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DSC_7049Quando chegámos à margem do Cávado em Perelhal João Ponte Nova e o seu ajudante, Marinho “Trovão”, já estavam no pequeno barco de madeira à espera. “Vista o casaco que no rio vai estar frio”, avisam de longe. Já com o agasalho, entrámos na embarcação com um pequeno motor que o puxa a baixa velocidade rio abaixo, rio acima.

O dia estava bom, a temperatura agradável para ser Inverno (na água é inevitavelmente mais frio) e um sol radioso, mas sobretudo a maré não estava muito alta, o que já havia atrasado algumas vezes o nosso encontro.

Com umas varas grandes, João Ponte Nova, natural de Perelhal, e “Trovão” afastam o barco da margem e depois ligam o motor e navegamos até ao Poço do Botão, onde estão colocadas as suas redes para capturar as lampreias.

“Vamos lá ver se não apanhamos prego”, deseja Marinho “Trovão”, de Vila Seca, 42 anos, desde os 13 na faina. “Apanhar prego” é a expressão utilizada pelos pescadores quando não têm sorte, não conseguem pescar nada, quando as redes onde era suposto o ciclóstomo estar encurralado não contêm mais do que o lixo que vem na corrente – jacintos e lama sobretudo.

Só este ano – o período da pesca da lampreia começa em Janeiro e termina no final de Abril – o “tio João” (como lhe chama o ajudante) e “Trovão” já apanharam prego por três vezes.

Quando chegámos perto da rede o motor é desligado e com o impulso da vara vamos ter à rede que acumula o muito lixo que vem na corrente. Hoje não será dia para as limpar porque Marinho “Trovão” e Ponte Nova têm alguma pressa para ir a um funeral a meio da tarde.

Se assim não fosse, iriam tirar todos os resíduos acumulados na rede. “Para limpar a rede têm que ser três homens. Aquilo é batido como quem bate roupa”, explica João Ponte Nova, de 61 anos, com mais de 40 de pesca da lampreia.

“Comecei de rapaz”, recorda. Era mineiro e “só tinha trabalho no Verão”, por isso no Inverno dedicava-se à faina. Actualmente, “quase a ir para a reforma”, vende lenha. Continua a pescar lampreia “quase por um vício”, porque “não dá lucro”. “Um homem põe-se a fazer as contas e só dá prejuízo”.

É preciso pagar Segurança Social, a gasolina, aos ajudantes… O preço da lampreia oscila entre os 10 e os 20 euros por unidade, dependendo do tamanho. “Se um homem fosse a viver disto morria. Não dá para viver”.

Aliás, João Ponte Nova afirma que “se vende uma lampreia ou outra, mas pouco”. Vão umas para jantaradas com amigos, outras para comer em casa com a família “e está feito”. Pouco sobra. No ano passado “é que deu para vender algumas”. 2014, considera João Ponte Nova, “foi o melhor ano” da pesca da lampreia de que se lembra.

A rede no Poço do Botão tem uma extensão de cerca de 50 metros. É colocada em V, ou seja, um triângulo com a ponta virada para montante e é sustentada por bóias. As estacas de madeira, que antes podiam ser utilizadas ao longo de toda a rede, agora só são permitidas na ponta da mesma, que também não pode açambarcar todo o leito. As lampreias sobem o rio, contra a corrente, entram nas redes e ficam presas na nassa (cesto em rede na ponta). A lampreia é uma espécie anádroma. Vive no mar e reproduz-se nos rios. Em água doce, onde nascem, as larvas desenvolvem-se; já adultas descem o rio até ao mar e regressam para a desova – é quando são apanhadas. No lugar da boca têm uma ventosa com a qual se agarram a peixes maiores sugando-lhes sangue (são uma espécie parasita). Serve também a ventosa para durante o dia (só se movimenta durante a noite) se agarrarem a pedras ou vegetação e assim descansarem. Aliás, além do método de captura de que falámos há outros, designadamente um em que consiste colocar folhas (loureiro, por exemplo) envoltas numa pedra com um arame para as prender. Atraídas por um local que lhes parece bom para descansar na subida do rio, acabam por ser capturadas.

“ESTA ANO SÃO POUCAS E MIÚDAS”

Mal chegámos à nassa, “Trovão” vê logo que hoje não iam “apanhar prego”. Viu uma lampreia. João Ponte Nova calça uma luva na mão direita para a lampreia não escorregar ao pegar nela, abre a nassa e começa a tentar apanhá-las. Sai a primeira, mas logo se vê uma segunda. E uma terceira, e uma quarta, e uma quinta! É um bom dia de safra. “Para mim foi dos melhores dias do ano. Um homem chega à rede e tem uma, duas, outras vezes nenhuma”, sublinha o experiente pescador. Lamenta, no entanto, que sejam pequenas. Tem sido assim o ano todo: poucas e pequenas. Porquê, isso não sabe. “Não sei explicar. O ano passado eram muitas e graúdas, este ano são poucas e miúdas. Pode ser que ainda venha mais graúda, porque a lampreia pequena tem muito mais força do que a grande e as grandes podem vir depois”, assinala.

Antigamente, João Ponte Nova ficava à noite no bico da rede para apanhar a lampreia. Hoje é proibido estar no rio à noite. A fiscalização é apertada. Junto à rede tem que haver uma bóia com o número de licença. O pescador tem que dar conhecimento do número de lampreias apanhadas. Entre o pôr-do-sol de quarta-feira e o de quinta-feira é proibido pescar. Por isso, quarta-feira é dia de tirar as redes – depois de limpá-las – para voltarem a ser colocadas no dia seguinte.

No Cávado são poucos os pescadores de lampreia. Segundo dados fornecidos pelo Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, entidade responsável pelo licenciamento da pesca, há entre a Barragem da Penide e a ponte de Fão apenas 10 licenças atribuídas. E daquele ponto à foz do Cávado, uma distância bem mais reduzida, há nove licenças atribuídas, confirmou ao JB a Delegação da Marinha de Esposende, responsável por aquela área.

Antes havia mais pescadores no Cávado e não só de lampreia, só que o “sável” acabou. “Não se vê nenhum”, aponta João Ponte Nova, que “há uns anos” até “com a boca” chegou a apanhar uma lampreia. Hoje não o faria. “Ia agora atirar-me à água por causa de uma lampreia? Só se fosse tolo”. Ao rio caiu inúmeras vezes, felizmente nunca com perigo. Tem uma relação próximo com o Cávado, muitos anos de convivência, mas “antigamente um homem conhecia o rio”, agora “é muito difícil” conhecê-lo. “O rio está todo modificado, está fundo, só pedras, não tem nada a ver com o que era. (…) a gente até via a lampreia a andar”. É a poluição? “Já esteve mais poluído do que está agora, já esteve muito pior. Só que vem sempre lama que põe a areia escura”, responde.

Regressamos a terra, onde o dálmata de João Ponte Nova aguarda a ladrar impacientemente, com as cinco lampreias a rabiar num saco no fundo barco. Serão colocadas em viveiro e depois sangradas antes de irem para a mesa. Neste dia a safra rendeu cinco lampreias. “Pequeninas, mas são lampreias”. Com aquele tamanho (cerca de 60 centímetros), para vender, andariam à volta dos dez euros (entre os 15 e os 20 euros custam as que têm cerca de um metro). Assim, dará “não mais” de 50 euros, “e se der”. Porém, não deixa de ser um saldo positivo: “Foi um bom dia, mas não dá para comparar com o ano passado”.

Reportagem publicada na edição 216 (série III) do Jornal de Barcelos no dia 4 de Março de 2015.

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