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Perante uma plateia que tinha o guarda-chuva como adereço indispensável, José Cid apresentou na Festa das Cruzes um espectáculo muito divertido em que não faltaram os clássicos. Aliás, o alinhamento pareceu um “best-of”, intercalado com temas do mais recente “Menino Prodígio” e outros que nem sequer estão gravados. Horas antes do espectáculo, o JB esteve à conversa com José Cid. Sem papas na língua, de bem consigo próprio, é tão interessante quanto polémico.

 “Menino prodígio” é auto-biográfico. Quando percebeu que nasceu para a música?

Aos quatro anos. Começava a tocar piano e a cantar e as pessoas ficavam muito admiradas: “Quem é a professora dele?”. E os meus pais diziam: “Ninguém o ensina”. E os amigos dos meus pais perguntavam-se: “Como é possível? É um menino prodígio”. Fui chocando a história e como sou bom poeta escrevi a canção. Estou muito contente, o videoclipe tem 300 e tal mil visualizações. “Menino prodígio” define o grafismo do álbum, mas não o álbum, que é de poesia de intervenção. É uma ilha no meio do álbum que tem poemas muito densos, muito roqueiro, muito bem tocado. É um álbum que eu adoro. A primeira faixa, “Na Minha Guitarra”, já teve comentários no meu Facebook do Steve Hackett, dos Genesis, a perguntar “que guitarrista é este, e é você que canta?”. Há outra música que está a fazer um êxito imenso ao vivo que se chama “De mentirosos está o cemitério cheio”, o que me vai obrigar a fazer uma nova versão e a lançar um single daqui a dois ou três meses.

Pelo título, suponho que seja de desilusão com os políticos.

Com o planeta em si. Não estou a apontar a partido nenhum, mas a uma ideia geral da aldeia global em que vivemos.

Há pouco tempo apoiou a criação de um partido, o Nós, Cidadãos.

Para mim acabou por não haver diálogo. Para eu pertencer a um partido as pessoas têm que dialogar: o que nós queremos, o que vamos fazer? Tem que haver diálogo. De mandões também está o cemitério cheio.

E o que é que o José Cid quer?

Acho que as coisas têm que ser feitas numa base de consenso. Os partidos não se entendem. Isto não é uma democracia, é uma partidocracia. Felizmente, o Portugal fora de Lisboa defende-se melhor. Uma cidade como Barcelos está mais próxima de si própria. Não são uns senhores de Lisboa que sabem o que Barcelos precisa. Se paga impostos em Barcelos, os impostos deviam reverter num raio de 10 km para pessoas mais carenciadas. Os seus impostos vão para Lisboa e ninguém lhe responde o que fazem deles e até são arrogantes na resposta.

Falou da partidocracia, mas normalmente quem aparece com um discurso anti-partidos, como o Fernando Nobre, depois também acaba por desiludir.

Eu tinha uma certa admiração pelo Fernando Nobre… Mas eu não sou republicano…

É monárquico.

Sou monárquico progressista. Quando me perguntam porquê, respondo com as monarquias do Norte da Europa, são os países mais civilizados do mundo, com melhor nível de vida, com menor índice de corrupção, culturalmente os mais evoluídos, e isto no meio do frio, de neve, de noite.

Mas na base da monarquia está um chefe de Estado que o é por hereditariedade…

Aprende a sê-lo.

Sim, mas, por exemplo, nós podemos não estar satisfeitos com o Cavaco mas ele estará lá no máximo dez anos.

É comparar os filhos do Cavaco com os filhos do rei de Espanha. E é de rir. Espanha não é uma monarquia perfeita mas muito mais cultural e que luta muito mais pelos seus interesses do que Portugal. Com o sol e as praias que temos e não há um ministério do Turismo…

Também não temos um da Cultura.

É um país muito mal pensado. E eu tenho 73 anos, sou um cidadão do mundo, que atravessou o planeta inteiro e tem ideias para o país que partem precisamente do aproveitamento do sol, das praias e da cultura e das coisas boas que temos. Porque a Cultura não é para gastar dinheiro, é para dar dinheiro.

Tem 73 anos, mas uma vitalidade enorme.

Não bebo, não fumo, durmo a sesta, levo uma vida saudável. Só estou a gerir a minha decadência.

Está conformado?

De forma alguma, ainda tenho oito álbuns para fazer. Tenho um colega que tem exactamente as mesmas características que eu como cantor, mas não tem a saúde que eu tenho. É o Carlos do Carmo. É um homem de talento de nível mundial, mas que infelizmente não tem saúde. E merecia ter, porque há aí tantos plagiadores com saúde que é uma coisa que até irrita.

Não poupa nos elogios, mas também é duro nas críticas a outros colegas.

Às pessoas que não são honestas.

Gosta de alimentar polémicas?

Eu não contesto, constato. Não gosto das músicas do Tony Carreira porque não são verdadeiras, toda a gente sabe, está na net, e ele não consegue contradizer isso. Não canta em directo na televisão porque se cantar é um desastre. Mas gosto da pessoa dele, é bom pai de família, protege aqueles filhinhos, que também não são talentosos mas aparecem aí como se fossem ícones da beleza, mas a música é outra coisa. Há gente muito talentosa a ser esquecida em Portugal e isso é que é grave.

Já chegou a dizer que se sentia esquecido.

Fui.

Já não é?

Não. Tive 200 mil pessoas neste fim de ano a verem-me em Lisboa alucinadas comigo, recentemente estive na Semana Académica de Viseu, o pavilhão cheio tudo aos gritos. Multidões incríveis.

Então, quando é que se sentiu esquecido?

Anos 90. Fiz alguns álbuns muito bons, que eu vou ouvir o resto da vida, mas infelizmente a grande poesia não vende. Hoje há uma invasão de música africana, chamam-lhe kizomba, desculpem lá mas aquilo é uma merda poética, um esterco poético. No outro dia estava a ouvir uma música de kizomba na RFM e era uma cantora que dizia “o meu amor é um homenzarrão, ão, ão, ão, ão”. Desatei à gargalhada. E quando isso passa na RFM, que segrega cantores de grande qualidade – este meu álbum, por exemplo, não passa lá – uma pessoa fica a pensar: em que país é que estou, o que é isto?

Toca em semanas académicas, a sua obra foi recuperada pela malta mais nova?

As novas gerações não são burras, perceberam que eu canto, que tenho boas canções e uma grande banda por trás de mim e que sou verdadeiro, comigo não há playbacks. José Cid é um cantor ao vivo. Nos anos 90 andei por aqui e ali em sítios mais pequenos mas nunca houve ninguém que dissesse “eh pá, não gostei”. As novas gerações perceberam isso e vieram atrás de mim. Eu sou o tio Zé.

Além de cantar, o que mais gosta de fazer?

Escrever músicas, passear com a minha mulher e com as cadelas, visitar a minha irmã, velhinha, que sempre me apoiou na música e é mãe do Gonçalo Tavares, o meu sobrinho mais novo, que é brutal a cantar e a tocar piano… E fazer solidariedade. De Outubro a Maio, aos domingos, disponibilizo-me para fazer solidariedade. Aviso Barcelos: uma vez que vim cá cantar, estou disposto a que a Câmara ou um grupo de pessoas da cidade me convidem a fazer um concerto solidário a favor daquilo que quiserem. Sinto-me na obrigação de retribuir a simpatia que as pessoas me deram.

Entrevista publicada na edição de 6 de Maio de 2015 do Jornal de Barcelos.

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