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Créditos: Eduardo Morgado

Seis da manhã, entrámos no quartel dos Bombeiros de Barcelos e a primeira chamada para uma emergência chegaria duas horas depois, estávamos instalados na sala de convívio a ver na televisão o noticiário matutino depois de Jorge Cruz nos ter mostrado o edifício.

Trata-se de uma jovem de 21 anos que desmaiou em casa, no quarto andar de um prédio no centro da cidade. Portanto, a viagem é rápida. Num ápice Carlos Gomes e Jorge Cruz já estão a socorrer a vítima.

“O desmaio não foi presenciado, por isso não se sabe quanto tempo esteve desmaiada, só se aperceberam às oito da manhã. Estava há vários dias com febre e na queda fez uma lesão incisa na frontal, vai ser levada para o Hospital de Barcelos para ser suturada”, explica o nosso cicerone, Jorge Cruz, bombeiro há 13 anos, profissional há três.

Quedas em casa são das situações “mais frequentes” a que os bombeiros têm de acorrer, não são portanto nada a que Jorge Cruz, que tem especial apetência para urgência médica, já não esteja habituado: “Fizemos uma compressão à ferida para estancar a hemorragia, verificámos que tinha uma hipotensão e encaminhá-la para o hospital”.

Ao volante da ambulância seguia Carlos Gomes, voluntário há 14 anos, que aproveitou para dar uma sempre bem-vinda ajuda aos companheiros da corporação. “Quando tenho disponibilidade faço voluntariado. Queria fazer mais, mas não posso porque o meu trabalho, num posto de combustíveis, é de turnos rotativos e também temos que gerir o tempo com a família”, explica.

Há uma “adrenalina difícil de explicar” na condução de uma ambulância, confessa Carlos Gomes. Sobretudo nas “situação mais graves” em que é completamente determinante chegar o mais cedo possível ao local da ocorrência.

Naquela manhã chovia imenso, o que dificulta sobremaneira a tarefa do condutor. “Temos que ter mais cuidado porque a estrada está molhada, a viatura não tem tanta aderência e torna-se mais perigoso”, realça o bombeiro.

Se o trajecto para o local da primeira ocorrência da manhã era curto e ainda havia poucos carros na rua, na segunda saída, cerca das 9h25, já era mais longo (para a Lama) e com a Estrada Nacional 205 com muito tráfego.

Desta vez foi João Martins, bombeiro há 22 anos, profissional há sete, a conduzir. “A estrada não está para aventuras”, notando que pelo caminho houve uma situação em que se viu mais “apertado”. A segurança é o mais importante: “Não podemos pôr em risco a vida de terceiros”.

O caso em questão era de uma senhora de 84 anos que estava com problemas derivados de uma doença degenerativa e que foi transportada para o Hospital de Barcelos. As chamadas de emergência que visam o socorro de idosos são regulares. “Está muita humidade, veio mais chuva do que é normal e as pessoas de mais idade ressentem-se”, nota o bombeiro que integra a Equipa de Intervenção Permanente, financiada a meias pelo Município e Autoridade Nacional da Protecção Civil, mas que naquele dia estava ali como voluntário.

O piquete tem cinco elementos – no caso eram quatro porque um estava de baixa – e a ajuda dos voluntários é crucial para agilizar o serviço que, além das emergências contempla também transportes de doentes.

“É muito serviço e com a ajuda dos voluntários torna-se mais fácil”, explica Márcio Pereira, bombeiro há 15 anos, profissional há um, que assumia a função de chefe de serviço, uma vez que o colega mais graduado estava de baixa.

VMER DE BARCELOS OCUPADA

Na central telefónica encontra-se Manuel Monteiro, que há 20 anos ali trabalha: “É uma vida numa casa de inesperados, onde tudo acontece”. “Há dias mais complicados e outros mais calmos, é inconstante”, nota, acrescentando que “os dias mais marcantes são os de incêndios em que, de facto, as coisas complicam”.

Quanto às emergências médicas, “as horas mais complicadas costumam ser as 13h30 e as 15h00. É uma coincidência brutal”. Porquê?, perguntamos. “De noite sentem-se mal, de manhã ainda aguentam, mas ao início da tarde como vêem que não passa recorrem à emergência médica”, arrisca Manuel Monteiro, explicando porque trocou a profissão de electromecânico pela de operador de central. “Estava sempre no estrangeiro, não tinha poiso certo, tanto estava em França como Espanha ou Itália, optei por ficar cá por causa da família”.

Entretanto, permanecemos pelo quartel cujo museu guarda o peso de 133 anos de história da corporação mais antiga do concelho. O cemitério é mesmo ao lado. Passa um cortejo fúnebre e os portões do edifício são fechados para demonstrar respeito para com o falecido.

