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manuel_silva (4)Manuel Silva era o comandante da Bula, a chaimite que retirou Marcelo Caetano do Quartel do Carmo. Eram cerca das 19h30 do 25 de Abril de 1974 quando o chefe de Estado se rendeu com garantia de segurança. Abandonou o Carmo e seguiu para o quartel da Pontinha, onde estava instalado o posto de comando da Revolução.

“A saída do Carmo foi um bocado complicada”, recorda o então furriel de 22 anos que tinha tirado a especialidade de blindados na Escola Prática de Cavalaria (EPC) de Santarém, de onde naquela madrugada saíra na coluna de 240 homens comandados pelo capitão Salgueiro Maia.

Milhares de pessoas gritavam “mata, mata, mata”, mas Marcelo Caetano manteve sempre a compostura. “Foi durante todo o trajecto com muita dignidade. Via-se que era um verdadeiro estadista. Ia muito calado, sereno, ao contrário dos outros dois ministros [César Moreira Baptista e Rui Patrício] que iam aterradinhos de medo”, conta Manuel Silva.

A atitude do chefe de Estado impressionou o furriel, que já estava a cumprir serviço militar há sensivelmente dois anos e meio e que seria, poucos dias depois, transferido para o Porto. “Conhecia o Marcelo só de o ver na televisão, nas célebres ‘Conversas de Família’. Eu, um jovem com 22 anos, estar ali e, de repente, aparecer-me uma pessoa daquelas, que tinha estado à frente dos destinos do país, à minha frente… a pessoa fica um bocadinho estática. Foi uma rendição muito digna da parte dele. Desde que lhe garantiram toda a segurança, não o vi aparentemente com medo e estava um ambiente terrível cá fora”.

Bem viva na memória tem Manuel Silva as poucas palavras que Caetano lhe dirigiu: “Eu estava na entrada da porta lateral da chaimite, ele virou-se para nós, ao entrar, e a única frase que ele disse foi: ‘é a vida´”.

Hoje, com 62 anos, recorda esse dia com “muita nostalgia”. E não é para menos, pois foi interveniente directo num processo que mudou por completo o país. O facto de ter sido ele a comandar a chaimite em que seguiu Marcelo Caetano foi um feliz acaso que o marcou para sempre. “Tive a felicidade de ter a chaimite mesmo em frente ao portão, era a que estava mais perto”, recorda. “É o dia mais histórico da minha vida. O 25 de Abril e o nascimento das minhas filhas são dos dias mais felizes que tive”.

SALGUEIRO MAIA ABORDOU SARGENTOS NO DIA ANTERIOR

Foi na tarde do dia anterior que Manuel Silva tomou conhecimento do que se ia passar pelo próprio Salgueiro Maia, que o abordou “individualmente” – assim como aos outros três furriéis responsáveis pelos blindados. “Tínhamos que ter as viaturas preparadas, tínhamos forçosamente que ter conhecimento porque uma operação desta envergadura não se desencadeia de um momento para o outro”. Nessa abordagem, contudo, o capitão Maia, que mais tarde realçaria a importância que os sargentos que comandavam as viaturas tiveram no sucesso da Revolução dos Cravos, não abriu completamente o jogo, mas para bom entendedor meia palavra bastava. “Fomos contactados sem dizer praticamente o que se estava a passar, mas depois do 16 de Março…”.

O furriel de Barcelos tinha feito a recruta no Regimento de Infantaria 5 (RI5) nas Caldas da Rainha, de onde no dia 16 de Março de 1974 tinha saído uma coluna militar para tentar derrubar o regime. A tentativa de golpe ficou conhecida como o “Levantamento das Caldas”. Nessa altura, Manuel Silva já estava na EPC e foi mobilizado para obstar ao golpe. “Fui numa coluna de Santarém para parar o pessoal que vinha das Caldas para Lisboa, mas aquilo foi tudo boicotado. De Santarém a Rio Maior, uma distância de 30 quilómetros, demorámos quase duas horas para dar tempo de eles [os militares do RI5] regressarem ao quartel”, lembra.

