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policia-sinaleiroArtur Ferreira foi o último dos polícias sinaleiros em Barcelos. Dos 30 anos de serviço na PSP, 20 foram em Barcelos, quase sempre comandando o trânsito na ponte medieval. “Punha-me a meio da ponte sozinho, passava um carro a um palmo da barriga e outro das costas. ‘Não me acertem nas costelas e vamos embora! Pesados encostam ao castelo, venham os ligeiros…’ Aquela ponte pôs-me careca, completamente”, recorda.

À época, não havia quem não o conhecesse e muitos serão os que ainda se recordam do ex-polícia sinaleiro agora com 70 anos. Tem “muita pena” que o ofício se tenha perdido, dando lugar aos semáforos. “Foi o serviço dentro da PSP de que eu mais gostei”, sublinha.

Guardando um imenso orgulho de ter sido sinaleiro, recorda que foi o primeiro no curso de formação em Lisboa e ganhou em França um concurso organizado pela Internacional Polícia Associativa.

Decidiu enveredar por aquela especialidade “porque gostava” de ver na capital “os sinaleiros com os punhos, o cinturão, o coldre, tudo branco. Até havia quem chamasse cabeças-de-giz aos sinaleiros por o capacete ser branco”, graceja.

No entanto, quando chegou à polícia, Artur Ferreira, natural e residente em Aborim, já tinha larga experiência de vida. De uma vida dura, como todos os que na altura não nasciam em berço de ouro.

Quando terminou a quarta classe, com dez anos, começou a trabalhar numa serração. Esteve lá quatro anos, até ter a ousadia de pedir ao patrão um aumento de salário, então de cinco escudos por dia. “Em contrapartida, ele perguntou-me quanto é que eu lhe dava para me aumentar o trabalho”, lembra.

Decidiu, portanto, que não voltaria a trabalhar na serração e quando chegou a casa disse-o à mãe, que não viu a situação com muitos bons olhos. “Levei uma grande coça”.

Aborim, estação de Tamel, terra de ferroviários. Um primo de Artur Ferreira, funcionário da CP, sabendo-o desocupado, perguntou-lhe: “Queres ir para o caminho-de-ferro?”. A resposta foi afirmativa e imediata e levou-o para o Entroncamento. “Deram-me logo três esferográficas muito bonitas: picareta, forquilha e pá”, diz com humor. “Era um rapazito com 14 anitos, a picareta pesava quase tanto como eu, mas tinha que andar no meio dos graúdos e foi assim que aprendi. Uma rica lição de vida”.

Nos trabalhos de reparação de via-férrea acabou por fazer parte das “brigadas móveis”. Na composição com perto de uma dezena de vagões os homens comiam e descansavam enquanto seguiam para outro sítio. “Acabávamos um trabalho, metíamos a ferramenta num vagão descapotável, recolhíamos aos vagões cobertos, onde tínhamos as camas, e o comboio seguia viagem para outra paragem onde tínhamos de começar outro trabalho”, explica.

Artur Ferreira manteve-se a trabalhar nos caminhos-de-ferro até aos 20 anos, quando foi chamado para a tropa. Assentou praça no Regimento de Infantaria 8, em Braga, tirou a especialidade no Regimento de Transmissões do Porto, passou pela Trafaria e Elvas e, após ano e meio de serviço militar, foi mobilizado para a Guiné.

“Corri todo o norte da Guiné, as zonas de maior pancadaria estão em cima do corpo deste rapaz. Mas não quero recordar esses tempos, são coisas que me fazem arrepiar. Ainda bem que isso acabou e não vi os meus filhos nem os meus netos irem para a guerra”, realça.

“TENHO A CERTEZA QUE DESPACHAVA MAIS TRÂNSITO DO QUE OS SEMÁFOROS”

Após dois anos e meio na ex-província ultramarina, regressa a Portugal e, desta feita, começa a trabalhar como madeireiro, profissão a que se dedicou cerca de ano e meio. Até que um dia disse ao patrão: “Amanhã não venho trabalhar. Vou a Barcelos fazer, ao mesmo tempo, o requerimento para a PSP e para a GNR”. O patrão só lhe disse: “Oh rapaz, vai lá que isto não é vida”.

E o rapaz assim fez. “Fui a Barcelinhos à GNR, depois vim para baixo, ainda a PSP era na Câmara, e fiz lá também o requerimento. Aproveitava o primeiro que aparecesse. Veio o da PSP, lá fui”.

Primeiro foi para as Caldas da Rainha, depois Setúbal, Lisboa, Aveiro, Porto, Braga, até que, por fim, ao cabo de dez anos, ficou em Barcelos. E aí desenvolveu a actividade de polícia sinaleiro – “mas já sem o equipamento, era com o fardamento normal e o boné” – durante largos anos, tendo-se aposentado em 1998. E qual é a arte do polícia sinaleiro, perguntamos. “Ter olhos bem rasgados até às orelhas e nunca consentir muito tempo os motores dos carros à beira dos pés, fazia-me uma confusão, queria vê-los a andar, sempre”.

Em Braga tinha a pianha (base onde o sinaleiro se coloca) fixa “no cruzamento junto ao Turismo”. “Mandava parar o da frente e aos das minhas costas automaticamente fazia um stop. Já me conheciam de tal maneira que bastava dizer ‘vou ali beber uma água e venho já’ e ninguém arrancava. Mal me viam a sair [do café] já começavam a acelerar”, recorda.

A maior dificuldade da profissão é mesmo essa: não pode sair do local. “Tinha ocasiões de pedir por favor que me fossem buscar uma garrafinha de água que eu não tinha tempo de ir beber nada e já estava cego com a sede”, nota.

Os semáforos é que não precisam de beber e tomaram o lugar do polícia sinaleiro. Todavia, Artur Ferreira considera que, neste caso, o homem supera a máquina e que a profissão hoje ainda faria sentido: “Aprecio os semáforos, vejo como funcionam. Se estivesse num cruzamento hoje, tenho a firme e absoluta certeza de que despachava mais trânsito do que os semáforos”.

Reportagem publicada na edição de 10 de Agosto de 2016 do Jornal de Barcelos.

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