A morte acaba por estar muito presente na vida dos bombeiros, solicitados quase sempre em horas de aflição. Mas a vida também. Desde que a maternidade de Barcelos encerrou, foram bastantes as situações de partos em ambulâncias. Os bombeiros que ajudam o nascimento de um bebé ficam para sempre na memória dos pais.

É o caso de Isabel Torres cuja filha Mariana, que traz ao colo, nasceu há dois anos numa ambulância dos Bombeiros de Barcelos que a transportava Braga. Passou no quartel para “visitar a Cátia e o Zé Maria, que assistiram ao parto”. É uma forma de agradecimento, porque “foram exemplares”.

Entretanto, há uma solicitação para uma queda numa escola. Uma menina que se aleijou na aula de Educação Física. “São situações bastante comuns, dado que temos várias escolas na cidade”, explica Jorge Cruz.

Não é nada de grave. Acompanhada por uma funcionária da escola, a criança é transportada para o Hospital de Barcelos, mas os bombeiros nem chegam, como habitualmente, a entregar o doente na triagem, porque foram solicitados para uma emergência bem mais grave.

Numa freguesia do Norte do concelho, um idoso inferiu voluntariamente herbicida. Em princípio, dada a gravidade da situação, seria um caso para ser acompanhado pela VMER – Viatura Médica de Emergência e Reanimação, mas a equipa de Barcelos havia sido chamada pouco antes para uma transferência inter-hospitalar para a qual foi requisitada uma viatura da corporação barcelense.

Jorge Cruz esteve durante a viagem em contacto permanente com a médica do CODU – Centro de Orientação de Doentes Urgentes: “A doutora fez a transmissão de dados e eu já sabia o que se passava. Comuniquei-lhe depois que a vítima estava estável e não seria preciso ir a VMER”.

Enquanto a equipa da VMER fez a transferência inter-hospitalar o piquete dos Bombeiros de Barcelos fez duas emergências. “Por acaso, não foi preciso, mas como a de Barcelos estava ocupado podia ter vindo a de Braga, Famalicão ou Viana do Castelo”, refere Jorge Cruz.

Os bombeiros guardaram a embalagem de herbicida para entregar no Hospital de Barcelos para onde a vítima foi levada.

Ao volante da ambulância seguiu José Pedro Silva, que também integra a equipa de piquete constituída por Jorge Cruz, Márcio Pereira e Rafael Ramos, que entretanto terminava mais um dia de serviço.

No total, entre emergências e saídas programadas, naquela manhã os Bombeiros de Barcelos realizaram 43 serviços. “Há dias em que não se passa nada, outros em que se passa tudo, hoje foi um intermédio”, diz-nos em jeito de balanço o chefe de serviço, Márcio Pereira. Portanto, um “dia normal” na vida de quem tem como leva “Vida por Vida”.

Obras de remodelação no quartel

Os Bombeiros de Barcelos candidataram-se a fundos do programa Portugal 2020 para remodelar quartel, mas, mesmo que a corporação não seja contemplada, as obras deverão arrancar ainda este ano.

“Queremos reformular a parte operacional: camaratas, central, parque de viaturas… Temos um quartel estratégico, mas ao fim de 40 anos já merece remodelações. Se não formos contemplados com os fundos comunitários, vamos avançar por fases. A ideia é começar este ano, logo que se saiba a resposta. Se não vai por um lado, vai por outro”, adianta o 2.º comandante António Moreira.

EMIGRAÇÃO AFASTOU VOLUNTÁRIOS

Actualmente, os Bombeiros de Barcelos têm 90 bombeiros no activo, cinco no Comando e 50 no quadro de reserva (“pendentes de formação ou que de momento estão estrangeiro”). A emigração tirou bastantes bombeiros à corporação barcelense. “Quase 50% dos bombeiros no quadro de reserva estão no estrangeiro”, explica o 2.º comandante.

O corpo de bombeiros tem 32 profissionais: quatro equipas de cinco elementos que garantem o socorro 24 horas por dia, sete dias por semana, mais telefonistas e administrativos, entre outros. De momento, adianta António Moreira, bombeiro há 32 anos e 2.º comandante há 15, “está a decorrer uma escola de estagiários” com 25 elementos, dos quais cerca de metade chegarão ao fim. “Este ano vai ser feito exame e sobem a bombeiros de 3.ª”.

Fundada em 1886, a corporação dos Bombeiros de Barcelos é a segunda instituição mais antiga do concelho (só ultrapassada pela Santa Casa da Misericórdia). Pela sua antiguidade e empenho no apoio à população, António Moreira repara que há no concelho “um carinho especial” pela corporação.

Reportagem publicada na edição de 16 de Março de 2016 do Jornal de Barcelos.

 

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