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dsc_6343A imprevisibilidade é uma das principais, senão a principal, características da emergência. Ninguém escolhe a hora em que fica doente, não há quem possa antecipar um acidente. Por isso, quem faz o socorro tem que estar disponível 24 horas por dia, sete horas por semana, 365 dias por ano (366 nos bissextos). Os bombeiros, como parte importantíssima na salvaguarda do bem-estar das populações e protecção de bens, quase sempre os primeiros a chegar ao local, estão constantemente alerta. É que nunca se sabe quando serão chamados e nos turnos da noite, a qualquer altura, o descanso pode ter que ser interrompido, porque há alguém que precisa deles e nenhum bombeiro se furta a ajudar.

A noite em que acompanhámos os Bombeiros Voluntários de Barcelinhos no seu novo quartel foi calma, com apenas uma emergência no início do turno. Os operacionais, a grande maioria voluntária, que estiveram de piquete puderam conviver e descansar, mas sempre preparados para qualquer eventualidade.

Entrámos ao serviço às 22h00 e fomos recebidos pelo sub-chefe Carlos Rosas, o chefe de piquete, que nos coloca à vontade e nos vai mostrar as camaratas que nos estavam reservadas, caso a noite o permitisse, para o nosso descanso.

Ficámos na sala do bombeiro, uma zona de convívio com televisão, mesas, sofás e uma banca para refeições. Há quem opte por ficar na cinemateca a ver um filme. A funcionar em pleno desde o início do ano, o novo quartel foi pensado para oferecer as melhores condições de operacionalidade que o socorro actual exige, mas também a proporcionar o maior conforto possível aos bombeiros que, de facto, têm agora umas instalações de primeira categoria.

Às 22h40 cai uma chamada para uma situação de emergência em Vila Frescainha de S. Pedro. Num ápice chegamos ao local. Deparamos com um homem tombado no meio de uma via e alguns populares em seu redor.

Ao fazer uma descida bem acentuada, não aguentou o embalo que o álcool lhe deu. Caiu e não conseguia levantar-se. A vítima recebe os bombeiros com bastante agressividade, lançando-lhes impropérios e impedindo-os de realizar o seu trabalho.

Bombeiro há 23 anos, Miguel Ferreira não tem contemplações e comunica de imediato que é preciso no local a presença das autoridades. Contudo, o homem vai cedendo e quando a patrulha da GNR chega ao local já está estabilizado no interior da ambulância.

Os dados sobre o estado da vítima são transmitidos ao CODU – Centro de Orientação de Doentes Urgentes que a encaminha para o Hospital de Braga. Ao cabo de quase duas horas o serviço estava terminado.

Ao volante da ambulância foi Bruno Peixoto, voluntário há dez anos. É maquinista na construção civil e ingressou nos bombeiros pelo gosto “de ajudar os outros”. Considera que, apesar do contratempo inicial, a ocorrência “correu bem”. “Foi agressivo connosco, chamámos a autoridade, mas depois resolveu-se a bem. Com o efeito do álcool é sempre complicado e tem que se dar um desconto”, aponta.

Miguel Ferreira sublinha que “em vítimas com intoxicação etílica é normal este tipo de reacção”. Quando os bombeiros consideram que não têm condições para realizar o seu trabalho, o procedimento é chamar as autoridades: “Temos que zelar sempre pela nossa segurança”.

A vítima tinha um hematoma por cima do sobrolho direito e possivelmente uma fractura na clavícula. “Tinha uma lesão incisa na zona do crânio, pelo que quando transmiti os dados ao CODU, o médico pode ter suspeitado que tivesse algum TCE [traumatismo craniano-encefálico] e como em Barcelos não temos TAC mandam directamente para o Hospital de Braga”, explica Miguel Ferreira. “Gosto de ajudar”, sublinha o bombeiro, que na farda tem o apelido Guimarães em vez de Ferreira, lembrando o avô que foi 2.º comandante na corporação de Barcelinhos. De momento desempregado, a paixão pelos bombeiros leva-o a fazer “todas as formações que [lhe] aparecem à frente” e passou “em todas”. A última foi a de TAS – Tripulante de Ambulância de Socorro. Foram 210 horas de formação, mas que valeram a pena. “Quando chegámos ao local sabemos bem o que fazer. As pessoas aqui em Barcelos podem sentir-se à vontade que estamos preparados da melhor forma para o socorro”, realça.

