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Créditos: Eduardo Morgado

Graça Coelho abriu o café Santiago na Avenida da Liberdade em Maio do ano passado: “Se não fosse nesta zona, não abria em mais nenhum lado em Barcelos. No centro as rendas são muito altas, mas compensa”.

O casal Sandro Silva e Sofia Martins e o sócio Carlos Martins inauguraram em Abril deste ano na Rua D. António Barroso uma gelataria chamada Na Direita, aproveitando a forma como aquela artéria emblemática é conhecida.

“Quando surgiu a ideia, o único espaço que nos ocorreu foi este, por ser o centro histórico por excelência, por ser uma rua pedonal e que nos agrada”, conta Sofia Martins. De há sensivelmente dois anos para cá, o centro da cidade, entre a Avenida da Liberdade e a Rua Direita, ganhou nova vida. Abriram cafés, restaurantes, gelatarias, mercearia gourmet, negócios diferentes do habitual. Vêem-se lojas a serem remodeladas, andaimes que indicam obras.

À noite há um movimento que não era habitual. Muita gente na rua. As esplanadas são cada vez em maior número e mais frequentadas. O crescimento do centro tem sido de tal forma notório que levou inclusive à criação da Associação Dinamizar, para defender os interesses dos comerciantes da Rua Direita e adjacentes. “Fazer com que a Rua Direita seja moda outra vez” é o objectivo desta associação fundada em Março, sublinha o seu presidente, Filipe Oliveira. “A Rua Direita já foi moda, depois o comércio acabou por ir abaixo, mas agora estamos no bom caminho”, sustenta.

O presidente da Associação Comercial e Industrial de Barcelos (ACIB), João Albuquerque, não tem quaisquer dúvidas: “O comércio de rua, não só na Rua Direita e na Av. da Liberdade, mas um pouco por toda a cidade e até em algumas zonas de Arcozelo, revitalizou-se”.

E a que se deve? João Albuquerque responde em três pontos: 1) o cidadão “reconhece a necessidade do comércio de proximidade”; 2) a “capacidade de resiliência dos comerciantes” que aguentaram estoicamente as dificuldades dos últimos anos; 3) o “esforço da ACIB” e o facto de a autarquia ter isentado as taxas para as esplanadas, o que resultou num aumento destas e “veio trazer vida à cidade”.

ESPLANADAS REVOLUCIONARAM CENTRO, MAS HÁ QUEM SE QUEIXE

Todavia, as esplanadas estão longe de agradar a toda a gente e já estiveram no centro de uma polémica, este ano, quando a Câmara Municipal deu aval para que um café no Campo 5 de Outubro recortasse parte do jardim para lá instalar a estrutura (que, à feição de outras na cidade, o Município considera amovível, mas na verdade são permanentes).

O crescimento que o centro da cidade tem conhecido nos últimos tempos pode vir a acarretar problemas, designadamente a sobreocupação do espaço público e dificuldades de circulação, sobretudo para as pessoas com deficiência.

“Nota-se que há um ou outro inválido que se queixa dessa situação, mas a verdade é que se não se gera emprego esses tais também não podem ter subsídios, porque o país está pobre e quem paga impostos são os comerciantes”, alega Filipe Oliveira. O presidente da Associação Dinamizar sabe que “há queixas dessas” na Câmara Municipal, mas contrapõe que “as esplanadas fazem falta para animar a cidade”.

O presidente da ACIB tem a mesma visão: “Não conheço nada que seja do agrado universal. Há um antes e um depois da muito sábia decisão da Câmara de ter isentado na totalidade as taxas de esplanada”. Do ponto de vista de João Albuquerque, antes Barcelos “era uma cidade que não tinha vida” e que “às 19h30 fechava” e agora, pelo contrário, tem “muita actividade, tem vida, traz turistas, respira modernidade”.

“As esplanadas são inevitáveis e do agrado da maioria da população”, considera o responsável da ACIB, que não acredita que a circulação de pessoas está a ser ou será prejudicada: “Quem vive fechado na sua concha pode achar isso, mas quem viaja e conhece o mundo vê que em todo o lado é assim. Tem que haver compromisso no sentido de não comprometer a segurança e a mobilidade e cabe a quem de direito reprimir qualquer abuso”.

