o Benfica e o Milão, que a equipa portuguesa perdeu por 1-0 e cuja baliza teve que ser ocupada pelo jogador de campo Germano devido a lesão do guarda-redes, recorda Manuel Cunha, que, no entanto, tinha outras coisas com que se entreter. “[Estava] aos beijos com uma moça de Gaia que conheci quando lá estive, a Ana Maria”.

Cais do Sodré, Lisboa, 28 de Maio de 1965. Manuel Cunha embarca no navio Vera Cruz. Chegou a Luanda no dia 6 de Junho. Manuel Cunha integrava a CART (Companhia de Artilharia) 792, cujo símbolo é um abutre. Aliás, os militares da companhia eram conhecidos como os “abutres”. O lema deles era “A quantos se estender o poder nosso”.

 Seguiu para o campo militar de Grafanil para onde iam todos os recém-chegados. “Tanto mosquito que não consegui dormir lá”. Foi para a Pensão Coimbra durante “oito dias”. Foi colocado em Pango Aluquem para “guardar fazendas”, proteger a produção de café e os locais e fazer “um pouco de psico”. Isto é: ganhar a confiança dos angolanos e fazê-los simpatizar com o lado português. É uma das missões que o furriel Cunha mais se orgulha de melhor ter desempenhado.

Em 1965 a CART 792 esteve a Norte de Luanda, em Dembos, nas localidades de Pango Aluquem, Santa Clara, Rainha Santo, Santo António, Bula Atumba, Gombe Muquiama e Quibaxe. Por ser uma região mais afastada da capital, não era de admirar o valor extra que os militares davam ao correio: “O correio chamava-se alegria. Mesmo na rádio não diziam que estava a chegar o correio mas a alegria”.

São muitas as histórias que o furriel Cunha lembra de Angola. Histórias de situações e pessoas que nunca mais a memória deixará fugir. Como o padre Janeiro, missionário da Silva, freguesia de Barcelos, que ia casar e baptizar os locais, tentando convencê-los das virtudes da monogamia; do professor e catequista que o convidou – e a mais dois camaradas – para um “churrasquito à maneira lá na cubata”; do Marcelino, menino de três / quatro anos, filho de um alferes português que engravidou uma angolana e depois foi-se embora, a quem Manuel Cunha todos os dias dava de comer.

“Tivemos coisas boas e coisas más”, conta. As que enumerámos são as boas. As más são as emboscadas, os mortos, os feridos. Mesmo assim, nestas situações piores, Manuel Cunha vai buscar a face positiva. “Tive uma companhia extraordinária, era tudo transmontanos e os transmontanos são lixados para a guerra. Quando tínhamos emboscada, iam atrás dos terroristas e apanhavam armas e tudo. (…) Os turras nunca deixavam um morto, podiam deixar a arma, mas o morto levavam-no às costas”, recorda.

Prova de coragem, lembra, deu o soldado Agostinho Cardoso. A companhia foi apanhada por uma emboscada. Começou o fogo. “Salto e caio à beira do rio, vou a pegar na arma, encravou”. O soldado Agostinho em cima de uma Mercedes com “fogo aberto” afugentou o inimigo. “Quem nos safou foi o Agostinho com a bazuca”. E Manuel Cunha propôs um louvor ao soldado que acabou por ser condecorado com uma cruz de guerra.

Em 1966, a CART792 esteve no Campo Militar do Grafanil tendo participado em operações em Vila Pimpa, Zala, Aldeia Viçosa, Bom Jesus, Úcua, Maria Manuela, Hinda, Cunha & Irmão, Rio Dange, Ponte Totobola e Quissonde. Entre 1966 / 1967, a companhia foi para Leste, para o Moxico, tendo estado nas localidades de Ninda, Sete, Chiume (“dormi onde dormiu o António Lobo Antunes”), Neriquinha, Gago Coutinho.

“CHEGUEI A BATER SOLDADOS QUE NÃO CUMPRIAM O QUE LHES DIZIA”

A vida em Luanda era boa. “Fazíamos duas ou três operações difíceis por mês, depois fazíamos rondas à noite…”. Ali, Manuel Cunha fazia uma vida social normal, ia ao café à noite. Foi “feliz em Luanda”. Mais do que aqui se pode contar. “Conhecia tão bem Luanda como Barcelos”, sentencia. E “gostava de voltar”, confessa.

Uma guerra tem sempre dois lados. E a sua compreensão depende da perspectiva pela qual a vemos. Para nós, portugueses, a guerra nas ex-colónias chamava-se Guerra Colonial, mas para os locais era Guerra da Libertação. Para os portugueses, os inimigos eram identificados como “terroristas”. Manuel Cunha usa sempre essa denominação, o que também define uma posição sobre o conflito que, acredita, podia ter tido um final diferente. “Tínhamos aquilo tudo controlado, não ganhávamos [a guerra], mas podíamos chegar a um acordo em que os portugueses podiam ficar lá na mesma”, defende. “A guerra foi mal conduzida e quem destruiu [Angola] fora os movimentos na luta pelo poder depois de virmos embora”, completa.

“Nunca ninguém ganhou uma guerra de guerrilha”, nota, acrescentando que “quem trabalhou na Guerra Colonial foram os milicianos, que davam o corpo ao manifesto, e os soldados”. Da CART 792 três soldados acabariam por perder a vida em Angola.

Contudo, “a maior parte dos mortos de guerra” não perecia em combate, mas em “asneiras, doença e acidentes”. “Cheguei a bater em soldados porque não cumpriam o que lhes dizia e podiam morrer. As tácticas têm de ser cumpridas”, conta o furriel.

Manuel Cunha regressou do ultramar no dia 24 de Junho de 1967, novamente no Vera Cruz, dois anos depois de ter embarcado. Chegou a pensar seguir a tropa, mas depois desistiu da ideia. Voltou para a vida civil, terminou o curso na Escola Industrial de Comercial. Depois foi para os quadros da Câmara Municipal de Barcelos. No regresso aproveitou os “seis contos” que recebia da tropa e comprou uma Vespa que impressionava o mulherio. Casou-se em 1970 com Maria Glória Pereira de quem teve três filhos, já maiores e todos com formação superior. Com 72 anos, está reformado há cinco. É “da opinião que devia haver encontros entre ex-combatentes, fazer debates e uma exposição de fotografias”.

Manuel Cunha guarda religiosamente todas as recordações que trouxe de Angola. Entre fotografias e outros documentos, conserva o crucifixo que lhe foi oferecido pelo Movimento Nacional Feminino na hora do embarque e que “andou sempre no dólman” do furriel. “Nunca o tirei de lá”. Mostra ainda com orgulho a placa com o número mecanográfico. É uma placa que, em caso de morte do militar, para efeitos de identificação, era dividida em duas partes: uma ficava com o corpo e a outra ia para o comando militar. Tê-la mantido intacta foi a maior vitória.

Rubrica “Memórias da Guerra Colonial” publicada na edição 213 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 11 de Fevereiro de 2015.

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