Encerrada a ocorrência, com Bruno Peixoto e Miguel Ferreira de regresso ao quartel, os cerca de dez bombeiros de piquete reúnem-se na sala de convívio em volta dos kebabs que dois colegas foram buscar a um snack-bar aberto até mais tarde.

O convívio é importante para o fortalecimento de laços entre os bombeiros, para criar uma união e um sentimento comum de pertença. É também importante para motivar os voluntários.

A NOITE DEU PARA DESCANSAR

O novo quartel veio preencher a “lacuna” em relação aos “espaços de lazer”, destaca o adjunto do comando, Rui Araújo: “No quartel antigo, os bombeiros não tinham um espaço onde pudessem estar sentados a conviver. Tínhamos uma sala de convívio com meia dúzia de cadeiras quando tínhamos 12 ou 13 elementos escalados, só metade podia sentar-se. Neste momento temos condições fantásticas, como a cinemateca, onde podem ver filmes, ou a ludoteca, onde podem estar na internet ou a estudar. Temos ainda a sala de convívio onde o pessoal conversa um bocado”.

Rui Araújo é profissional, mas naquela noite estava a fazer voluntariado: “Embora não estejamos escalados, gostamos de acompanhar o piquete para também convivermos com os outros bombeiros, haver uma proximidade e percebermos as necessidade deles”.

O adjunto do comando sublinha a importância do novo quartel: “Os bombeiros sentem-se bem em estar cá. É gratificante trabalhar em prol da sociedade e termos a oportunidade de usufruir destas novas condições que nos dão uma operacionalidade muito maior do que a que tínhamos lá em baixo”.

Enquanto falamos com Rui Araújo, o resto dos bombeiros divide-se entre a sala de convívio e a cinemateca. Trata-se de uma noite de sexta-feira para sábado e por isso o convívio prolonga-se mais um bocado.

Quando estiverem cansados e precisarem de descansar, os bombeiros dirigem-se às camaratas, dando conhecimento ao chefe de piquete, neste caso Carlos Rosas, do lugar para onde vão e ele saber assim onde acordá-los em caso de emergência.

No serviço nocturno, o único que tem que estar sempre alerta é o telefonista. Bruno Ribeiro está sozinho na ampla sala do primeiro andar com visão privilegiada sobre todo o hangar onde estão estacionadas as viaturas. Tem o telefone e o computador em frente, ecrãs dispostos no cimo da parede.

É bombeiro há 14 anos, profissional há oito. Os cinco telefonistas dos Bombeiros de Barcelinhos dividem-se em turnos rotativos, acabando todos por fazer tanto tardes, como noites ou manhãs.

Bruno Ribeiro assume que “a parte mais difícil é trabalhar à noite”. “Há noites que não há nada e temos que estar aqui despertos”, aponta. A televisão e a internet são as únicas formas de passar o tempo.

“As noites são por norma mais calmas”, observa o telefonista, salientando, no entanto, que tudo pode acontecer. “Há alturas em que estamos aqui todos e não se passa nada e no espaço de dois ou três minutos temos quatro ou cinco saídas”.

A experiência diz-lhe que esta será uma noite tranquila (e acertou). “Se assim não fosse, já tinha dado o sinal mais cedo. Temos muito serviço à noite quando? Quando vem uma vaga de frio ou mudanças de tempo muito bruscas que afectam as pessoas mais idosas e origina que haja mais serviços. Se o tempo estivesse de chuva podia haver um acidente ou outro, mas não está. E normalmente quando a noite é complicada antes da meia-noite já há serviço. O início da noite demonstra o que vai ser o resto. De Verão é que é muito complicado, com os incêndios e mais o serviço operacional”, nota Bruno Ferreira, que agora tem muitas melhores condições de trabalho. Todavia, está mais sozinho.

“No quartel antigo a sala do bombeiro era contígua à central telefónica, porta com porta, e os que iam mais tarde para a cama ficavam ali a falar connosco”, recorda. Porém, as condições “melhoraram significativamente”. “O maior problema era o espaço, a central era muito pequena, três por três, aqui temos mais espaço. E como era contígua à sala do bombeiros estávamos a atender um telefonema com pessoas a falar ao nossa lado e fazia interferência. Agora, com mais calma, conseguimos fazer melhor o trabalho”, observa.

