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Créditos: Eduardo Morgado

Ainda estava escuro quando, poucos minutos antes das sete da manhã, chegámos ao quartel dos Bombeiros Voluntários de Viatodos. O chefe de serviço, João Costa, já nos esperava junto ao estacionamento. Recebeu-nos e levou-nos até à central onde se encontrava o comandante em exercício, Mário Torres. Enquanto trocamos breves impressões sobre o que nos esperava, já o telefone toca para uma emergência que não acompanhámos para nos ambientarmos à “casa” que, de alguma forma, seria nossa por mais sete horas e meia, pelo menos.

João Costa, oficial bombeiro de 2.ª, é o nosso cicerone, mostra-nos as instalações de uma ponta à outra, enquanto o sol vai nascendo. Inaugurado em 1992, o quartel tem um salão nobre que acolhe actividades culturais e desportivas, como por exemplo o badminton, que João Costa, natural de Viatodos e licenciado em Engenharia de Protecção Civil, também já chegou a praticar ali.

Visitámos tudo: a biblioteca, a sala de convívio, o antigo café, as camaratas… Enquanto os motores dos veículos pesados são postos a trabalhar durante algum tempo para garantir a sua operacionalidade, damos uma volta pelo exterior observando as fachadas do Centro de Lazer e da Lavandaria ou espreitando o Laboratório de Fogo (um contentor onde os bombeiros treinam situações de incêndio em habitações).

9h06. O telefone toca – e quando toca ouve-se uma campainha. Em caso de emergência soará de seguida um som mais digital parecido com os de supermercado. É o que acontece. Os bombeiros precipitam-se para a janela da central, onde a telefonista lhes dá as informações necessárias: a situação de que se trata, a morada, etc.

Neste caso, era uma operária têxtil, de 43 anos, que se sentira mal na fábrica onde estava a trabalhar em Outiz, Famalicão. Sérgio Pinto e Alexandra Ferreira saem na ambulância. Uma vez chegados à rua indicada, a equipa de socorro não consegue identificar de imediato o local, que lhe é indicado por um transeunte.

Sérgio Pinto, o condutor da ambulância naquele serviço, esclarece que tal se deveu à “não identificação da fábrica”. Estas são, no entanto, situações cada vez mais raras. Bombeiro há 20 anos, o experiente operacional considera que “cada vez é mais fácil” dar com os locais para onde são chamados. “Desde que as freguesias adoptaram as ruas e o número de porta começou a ser mais fácil. Antigamente era por lugares e era muito mais complicado para encontrar a casa que a gente queria”.

A área que os Bombeiros Voluntários de Viatodos cobrem é predominantemente rural e aí há, acrescenta João Costa, uma preocupação por parte das pessoas em facilitar a vida ao socorro. “Na maior parte dos serviços, se for num local difícil de encontrar, vêm esperar-nos a um cruzamento ou outro ponto”, realça o chefe de serviço, contrapondo que tal já não é comum nas cidades.

Sérgio Pinto, a quem os voluntários ligam muitas vezes sobretudo ao fim-de-semana para lhe pedir indicações, aproveita os serviços clínicos, em que se vai com mais calma, para ir “fixando as ruas”, o que depois ajuda imenso nas emergências.

Entretanto, a mulher é assistida e transportada para o hospital de Famalicão. Minutos depois, preenchidas as formalidades, os dois bombeiros regressam ao quartel.

A senhora “terá tido uma perda de consciência de um minuto” no local de trabalho, sendo que já se sentia indisposta desde o dia anterior, resume Alexandra Ferreira. Esta emergência, sem gravidade, é das situações “mais recorrentes”, a par de pessoas mais idosas em dificuldades, “dispneias” (faltas de ar) e “temperaturas”, enumera a bombeira com 20 anos de experiência e natural de Viatodos.

De regresso ao quartel, Sérgio Pinto repõe na ambulância o material usado na emergência, isto depois de estacionar a viatura atrás da que sairá a seguir. “É para os carros rodarem e não haver acumulação de quilómetros no mesmo”, explica o bombeiro.