Meia-noite e vinte de 25 de Abril de 1974. No programa “Limite” da Rádio Renascença passa “Grândola, Vila Morena” de José Afonso. É a senha de que a operação fim do regime é mesmo para avançar. Na EPC todos os soldados são acordados por volta da uma da madrugada.

Salgueiro Maia explica-lhes o que se vai passar e pede voluntários. Ninguém era obrigado a ir, mas não era esse o problema, porque ninguém queria ficar. “Toda a gente queria ir, quando ele disse que ia haver um golpe para acabar com o estado a que o país tinha chegado. O quartel tinha mais de mil pessoas, os dois esquadrões não levavam todos”.

À cabeça da coluna seguia “um carro à civil com dois aspirantes e um alferes a ver se havia movimentações”, até porque a PIDE estava “em prevenção desde o 16 de Março”. Para “as pessoas de Santarém”, todo aquele aparato “era um dos muitos exercícios” que se faziam na EPC. Mas não. Aqueles 240 homens às ordens de Salgueiro Maia tinham objectivos bem reais: “A nossa missão era ocupar os ministérios no Terreiro do Paço”.

“BASTAVA UM DISPARAR E HAVIA UM BANHO DE SANGUE”

O momento de “maior tensão” foi o encontro com as forças da Cavalaria 7, que defendiam o regime. “A parte mais difícil de todo o 25 de Abril. Ali havia um certo receio. Foi uma altura de muito suspense e perigo, em que sentimos, tanto os que estávamos do lado de cá como os que estavam do lado lá, que bastava um disparar e havia um banho de sangue”. Não houve, porque primeiramente o alferes Sottomayor e depois o cabo-apontador, José Alves da Costa, desobedeceram às ordens do brigadeiro Junqueira dos Reis, que os mandara abrir fogo.

Tudo correu pelo melhor, devido “ao poder persuasivo do Salgueiro Maia”, sublinha Manuel Silva: “É isso que o torna o grande herói do 25 de Abril. Teve um poder de diálogo muito grande”. Mas o capitão tem que dividir o papel de protagonista com o povo. “Mesmo as forças que vieram contra nós sentiram que o povo estava do nosso lado, eram milhares a gritar, a apoiar-nos”.

Outra situação de nervos ocorreu antes da rendição de Marcelo Caetano, quando Salgueiro Maia mandou disparar sobre o quartel do Carmo. “O Largo estava repleto mas num minuto desapareceu toda a gente. Foi impressionante como as pessoas se metiam nos prédios todos, a arrombar as portas”.

Também foi no Largo do Carmo onde Manuel Silva ajudou o político Francisco Sousa Tavares, pai do jornalista e escritor Miguel Sousa Tavares, a subir a uma guarita do Quartel para falar ao povo com um megafone.

O comandante da Bula permaneceu até ao dia 29 de Abril em Lisboa a fazer “segurança” e só depois regressou a Santarém, onde pouco tempo ficaria. No dia 11 de Abril já tinha recebido a desejada ordem de transferência para o Regimento de Cavalaria 6 (RC6), no Porto. Apresentou-se no quartel portuense no dia 1 de Maio, quando houve as maiores manifestações de sempre do Dia do Trabalhador. Mandaram-no para casa. Quando chegou a Barcelos, “estava o Largo da Porta Nova cheio de gente” e teve que satisfazer a curiosidade das “muitas pessoas” que já sabiam que ele estivera na operação militar que derrubou o regime e queriam saber mais pormenores.

Esteve até ao final do ano no RC6 e depois abandonou a tropa, decisão de que se arrepende. “Acho que o maior pontapé que dei na minha vida foi não ter continuado a carreira militar. Mas estava cansado daquilo”. Voltou então para a tipografia do pai, onde já trabalhava antes de ir cumprir o serviço militar e continuou até à reforma. Desiludido com a política, considera que “o país não merecia estar na situação em que está”, e lamenta que o propósito que levou o Movimento das Forças Armadas a fazer a Revolução tenha começado “a ser deturpado logo de seguida”. “Para a Junta de Salvação Nacional foram buscar pessoas que não se identificavam com o que, de facto, foi o 25 de Abril”.

Reportagem publicada na edição 173 do Jornal de Barcelos no dia 23 de Abril de 2014.

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