Entretanto, já são duas da madrugada. Os bombeiros estão quase todos na cinemateca, uma sala com doze poltronas e um grande ecrã de televisão, a ver “Prove of Life”. Trata-se de um filme sobre a negociação do resgate de um consultor raptado por rebeldes sul-americanos. É um enredo cheio de acção que mantém os bombeiros despertos. Quando o filme acaba por volta das três da manhã, os operacionais dirigem-se para as camaratas. “Durante a semana como o pessoal trabalha no dia a seguir, não havendo situações de emergência, costuma recolher mais cedo. Como é fim-de-semana prolonga-se mais um bocado o convívio”, explica o sub-chefe Carlos Rosas. “É importante conviver, dialogar, trocar ideias… Isto é uma família, é uma segunda casa e aqui vê-se a amizade das pessoas”, acrescenta.

Em caso de emergência, explica o chefe de piquete, o procedimento seria o seguinte: “O telefonista liga comigo, diz-me o que se passa, eu escolho a equipa e mando avançar. Só acordo os que vão fazer o serviço e saem à vez”.

O que não foi necessário. Caímos no conforto da camarata e só despertamos às oito da manhã, já o sol raiava, pedindo a Carlos Rosas, bombeiros há 21 anos e profissional há oito, um pequeno balanço. “Foi um turno calmo, deu para o pessoal descansar”, avalia. Os bombeiros são como a rede de um trapezista ou o seguro de um carro. Quando algo correr mal estão lá para evitar o pior, por isso é bom sinal quando não há necessidade de a eles recorrer. “O ideal era que todas as noites fossem como a de hoje”, conclui o chefe de piquete. Mas quando não o são, os bombeiros estão alerta, sempre preparados para acudir. São a ajuda previsível para quando acontece o imprevisível.

“Relação umbilical com a sociedade civil”

O novo quartel dos Bombeiros de Barcelinhos custou 1,6 milhões de euros, financiando pelo QREN em cerca de um milhão. Para conseguir o restante, além de uma campanha por todo o concelho através da qual a corporação conseguiu chegar aos 28 mil sócios, o apoio das empresas foi fundamental.

Cada um dos portões e cada uma das divisões do edifício tem inscrito o nome de uma empresa que tenha ajudado os Bombeiros de Barcelinhos a tornar a velha reivindicação uma realidade. “Os industrias de Barcelos estão de parabéns, porque dotaram os Bombeiros de Barcelinhos com uma capacidade enorme para poder ajudar pessoas e proteger bens”, sublinha o presidente da direcção, José Costa.

“Se hoje temos esta força é graças aos sócios que angariámos na campanha que percorreu o concelho e pelos sócios-empresas e beneméritos que deram o nome a estas salas”, acrescenta o responsável, que foi eleito pela Liga dos Bombeiros Portugueses como dirigente do Ano 2014, confiante de que “esta relação umbilical com a sociedade civil vai ser para continuar”.

Os Bombeiros de Barcelinhos têm já em mãos o projecto para avançar com uma terceira fase do quartel, tornada pública em Dezembro, e que vai contemplar um heliporto, ginásio e mais espaço para guardar viaturas.

Corpo formado por 135 bombeiros

O comandante José Beleza afina pelo mesmo diapasão do presidente ao sublinhar que “sem os sócios e os beneméritos, os Bombeiros de Barcelinhos não podiam erguer este quartel e prestar os serviços que prestam”. José Beleza, que viu o seu trabalho ser reconhecido no ano passado pela Protecção Civil espanhola, diz que o novo quartel é “o espelho da modernidade” a nível operacional. No entanto, não esquece a importância do antigo, actualmente arrendado à Câmara de Barcelos. “Temos muito orgulho no antigo quartel, pois marcou toda uma geração. Para dar continuidade ao grande trabalho feito por quem estava à frente dos destinos dos Bombeiros de Barcelinhos naquele tempo tivemos que fazer um grande esforço para edificar um quartel e uma operacionalidade referente aos tempos de hoje”. O comandante nota que “a população tem muito carinho pelos Bombeiros de Barcelinhos”, que “são um exemplo em termos formativos e de instrução”. Actualmente, a corporação tem cerca de 135 bombeiros, 30 deles profissionais. Fundados em 1921, os Bombeiros de Barcelinhos celebram em Junho próximo mais um aniversário com números redondos: o 95.º.

Reportagem publicada na edição de 24 de Fevereiro de 2016 do Jornal de Barcelos.

 

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