A corporação viatodense tem à volta de 70 bombeiros, 20 deles profissionais. Desde que José Carvalho abandonou o cargo de comandante, é o 2.º comandante Mário Torres que o exerce. Tem 53 anos e mais de 30 de serviço, tendo feito parte das primeiras escolas dos Bombeiros de Viatodos. Entrou para a corporação porque “era uma coisa nova” e o “facto de ser na terra também teve influência”. “É uma vida de dedicação”, diz o comandante em exercício, informando que estão a ser aceites inscrições para uma escola de estagiários a ter início em Março. “Temos que investir nestas campanhas, porque a adesão ao voluntariado está cada vez mais difícil”, realça. Ser bombeiro voluntário é hoje “muito mais exigente”, observa Mário Torres, acrescentando que a média de estagiários que completam o curso é de 50%.

UM TURNO CALMO

O telefone poucas vezes tocou. A manhã está a ser calma para Paula Teixeira que recebe todas as chamadas que chegam ao quartel, não só de emergências, mas também para transporte de doentes e informações.

“Bombeiros de Viatodos, bom dia”, repete sempre que atende uma chamada. Solicita a rua, a freguesia e uma referência (ao lado da igreja, por exemplo). Regista todos os dados no sistema informático. Em caso de necessidade, acciona a sirene, o que não será necessário no turno que acompanhámos. “Está a ser um dia calmo”, avalia a telefonista. No entanto, de um momento para o outro tudo pode mudar. Poucos dias antes, recorda, “caíram” quatro emergências num curto espaço de tempo.

“Isto é tudo muito incerto, tanto sai tudo ao mesmo tempo como espaçadamente, que é o ideal”, reforça o chefe de serviço.

Entretanto, é meio-dia. Sérgio Pinto e Bruno Ferreira, que estivera a fazer os serviços clínicos programados, acompanham-nos no almoço no refeitório do Centro de Lazer. Ali, os bombeiros pagam 2.5 euros pelo almoço (se estiverem a fazer horas de voluntariado é oferecido), sendo que há alguns que beneficiam de cantina social.

Deglutidos os bifinhos de peru, regressámos ao quartel onde nos juntámos ao resto da equipa de serviço que lá ficara a almoçar. Toma-se café, convive-se um pouco. Até que às 13h00 há uma nova emergência.

Os bombeiros foram activados pelo INEM para socorrer uma senhora de 61 anos na travessa do Junta, em Viatodos. É pertíssimo do quartel, num instante lá chegámos. Desta vez, é Vânia Ferreira quem acompanha Sérgio Pinto.

Bombeira há 10 anos, a jovem operacional tinha saído na primeira emergência da manhã (uma senhora com dispneia) e depois tivera que fazer um serviço clínico em Barcelos.

Este caso é uma taquicardia. Desde manhã que a senhora sentia uma palpitação no coração, mal-estar e fraqueza. O primeiro passo é sempre verificar os sinais vitais. “Se tivesse o pulso acima dos 120 ou abaixo dos 50/60 tínhamos que pedir a ajudar da VMER (Viatura Médica de Emergência e Reanimação), mas quando chegámos já estava normal”, explica Vânia Ferreira, de Rio Côvo de Santa Eulália, que trabalhava numa fábrica quando decidiu inscrever-se nos bombeiros. “Sentia que tinha de fazer algum voluntariado, fosse nos bombeiros ou numa instituição de crianças em risco”, conta. Entretanto, os bombeiros foram à confecção onde trabalha fazer uma formação de primeiros socorros e acabou com uma colega a inscrever-se no curso de socorrismo.

A vítima foi levada para o hospital de Barcelos. Minutos depois, os bombeiros iniciam a viagem de regresso ao quartel, mas nós perdemos o rasto da ambulância… por causa de uma situação caricata.