Na Avenida da Liberdade, a proprietária do café Santiago sente o descontentamento de algumas pessoas com a esplanada. E atenção que é uma esplanada normal, isto é, apenas com mesas e cadeiras, sem qualquer estrutura que a vede, como, aliás, Graça Coelho entende que devem ser as esplanadas. “As pessoas queixam-se de que não podem passar, mas eu acho que há espaço de sobra. Dão pontapés às cadeiras, é de maldade”, observa.

SOBREOCUPAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO? CÂMARA NÃO RESPONDE

Além das esplanadas outras estruturas que podem – caso haja um aumento insustentável do movimento no centro – é a colocação de publicidade móvel. Entre a Avenida da Liberdade e a Rua Direita contam-se à volta de 20 cavaletes publicitários.

O regulamento municipal estipula que “a afixação, inscrição e divulgação de mensagens publicitárias depende do prévio licenciamento da Câmara”. E que, “em cada estabelecimento, será uma única forma de publicidade por fachada confinante com a via pública”. Daí termos referido que, caso haja um aumento significativo do comércio, a questão da publicidade em estruturas móveis, permitidas em passeios com mais de 1.20 metros e que deve manter essa distância “em relação ao limite exterior do passeio”, possa tornar-se um problema, em conjunto com a proliferação das esplanadas.

No dia 11 de Setembro, o JB enviou à Câmara uma série de questões: considera haver risco de sobreocupação do espaço público?; o número de cavaletes publicitários, que têm de ser licenciados pelo Município, tem aumentado nos últimos dois anos?; quantas licenças estão atribuídas?; ao contrário de outros concelhos, o Município não tem um regulamento exclusivo para os cavaletes publicitários, consideraria tal necessário?; é de alguma forma equacionada para o centro histórico a homogeneização de esplanadas e da publicidade para evitar poluição visual? Até à data, um mês depois de serem colocadas as questões, a Câmara não respondeu.

Os responsáveis da gelataria Na Direita consideram que ter “esplanada é bastante importante” e têm um projecto para avançar com uma fechada “o mais brevemente possível”.

Sofia e Sandro têm formação em Engenharia Civil. Como essa área não estava nos seus melhores dias, decidiram regressar a Itália, onde já haviam estado “algum tempo” e lhes surgira “a paixão pelos gelados”, para ter formação. Posteriormente, o gosto que o casal tem pela produção artesanal de gelados encontrou em Carlos Martins, cabeleireiro com estabelecimento a funcionar no Largo dr. José Novais, a vontade de “dinamizar” o centro da cidade.

Na Direita abriu ao público em Abril, apanhando portanto os meses de Verão em que mais pessoas andam na rua, e o movimento na gelataria tem sido muito. “Barcelos precisava de um produto diferente”, considera Sandro Silva, notando que agora a Rua Direita, “principalmente à noite, ganha outra vida”. “Faz sentido Barcelos ter outro tipo de vida nocturna para as pessoas não fugirem para outras cidades”, defende. E a abertura de outros espaços, a concorrência, é vista com bons olhos, uma vez que, “quanto mais movimento [a rua] tiver, melhor é para todos”.

“ANTES NÃO SE PASSAVA NADA, AGORA HÁ MUITAS ESPLANADAS E FESTAS”

“Como o mercado não está a aumentar, temos que ter melhor qualidade de serviço, melhor preço, etc, para que quem vai a Braga e Porto se transfira para cá”, aponta Filipe Oliveira. O presidente da Associação Dinamizar quer, nesse sentido, que as esplanadas estejam abertas até à meia-noite para atrair mais consumidores. “O que está mal é a Câmara permitir que uns fechem mais cedo e haver outros que estão a dar vida à cidade, e ambos estejam isentos [das taxas de esplanada]”.

Quem não funciona à noite é o café Santiago porque, justifica a dona, “não compensa”. Graça Coelho também nota um aumento do número de estabelecimentos a abrir no centro e não tem problemas com a concorrência. No entanto, defende que devia ser pensada a instalação de bares na Frente Ribeirinha, mais afastada de zonas habitacionais e onde, por isso mesmo, os estabelecimentos podiam estar abertos até mais tarde.

No café Santiago os melhores dias são as quintas-feiras, por causa do mercado semanal, e os domingos. O fluxo aumenta claramente no Verão: “Todos os dias são bons e a quinta-feira é o fim do mundo”.

Graça Coelho repara que ali vêm “muitas pessoas de fora”, da Póvoa de Varzim, Braga, Viana do Castelo ou Esposende, que lhe dizem que Barcelos está agora “muito bonito” e que “antes não se passava nada, mas agora há muitas esplanadas, pastelarias, festas e actividades”.

