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É uma reportagem de vida e devida a um dos mais bem-sucedidos músicos de Barcelos. Desde os 16 anos que Jorge Lomba se dedica exclusivamente à música. Muito influenciado pela música de intervenção e apaixonado pelas cantigas tradicionais portuguesas, ao longo de uma extensa carreira lançou apenas um álbum, homónimo, que celebra agora 25 anos.

Desde “pequenino” que denotava queda para a música. “Fazia instrumentos com fio de pesca e latas, fazia flautas com paus”, recorda o músico de 53 anos. Na adolescência andava pelas ruas da cidade a tocar flauta, o que desencadeou uma sucessão de acontecimentos levando Jorge Lomba a enveredar irrevogavelmente – expressão aqui usada no sentido original pré-Portas – pela música.

“Andava a tocar flauta na rua e chamaram-me para o Grupo Unidade. Fizemos duas actuações, entretanto o conjunto acabou e eles deram-me a guitarra. Depois, por altura do 25 de Abril, fui tocar num palco no Largo da Porta Nova e passaram lá uns professores galegos. Eu até pensei que eram de Galegos, a freguesia daqui de Barcelos (risos). Foi aí que tudo começou. Levaram-me para a Galiza, porque gostavam de me ouvir cantar. Cantava viras e malhões e eles davam muito valor à música tradicional. Estive lá dois anos a tocar em várias universidades e bares”, conta Jorge Lomba.

Obviamente, uma experiência destas é marcante para um miúdo de 16 anos: “Foi maravilhoso. Cheguei a ser mecânico de bicicletas, mas a partir daí comecei a viver da música. O dinheiro que lá ganhei deu-me logo para comprar uma guitarra nova e começar o meu sonho. Quando vim da Galiza, estive um mês em Barcelos e depois fui para Lisboa”.

Os dez anos na capital foram o período de maior aprendizagem e progressão do artista nascido em Barcelos que se continuasse na terra não teria conseguido construir a carreira que hoje tem. “Se não tivesse ido para Lisboa, era impossível ganhar os conhecimentos que tenho”, aponta, recordando que além de atravessar Portugal de uma ponta à outra tocou em países como Angola, Canadá, Suíça, Londres, Namíbia ou Ucrânia (onde, a convite da RTP, em 1995, representou Portugal no Festival Europeu da Música Tradicional). Fez o Mediterrâneo a bordo de um cruzeiro de um mês. “Actuava às quartas-feiras meia hora. Não pagavam cachê, ia só pela viagem”, lembra com alguma nostalgia essa fase, década de 80, em Lisboa, tocando em bares e à procura de destacar-se no meio artístico.

E como foi Jorge Lomba parar a Lisboa? “Fui convidado por um casal amigo, o João Fernando e a Luísa Basto. Viram-me a tocar em Prado e disseram que se quisesse ir para Lisboa tocava no restaurante deles. Fui logo no dia a seguir”, responde.

Chega à capital de viola às costas e um saco de plástico com roupa na mão. “O que nessa altura se tocava nos bares de Lisboa era Caetano Veloso e Simon & Garfunkel, não passava daí. Cheguei lá e comecei a tocar viras e malhões e toda a gente cantava. Passados uns tempos, já havia músicos de Lisboa que tocavam Simon & Garfunkel a tocar viras e malhões. Foram dez anos maravilhosos”, sublinha.

Essa auspiciosa década culminou com o lançamento do álbum em 1991 através da UPAV – União Portuguesa de Artistas de Variedades, de que faziam parte nomes conceituados como José Mário Branco, Carlos do Carmo, Vitorino de Almeida ou Mário Viegas.

“ANTES DE SAIR JÁ ERA DISCO DE PRATA”

“Convidaram-me como aposta num artista novo para gravar o primeiro álbum. Tive essa sorte. Na altura era difícil gravar um disco e eu tive a oportunidade de o poder fazer através de uma editora com alguma projecção e poder ir promovê-lo na televisão”, nota Jorge Lomba. O álbum foi um sucesso. “Antes de sair já era disco de prata. Não é muito normal um artista que grava um disco pela primeira vez ter logo 10 mil exemplares vendidos”.

O debute contou com dois originais. “Gostava que entrassem mais”, não o esconde, mas na verdade sempre preferiu “cantar as canções dos outros”. “Sou um bocado preguiçoso a compor e, sinceramente, não gosto muito do que componho. Depois há outra coisa: um artista sobe ao palco para fazer um espectáculo bom e para isso tem que cantar coisas que as pessoas conheçam. Ou temos uma máquina por trás que torna a nossa música conhecida ou então temos que tocar músicas dos outros ou cantigas tradicionais, que é o que faço”, realça.

A música de intervenção teve uma influência enorme no crescimento musical de Jorge Lomba. “Tinha a sorte de, antes do 25 de Abril, um cunhado ter um gravador de bobines com muita música do José Afonso, do Tino Flores, do Adriano Correia de Oliveira… Tinha sete, oito anos e adorava aquelas canções. Eram proibidas, mas muito bonitas e apaixonei-me logo pela música de intervenção. Embora o que eu goste mais sejam as recolhas, não têm muito de política, mas têm muito de beleza”. Jorge Lomba adora a diversidade da música portuguesa, dos cantares tradicionais de cada região. “Portugal é um país pequenino, mas com paisagens muito diversas, gastronomias muito diversas e na música é igual. Temos o vira, o malhão, a chula, o cante alentejano, o corridinho do Algarve, tanta coisa tradicional…”.

Apesar do sucesso do registo homónimo, o músico de Barcelos decidiu regressar às origens pouco depois de o ter gravado: “Na altura fui várias vezes à televisão e quando ia tomar o café – se calhar, era paranóia minha – pensava que toda a gente estava a olhar para mim. Já não tomava o café em condições e não gostava daquilo. Então, vim para Barcelos. Gosto de sossego”. Além do mais, sentiu que a carreira já estava de tal forma alavancada que a podia gerir a partir de Barcelos. “Nunca fui rico. Tive que ir para Lisboa tentar viver da música e consegui. Ganhei algum dinheiro. Com isto já consigo viver, vou para Barcelos. E acabei por estar mais ligado à música tradicional. Se tivesse ficado em Lisboa podia ser mais famoso, mas não teria esta alma tão grande da música do Minho”.

Entretanto, a evolução tecnológica também veio alterar todo o paradigma da indústria musical e, adquirido o estatuto, é indiferente a localização geográfica. “Quando fui tocar à Namíbia, foi porque as pessoas me viram no You Tube. Se calhar, o meu álbum não o conseguiam adquirir, mas ouviram-me através da internet”. Também por isso não lamenta não ter editado um segundo disco: “Pego na viola, no microfone e mando para o You Tube. Está o álbum feito. Na altura não era possível fazer isto. Quantas pessoas hoje se tornam famosíssimas à conta do You Tube?”. Quando perguntamos se, fazendo a retrospectiva de uma carreira de quase 40 anos, faria algo diferente, Jorge Lomba garante que “fazia tudo igualzinho”. “Adorava que a vida me corresse como correu até agora”, remata.

Reportagem publicada na edição de 13 de Julho de 2016 do Jornal de Barcelos.

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