Quando arrancávamos do lugar onde tínhamos estacionado no Campo da Feira, uma senhora de provecta idade e de etnia cigana aborda-nos. Caí no erro de abrir o vidro. Logo me agarrou a mão e garantiu-me que estava cheio de mau-olhado. Caiu-lhe de imediato uma lágrima pelo canto do olho que, segundo ela, era a evidência do mal que me desejavam. Tentei explicar-lhe que estávamos com muita pressa. “É só um minuto”, respondeu. E lá fez uma espécie de rezas que, dizia, iam afastar o mau-olhado pelo simbólico preço de “uma missinha”. E até me ia dizer quem eram as pessoas que me desejavam tanto mal. Quanto é que custa a tal missa?, pergunto, tentando despachar o assunto. “Dez ou vinte euros”. Fui ao bolso e tirei uma moeda de dois euros. “É tudo o que tenho”. Pelos vistos, era pouco, pois a senhora não me disse quem, afinal, me desejava tanto mal. Mas também não os enjeitou.

De modo que lá voltámos à estrada, mas a ambulância já só a voltamos a apanhar no quartel. Já eram quase 14h30, hora em que encerrava o “nosso” turno e entrava uma outra equipa ao serviço que teve logo uma saída. “Como a gente tenta sempre ajudar-se mutuamente, o pessoal vem sempre o mais cedo possível para evitar que a gente saia tarde”, enaltece João Costa, que em jeito de balanço considera ter sido um turno “calmo”.

“Só houve situações de emergência médica com pouca gravidade, em nenhum dos serviços foi necessário o apoio da VMER. E não tivemos ocorrências mais complicadas, como incêndios ou desencarceramentos que carecem de um maior número de elementos do que as emergências em que precisámos normalmente de duas pessoas”, avalia. O facto de os serviços terem surgido “espaçadamente” também foi decisivo para uma manhã tranquila. Felizmente.

De Casa do Povo a corporação e IPSS

Carismático fundador dos Bombeiros de Viatodos, Amadeu Lemos continua a ir “duas vezes por dia, sete dias por semana” ao quartel. O presidente da direcção, de 86 anos, lembra “um caminho pedregoso”, desde a fundação da corporação até a actualidade, em que é também uma IPSS com várias respostas na área social (Cantina Social, Apoio Domiciliário, Centro de Dia e Centro de Convívio) que emprega mais de 20 funcionários.

“Já é um barco um bocado grande”, afirma com orgulho, lembrando como tudo começou com a criação da Casa do Povo que “era das melhores, senão a melhor, do país” e a aquisição de uma ambulância para melhor servir a população. “Para uma ambulância vir de Barcelos ou Famalicão levava mais de meia hora”, recorda. E então surgiu a ideia: porque não fazer uma corporação de bombeiros? “Mandei colocar umas letras na Casa do Povo: Bombeiros Voluntários de Viatodos”. Com “apoio do comandante Costa” nasceu ali uma secção da corporação de Barcelos. Dois anos mais tarde, a 29 de Março de 1984, foi homologada a fundação dos Bombeiros de Viatodos que têm actualmente 27 mil sócios. “O trabalho que fizemos e deixamos para as próximas gerações dá-nos muito orgulho”, sublinha Amadeu Lemos.

A corporação viatodense é, portanto, a mais jovem do concelho, tendo como área de intervenção 14 freguesias: aquela em que está sediada, Cambeses, Carreira, Carvalhas, Chavão, Chorente, Fonte Coberta, Grimancelos, Macieira de Rates, Minhotães, Monte de Fralães, Negreiros, Rio Côvo Santa Eulália e Silveiros. No entanto, por se situar numa zona limítrofe, são muitos os serviços nos concelhos de Famalicão e Braga e, até, embora em menor número, Póvoa de Varzim. “A nossa área acaba por ser mais abrangente do que a que nos está atribuída”, nota o 2.º comandante Mário Torres, destacando que há “uma empatia muito forte entre o corpo de bombeiros e a população”.

Reportagem publicada na edição de 3 de Fevereiro de 2016 do Jornal de Barcelos.

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