A proprietário do Santiago, que trabalhou muitos anos no ramo na Suíça, salienta que não se envolve “em políticas” e nem sequer quer saber disso, mas nota que “desde que o PS foi para a Câmara foi uma diferença grande na cidade”.

“Toda a gente o diz. Por isso é que eles ganharam segunda vez. Não sei se estes são melhores do que os outros, mas nota-se que há muita actividade. Toda a gente diz que dá gozo vir aqui, que é mais bonito do que na terra deles e que há sempre festas”, regista.

Além disso, não é de descurar a importância que o Caminho de Santiago vem ganhando ao longo dos últimos anos. Todos os dias se vêem peregrinos a atravessar a cidade. A Associação Dinamizar considera que há “necessidade de aproveitar o turista peregrino”, mas lamenta que as infra-estruturas “estão muito aquém do que é necessário, o que é um problema da Câmara” que “está a ajudar pouco, porque não ouve os comerciantes da Rua Direita”. No entanto, apesar das críticas à Câmara, que versam ainda esta não ter concessionado o Largo dr. Martins Lima, em frente ao Teatro Gil Vicente, como terá prometido, o presidente da Dinamizar salienta um bom trabalho do Município na questão das esplanadas, que “são um bom cartão-de-visita para o centro da cidade”.

ACIB ALERTA QUE CENTRO COMERCIAL PREJUDICARÁ CRESCIMENTO DO COMÉRCIO LOCAL

João Albuquerque considera que a possibilidade de vir a ser aberto um centro comercial junto do centro, mais concretamente na Quinta do Benfeito, “será sempre um calcanhar de aquiles em qualquer estratégia de crescimento do sector retalhista tradicional”. A ACIB é frontalmente contra um empreendimento. Caso venha a concretizar-se a construção do centro comercial, “o crescimento [do comércio no centro da cidade] pode ficar claramente comprometido”.

Contudo, o presidente da ACIB está confiante que tal não irá acontecer: “Entre a notícia de que é provável que venha um centro comercial e que isso seja uma realidade, faltam muitos passos no meio”.

Para João Albuquerque, a abertura de hipermercados – há interesse do Pingo Doce, Intermarchê, Lidl e AKI – já é outra questão. E não é tão crítico: “Temos que distinguir as duas situações: uma coisa são os empreendimentos de loja e outra são uma loja dessas instaladas num centro comercial. São dois impactos completamente diferentes. No empreendimento de loja há um acto de compra individual, enquanto o centro comercial é um centro lúdico, de passeio, onde as pessoas vão esteja frio ou calor e que vai desertificar a cidade e a sua envolvente”.

Enquanto isso, a ACIB viu recentemente aprovado um projecto no âmbito do Comércio Investe que irá permitir a requalificação de 22 lojas do centro da cidade e a dinamização de iniciativas para a promoção do comércio local. É o caso de uma imagem identificativa do centro urbano, um portal em português e inglês para divulgar a zona, aplicação de smartphone para divulgar as lojas aderentes, sistema de acumulação de pontos, guia em papel para publicitar a oferta comercial, publicidade em moopies e sistema de entregas ao domicílio. “Vamos implementar o projecto de forma progressiva. E as lojas que não podem fazer o investimento poderão usufruir desta estratégia de grupo”, refere João Albuquerque.

Associação Dinamizar: “Há muita gente a querer morar na baixa”

Com o objectivo de “unir os comerciantes para fazer coisas em conjunto e melhorar o que o comércio local”, a Associação Dinamizar promoveu no dia 26 de Setembro uma iniciativa inédita chamada “Há Festa na Rua Direita”. A partir das 19h30 a Rua Direita encheu-se de música (até às quatro da madrugada), comes e bebes as lojas estiveram com as portas abertas até à meia-noite com preços especiais.

Filipe Oliveira afirma que há uma “grande procura de negócios” no centro: “Agora na Rua Direita é uma procura de lojas todos os dias”. E não é só para comércio que a zona é procurada. O presidente da Dinamizar salienta que “há muita gente que quer voltar a morar na baixa” de Barcelos. E isso nota-se pelos andaimes ao longo da Rua Direita: “É o local onde tem mais obras e onde vai continuar a ter mais gruas”.

Reportagem publicada na edição de 14 de Outubro de 2015 do Jornal de Barcelos.

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